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Inspirado por Coldplay e U2, Alok diz não buscar ataques políticos, mas reflexão social em shows

Atração do Planeta Atlântica, DJ diz que ficou tenso em show de Roger Waters

O DJ e produtor musical Alok

O DJ e produtor musical Alok Reprodução/Instagram/alok

Amanda Nogueira
Jundiaí

Alok Petrillo, 27, o DJ mais famoso do Brasil, improvisou um discurso na festa de formatura da sua então noiva, Romana Novais. "Sei que muitos de vocês estão inseguros, é normal, acabaram de se formar. A insegurança vai passar, mas não deixem passar a empolgação", disse aos recém-formados médicos. 

"Vejo que muitos perdem essa empolgação e acabam ficando um pouco frios. Lembrem-se de que na medicina vocês têm uma ferramenta incrível que muda e transforma a vida das pessoas."

Como uma espécie de coaching motivacional, o artista quer levar discursos como este a um novo formato de shows, ainda incerto, incluindo mensagens edificantes no telão e, quem sabe, improvisadas também ao microfone. 

Seu intuito, diz, é fazer as pessoas refletirem sobre o sentido da vida. "A gente é induzido pela sociedade a acreditar que nossos valores são ter uma casa, um carro, um emprego bom e depois se aposentar. Qual o sentido? Como você vai impactar a vida das pessoas, o que vai fazer de mudança?", diz.

A ideia não foge ao que ele já vem fazendo desde 2010, quando surgiu na cena eletrônica sem o irmão, Bhaskar, com quem se apresentava até então. Em "Hear me Now", maior sucesso de Alok, composto após a morte de sua avó, o artista fala sobre não deixar de dizer o que pensa às pessoas que ama; "Ocean", inspirada em uma fã que morreu de câncer aos 12 anos, o DJ diz se tratar sobre os reais valores da vida.

"Eu me baseei em um texto que diz que o rio, quando vai de encontro ao oceano, treme a base de medo, porque ele sabe que a partir do momento que ele encontrar com o oceano, ele vai desaparecer para sempre", explica Alok, em um vídeo divulgado após o lançamento da faixa, em maio de 2018.

"Ele perde o medo quando finalmente vai de encontro ao oceano e vê que não some, ele se torna o oceano. Acho que todos nós somos rios a caminho do oceano. O oceano reflete pra mim o horizonte sem fim, a vida pós morte, o que vem depois daqui." No vídeo, Alok revela outra inspiração para a letra de "Ocean": "Epitáfio", do Titãs, que ganhou do DJ uma versão em eletrônica, lançada após o Natal. 

Pregações de Chico Xavier

A espiritualidade vem de berço. O nome Alok, que em sânscrito significa "luz", teria sido escolhido por ninguém menos que Osho, o polêmico guru retratado recentemente no documentário "Wild Wild Country", durante um retiro que seus pais, os também DJs Ekanta e Swarup, fizeram na Índia.

Alok se diz influenciado pelas pregações de Chico Xavier, mas o interesse pela temática do "carpe diem" e pela busca do sentido da vida se intensificaram ainda mais após sofrer um acidente de avião em maio de 2018. O DJ deixava Juiz de Fora, em Minas Gerais, quando sua aeronave particular derrapou e ficou à beira de um barranco.

"Não consigo nem ver esse acidente como uma coisa trágica, só como uma coisa muito bonita que aconteceu, pelo fato de que eu presenciei um milagre", diz. "É como se eu tivesse uma segunda chance de rever meus valores, minha fé ficou muito maior, eu fiquei muito mais conectado com o divino, com propósitos."

O artista afirma que a felicidade de sobreviver ao acidente fez com que ele deixasse de ter crises de pânico e moderasse o ritmo de trabalhos --ele chegou a fazer 42 shows entre a primeira semana de dezembro de 2017 e a primeira de janeiro de 2018. A média atual é de 22 apresentações por mês e sem sequências triplas, salvo exceções, como neste Réveillon, no qual ele tocou em Salvador, Recife e Maceió.

