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Zapping - Cristina Padiglione

O que está por trás das mudanças no comando da Globo?

Com poder ampliado na empresa, Amauri Soares representa um modelo de gestão que valoriza a diplomacia e o diálogo

Ricardo Waddington (à esq.), deixa a Globo e será substituído por Amauri Soares
Ricardo Waddington (à esq.), deixa a Globo e será substituído por Amauri Soares - Montagem/Divulgação TV Globo
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São Paulo

A ascensão de Amauri Soares, nomeado esta semana como novo diretor dos Estúdios Globo no lugar de Ricardo Waddington, representa a aposta de Paulo Marinho, diretor-presidente da Globo, em uma figura acima de tudo diplomática e de grande habilidade para lidar com conflitos internos em um meio de alta combustão provocada pela vaidade de seus talentos.

Afinal, televisão não é uma empresa como outra qualquer, como dizem. A normalidade ali acaba no departamento de contabilidade, e olhe lá.

Negociar com profissionais alimentados pela vitrine do vídeo, sejam atores, criadores e até alguns jornalistas, pede mais tato do que contratar ou demitir um gerente de banco, por exemplo.

Assédio moral e sexual, algo de que a emissora começou a tratar há bem pouco tempo, é outra questão particular no caso de TV. Pode acontecer em qualquer lugar, mas quando ocorre nos bastidores de uma TV, com pessoas famosas, é preciso que o departamento de compliance aja com eficiência para resolver possíveis delitos dentro de casa, ou antes de chegar à imprensa e ao tribunal da internet, como tem acontecido.

Além da competência administrativa, Soares é conhecido pela capacidade de conciliação e rapidez na resolução de problemas. Menos centralizador e mais flexível que Waddington, é um profissional que tem avançado degrau por degrau na Globo, onde está desde 1987, com breve passagem pelo SBT.

Conhecido pela obsessão por trabalho, é também alguém mais disposto a dialogar e argumentar. Mais que qualquer guerra dos tronos por poder na Globo ou que apenas a busca de métricas de audiência e gastos, é o perfil conciliador de Soares que pesa na decisão de Paulo Marinho em ampliar o espaço de seu principal executivo hoje.

Até porque a projeção do atual organograma, traçada há pouco mais de dois anos, partia de uma descentralização de poder, algo que agora parece paradoxal diante do acúmulo de funções dadas a Soares.

Ao deixar a Globo, Carlos Henrique Schroder enterrou o cargo de diretor-geral. Foi a partir dali que se criou um chefe para os Estúdios Globo --no caso, Waddington--, e outro para a TV Globo, com Amauri Soares, que até então era diretor de programação. Ao assumir a direção da TV, e pouco depois das afiliadas, Soares era, assim como Erick Brêtas, diretor do GloboPlay, uma espécie de cliente dos Estúdios Globo, na escolha de possíveis produções para sua seara, a TV Globo.

Em mais de uma ocasião, em entrevista a esta jornalista, repetiu essa construção de caminhos: os Estúdios Globo apresentam as histórias possíveis para TV Globo, GloboPlay e canais Globo (pagos), e cada um faz as escolhas que acha pertinentes, com definição também de parcerias entre TV e streaming.

Agora, ele fará o papel de cliente e de fornecedor ao mesmo tempo, de certa forma retomando parte do papel que cabia a Schroder.

Formado em jornalismo em Bauru, no interior de São Paulo, Soares foi do Jornalismo da Globo por 15 anos. No início dos anos 1990, antes de assumir a chefia de redação do Fantástico, ficou no SBT por seis meses, onde chegou a comandar o lendário Aqui Agora, noticiário popular que depois virou cult.

Na volta, após o Fantástico, foi editor-executivo do Jornal da Globo, editor-chefe do Jornal Nacional e diretor de Jornalismo em São Paulo, onde deu início a um belo trabalho de jornalismo comunitário, abrindo os microfones para os problemas da cidade nos telejornais regionais.

Foi também diretor-executivo da Central Globo de Jornalismo e chegou a ser cotado para suceder Evandro Carlos de Andrade na direção de Jornalismo da casa, quando foi enviado para Nova York, onde assumiu a direção da Globo Internacional.

Na Big Apple, ao longo de seis anos, aproximou a Globo da academia que organiza o Emmy, premiação que a emissora passou a apoiar como patrocinadora, e ressignificou a importância de um cargo que era quase nulo quando lhe foi dado. No ano passado, Soares foi um dos anfitriões da festa de entrega do 50º Emmy Internacional, com discurso sobre a importância da diversidade na tela, ponto relevante de sua gestão na TV Globo.

Foi em Nova York, em 2002, que nasceu Felipe, seu filho com Patrícia Poeta, com quem foi casado até alguns anos atrás.

De volta ao Brasil, criou e liderou a diretoria de Eventos da Globo e, na sequência, foi diretor de Programação por sete anos. Com a integração das empresas, assumiu a direção da TV Globo, comandando também a rede formada pelas emissoras filiadas e afiliadas da TV aberta do grupo.

Obcecado por pesquisas, Amauri Soares mapeia quase diariamente índices que denunciam comportamento de público, mudanças demográficas e outras tendências capazes de afetar a atenção do telespectador. Lê resultados de audiência no conjunto da obra, ou seja, sem resumir seu olhar aos números. Estende as análises ao perfil de público que os índices representam, com a contextualização de horários, regiões e aparelhos de consumo.

Político, sabe se posicionar diante de fogueiras de vaidade que invariavelmente se acendem nos bastidores de televisão, sem buscar o confronto explícito. É, em resumo, o oposto de um modelo antigo de executivo que tentava se impor pela truculência.

Zapping - Cristina Padiglione

Cristina Padiglione é jornalista e escreve sobre televisão. Cobre a área desde 1991, quando a TV paga ainda engatinhava. Passou pelas Redações dos jornais Folha da Tarde (1992-1995), Jornal da Tarde (1995-1997), Folha (1997-1999) e O Estado de S. Paulo (2000-2016). Também assina o blog Telepadi (telepadi.folha.com.br).

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