Tony Goes

Boicote a famosos que não apoiam Jair Bolsonaro seria grave se não fosse ridículo

Lista com nomes de mais de 700 artistas circula no WhatsApp

Anitta integra lista de artistas que são alvo de boicote por não apoiarem Bolsonaro
Anitta integra lista de artistas que são alvo de boicote por não apoiarem Bolsonaro - Daniel Pinheiro/Divulgação/Mulishow
 

Tony Goes
São Paulo

Sou totalmente a favor do boicote como instrumento político. Se bem direcionado e executado, um boicote pode alcançar seu objetivo sem recorrer à violência. E isto, apesar de atingir uma das partes mais sensíveis de qualquer pessoa: o bolso. 

A prática surgiu na década de 1970, quando ativistas do então incipiente movimento pelos direitos LGBT, nos EUA, conclamaram seus seguidores a não consumir determinadas marcas, vistas como apoiadoras do campo oposto. 


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A prática logo se espalhou pelo mundo e pelo espectro político. Hoje em dia, direita e esquerda propõem boicotes contra qualquer coisa de que não gostem. Se for por uma causa social, então, muitas vezes o boicote nem precisa se concretizar: sua simples ameaça faz com que uma empresa tire um comercial ofensivo do ar, ou mude a formulação de algum produto. 

Mas é preciso ter coerência ao pedir um boicote. Não dá para fazer como o pastor Silas Malafaia, que, em março de 2017, conclamou seus fiéis a não ver o filme “A Bela e a Fera”. Seria um protesto contra a Disney, produtora do longa, que teria inserido cenas de “propaganda homossexual” até em desenhos animados, além de oferecer benefícios aos parceiros do mesmo sexo de seus funcionários.

 

Não deu certo, mas meu ponto aqui é outro. Malafaia tem todo o direito de reclamar de quem não concorda com suas crenças. Portanto, deveria abrir o leque e boicotar também a Apple, a Coca-Cola, o Facebook, a P&G e dezenas de outras companhias que tem políticas a favor da diversidade e da inclusão. 

Mais risível ainda é a lista de artistas, jornalistas e pessoas ligadas à produção cultural que vem circulando em alguns grupos no WhatsApp. Trata-se de uma relação com mais de 700 nomes, muitos deles desconhecidos do grande público. Comum a todos, só fato de que, em algum momento, eles manifestaram repúdio à candidatura de Jair Bolsonaro (PSL) à presidência. 

Claro que qualquer um pode deixar de ir a um show, ver um filme ou ler um jornal pela razão que bem entender. Eu mesmo já deixei de ser fã de muita gente, depois de me dar conta de suas verdadeiras inclinações políticas. Faz parte. Mas boicotar todos os nomes incluídos na tal da lista seria tão impraticável como seguir à risca, nos dias de hoje, todas as regras presentes na Bíblia.

Os boicotáveis incluem diretores de novelas da Globo, sócios de produtoras de cinema, escritores obscuros e até esportistas. Todos, sem exceção, “mamam do dinheiro público”, em mais uma interpretação equivocada da Lei Rouanet. Mesmo sendo impraticável, esse boicote tem algo de sinistro.

Ele se insere em meio às ações de cunho autoritário que vem pipocando desde que foi anunciado o resultado da eleição. Como a deputada estadual eleita por Santa Catarina que incitou alunos a gravar e denunciar professores supostamente “esquerdopatas”, ou as agressões virtuais e até reais que alguns famosos vêm sofrendo. 

O perigo é real e deve ser levado a sério. Mas também não deve ser levado: o humor tem poder, e a desmoralização pelo riso pode ser mais eficaz do que pelas armas. Então, vamos rir desses boicotes inviáveis e fascistoides. É só o que eles merecem.

 

Tony Goes

Tony Goes tem 56 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.blogspot.com

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