Na estrada, Alok se locomove acompanhado de uma equipe de 10 pessoas em um jato particular e carros SUVs. O artista afirma que seu cachê médio é de R$ 150 mil, mas a Folha apurou que ele chega a receber mais do que o dobro deste valor em eventos de grande público, como Réveillon e festas de rodeios. O DJ diz doar integralmente o montante que recebe de direitos autorais a instituições de caridade e projetos sociais. 

Mesmo fazendo menos aparições, Alok concluiu uma turnê internacional em 2018, passando por 21 países em 40 dias, e lançou dez singles. Ainda estão por vir parcerias com as cantoras Anitta e Iza. Neste sábado (2), Alok participa do Planeta Atlântica, festival de música no Rio Grande Sul, com o cantor Conor  Maynard  –os dois lançam na próxima semana a música “Pray”. 

Ele, que já foi o brasileiro mais tocado Spotify ao redor do mundo, posto tomado por Anitta em 2018, tem mais de 7 milhões de ouvintes mensais na plataforma de streaming. Além disso, Alok ocupa a 13ª posição no ranking de melhores DJs do mundo pela revista especializada DJ Mag.

Alok costuma ilustrar suas opiniões com anedotas e parábolas. Para explicar seu talento, por exemplo, ele cita a regra das 10 mil horas do jornalista britânico Malcolm Gladwell, que afirma que a perfeição vem da prática constante.

Quando fala de uma suposta força da união, ele narra uma história sobre pássaros que ponderam sobre o peso de flocos de neve que, juntos, quebram um galho. Para o artista, a metáfora seria uma maneira de dizer que qualquer pessoa pode gerar mudança com pequenas ações no âmbito do coletivo.

"Pássaros criados em gaiolas acreditam que voar é uma doença”, disse, ao anunciar o término com Romana Novais, em maio de 2017, antes de passar meses viajando a trabalho --o casal reatou em outubro daquele ano, e se casou aos pés do Cristo Redentor no dia 15 de janeiro. ​

Sem política

Alok afirma que não cogita falar de política, mas planejava transmitir mensagens mais duras, aos moldes do que costuma fazer Roger Waters, ex-baixista e vocalista do Pink Floyd. No entanto, diz ter mudado de ideia após os shows que o britânico fez no Brasil, em outubro. 

A turnê "Us + Them" trazia um telão com mensagens contra neofascistas e criaram um racha entre o público ao incluir o nome do presidente eleito Jair Bolsonaro na lista. "Eu não estava preparado para aquilo", diz o DJ, que ficou receoso de demonstrar um posicionamento. "Fiquei tenso no show inteiro, se eu manifestasse uma coisa boa não sabia se eu estaria a favor do '#EleNão [contra a candidatura de Jair Bolsonaro] ou do #EleSim [a favor]."

Nem nas urnas precisou decidir. "Sei que é errado, mas nunca votei, sempre estive trabalhando e precisei justificar", diz ele. "Nunca dependi de paradigmas de políticos, eles não podem definir o que eu sou. Não vou levantar a bandeira do que não sou por completo."

Mesmo se dizendo fã de Pink Floyd, banda que conhecida por letras críticas, a por exemplo, o capitalismo e a opressão de sistemas educacionais, Alok diz ter ficado chocado com o show de Waters. 

"Me fez pensar, e a verdade às vezes é inconveniente", diz, sem revelar qual seria sua opinião sobre o político, mas afirmando ser "a favor de minorias". "É disso de que às vezes muitos seres humanos fogem, assim como eu também fugi naquele dia, talvez porque estava querendo festejar, mas não consegui, porque era muito duro, me deixou numa vibração mais baixa."

Ele diz, então, se inspirar mais em Coldplay e U2 para tocar o projeto. "Para mim, eles passaram mensagens maravilhosas e conseguiram me levar ao êxtase, pra cima. Talvez seja com isso que eu me identifico mais, essa animação, energia e vibração."

