Marcelo Arantes

Enredo do 'BBB 18' começa com disputa entre vitimizados na busca por holofotes 

Envolver-se em um conflito logo no início de "BBB" é cartada de vida ou morte, e dois competidores arriscam um xeque-mate.

Mahmoud  precisou de motivo pra votar no primeiro paredão. O filho de libaneses é um gay afeminado que não gosta de ser chamado de veado por quem não o conhece. E a palavra, ouvida como insulto a vida toda, doeu em seus ouvidos na voz inconfundível da adversária.

Ana Paula, atingida pelo voto de eliminação repentino, fez da rejeição uma mágoa de estimação na velocidade instantânea em que foi indicada.

De fato não se chama um negro de preto ou um homossexual de veado a menos que se tenha intimidade com eles. Minutos antes do voto de Mahmoud, a audiência ridicularizava a voz de Ana Paula nas redes sociais e a chamava de insuportável. Mas foi só a bruxinha recorrer ao choro da vitimização que comoveu alguns colegas de confinamento. Arrebatou também parte dos telespectadores que não compreendem por que a sociedade mudou a ponto de não pode mais chamar um gay de veado quando se tem vontade.

O drama que se seguiu com esta indicação presenteou o "BBB 18" com seu primeiro enredo e após o ocorrido conferimos a resiliência dos envolvidos. Mahmoud se saiu um pouco melhor, assumindo que foi rude, mas não pediu desculpas. Usou seu instante de influência de líder para fazer uma brincadeira divertida de terapia corporal com os colegas. Ana Paula preferiu o muro das lamentações e foi cobrar desculpa por ter sido votada. Em sua ingenuidade ela desconhece que, além de virar uma ex-BBB em breve, receber voto é a primeira das certezas do "BBB".

Qual dos dois tem mais baixo limiar de tolerância a contrariedade, e quem é o mais histérico? O sexólogo e a bruxinha são tão parecidos emocionalmente que não foi à toa que se chocaram. Prometem comover e polarizar, e obviamente nenhum deles merece sair agora.

Os primeiros a deixarem a casa devem ser Ayrton e a esposa Eva. Ao colocar no ar uma família de classe média, o programa disfarçadamente tenta se aproximar do telespectador comum, quando na verdade seu elenco embranqueceu e se embelezou. Da família Lima destacam-se Ana Clara, a filha ruiva infantil sem-noção e Jorge, o primo gordinho engraçado e fofoqueiro.

O olhar aumentado sobre as relações afetivas desta família fez o público médio assustar-se com o excesso de intimidade do pai com a filha. Isso rendeu um puxão de orelhas da direção, e desde então o animado Ayrton murchou. Eva, a mãe, personagem absolutamente mais comum do elenco e por isso bem interessante, não se destacou a curto prazo, e deve acompanhar o marido na primeira eliminação. Na próxima semana, quando Ana Clara e Jorge começarem a atuar como um jogador só, poderemos ver batalhas íntimas promissoras. Se funcionar, o recurso de associar duplas pode virar tendência e aparecer nas próximas edições, cada jogador com seu coach.

Felizmente, o "BBB 18" conta com um elenco de potencial cômico e colorido, algo importante para um programa de entretenimento nos sombrios e conservadores dias de hoje. A cientista política Mara é promessa, ainda que insista em montar um cartel de mulheres. Jaqueline, a loira sorridente preferida do editor, Patrícia, a cearense espontânea, e Kaysar, o refugiado sírio exagerado e paspalhão, são tipos populares que podem trazer leveza e fazer a audiência rir.

Entretanto, em sua décima-oitava edição, o "BBB" chama a atenção por mudar o sistema de votos da audiência, que deixam de ser secretos. A TV Globo saberá agora como é a população que vota em cada participante, e veremos como se beneficiará de dados que qualificam a audiência. A ferramenta estimula ainda compartilhamento de votos e enquete nas redes sociais, reverberando o marketing gratuito.

Vale tudo na estratégia de preservar a longevidade da galinha dos ovos de ouro da casa. A audiência agradece e sorri satisfeita.

Marcelo Arantes

Marcelo de Oliveira Arantes (@dr_marcelo_) é psiquiatra, mora em São Paulo e comenta o "BBB" há dez anos, desde que participou do "Big Brother Brasil 8". É autor de “A Antietiqueta dos Novos Famosos”.

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