De Bon Jovi a Mamonas Assassinas

Alok forja seus shows de acordo com a animação do público. Na apresentação que a reportagem acompanhou, em um festival em Jundiaí, o DJ fez uma breve cronologia das paradas musicais, passando por pop, funk, rock, mpb e reggaeton.

Além de seus sucessos autorais, como "Hear Me Now" e "Ocean", com refrões melódicos na boca dos fãs, o DJ tentou emplacar faixas menos populares por aqui, como "Rockstar", do rapper americano Post Malone, mas foi correspondido com hits nostálgicos de Bon Jovi, The Cranberries, Corona, Red Hot Chilli Peppers, Tim Maia e até Mamonas Assassinas.

Ao fim da apresentação, fãs de diferentes gerações se reuniram na porta do camarim, incluindo crianças e senhoras como Cida Romanin, 72, e Natalina Machado, 80, que acompanharam o show do palco. Alguns deles faziam questão de se declarar para Romana. 

Escolado na cena underground de música eletrônica desde criança, o DJ afirma não se importar em ser tachado como mero entretenimento. "Pode parecer clichê, mas eu não tenho medo de proporcionar felicidade para as pessoas", diz. "Prefiro animar a galera do que tentar impor alguma coisa."

"Vejo que alguns DJs, e eu super respeito isso, não mudam o estilo de som, deixam sempre aquela coisa sólida, vou até dizer engessada, porque acreditam que a mensagem que eles querem passar é aquela", diz Alok. "Só que às vezes as pessoas passam a semana inteira trabalhando, cheias de problemas, e no fim de semana não querem ser educadas, só querem curtir."

Para chegar ao mainstream, ele precisou romper com a tradição de sua família. Seus pais são DJs pioneiros do psytrance no Brasil e idealizadores do festival Universo Paralello. Mesmo assim, apoiam as produções mais comerciais do filho.

"Eu me sentia preso àquilo e queria expressar a minha arte de formas diferentes", diz. "Lembro que gerou um certo tipo de dúvida porque eu já tinha conquistado alguma coisa sólida, por que arriscar perder aquilo? Mas estava dentro do meu coração. É muito legal a sensação de ser livre para poder realmente voar."

Em 2010, passou, então, a se apresentar sozinho e ganhou notoriedade na cena eletrônica, mas estourou para o grande público com o lançamento de "Hear Me Now", em outubro de 2016. A faixa foi a primeira de um brasileiro a atingir mais de 100 milhões de reproduções no Spotify e ficou entre as 50 mais ouvidas no mundo na plataforma.

Os números são, em parte, resultado de um experimento envolvendo a menina dos olhos do serviço de streaming, as playlists. O Spotify incluiu a faixa do DJ em playlists regionais e, conforme a performance de reproduções, foi adicionando em listas com mais potenciais ouvintes em novos mercados, até que "Hear Me Now" se tornou um sucesso mundial na plataforma, forçando rádios e gravadoras a notarem o hit.

A aceitação em grandes festivais de música sertaneja, como o Villa Mix, também ajudaram a ampliar o público ouvinte do artista. Alok, que já chegou a fazer parcerias com Luan Santana, diz já ter recusado recusou convite para se apresentar em evento do tipo com medo de não ser aceito. 

"A primeira vez que eu toquei [no Villa Mix] não foi legal, eles tinham aquela concepção de que DJ é transição de banda", explica. Seu nome, diz, era vetado de rodeios, mas seu empresário, Marcos Araújo, insistia na ideia de abarcar o filão. Atualmente, Alok é um dos poucos nomes da eletrônica com passe livre pelo gênero musical mais consumido pelos brasileiros.

Mesmo assim, o DJ diz acreditar que as explicações para seu sucesso vão muito além de talento e de estratégias de negócio. "Não acredito só nos números, acredito que existe sentido maior e que o universo conspira a favor quando você está no caminho certo."

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