Tony Goes
Descrição de chapéu humor

Com o fim da 'era Melhem', será que o humor da Globo ficará menos politizado?

Emissora extinguiu todos os humorísticos criados por Melhem, ex-diretor da área

O humorista Marcius Melhem
O humorista Marcius Melhem - Globo/ Estevam Avellar

Por causa do confinamento, nunca se assistiu a tanta televisão no Brasil. Todas as modalidades tiveram aumento de audiência. Mas, enquanto os canais pagos e as plataformas de streaming só têm o que comemorar, a TV aberta passa pelo que talvez seja seu pior momento –e justo no ano em que celebra sete décadas de existência.

A razão é simples. O Ibope subiu, mas a propaganda sumiu. Com pouca ou nenhuma renda, consumidores estão consumindo apenas o básico. Numa conjuntura como a atual, grandes marcas não vão torrar verbas milionárias para anunciar produtos que ninguém vai comprar.

A queda nas receitas publicitárias vem fazendo estragos em todas as emissoras. Equipes inteiras foram cortadas, programas foram cancelados e investimentos, adiados. Nem a Globo escapou. Em 2020, o canal priorizará seus carros-chefes: a novela das 19 horas, a novela das 21 horas e o jornalismo.

Não haverá temporada inédita de "Malhação". A novela "Nos Tempos do Imperador", que deveria ter estreado na faixa das 18 horas em março passado, ainda não tem previsão de retomada dos trabalhos. E todos os três programas humorísticos foram extintos. Darão lugar a uma única atração, ainda em desenvolvimento.

A crise no humor da Globo, a bem da verdade, começou antes da pandemia. Os problemas surgiram em 2019, quando Marcius Melhem, chefe do departamento de humor da emissora desde o ano anterior, foi acusado de assédio moral por algumas das atrizes da área. Melhem se afastou do cargo no começo do ano, alegando que iria acompanhar o tratamento médico de uma de suas filhas nos Estados Unidos. Mas, em agosto, seu contrato expirou e não foi renovado.

Melhem já vinha inovando o humor da Globo mesmo antes de assumir o comando do setor. Em 2014, ele e Marcelo Adnet lideraram a equipe que criou o Tá no Ar, aclamado pela crítica como o melhor humorístico da década. Em 2015, foi a vez do Zorra passar por uma profunda reformulação, também capitaneada por Melhem. O programa não só perdeu o Total do título, como também parte de seu elenco, seus personagens fixos e seu tom popularesco, aproximando-se do estilo do Porta dos Fundos.

Mas a novidade mais subversiva de Melhem foi o quadro Isso a Globo Não Mostra, que estreou no Fantástico em 2019. Dublando e reeditando imagens exibidas pela emissora na semana anterior, o segmento às vezes resvalava para um delicioso nonsense ("três reais!"), mas seu ponto mais forte era a crítica despudorada ao governo Bolsonaro.

Isso a Globo Não Mostra deixou de ser produzido em março, na época em que Marcius Melhem saiu de licença. Fora de Hora, o programa que substituiu Tá no Ar, teve sua primeira temporada encurtada pela pandemia. E o Zorra, que voltaria com um elenco renovado em abril, recorreu a longos meses de reprises. Os episódios inéditos só chegaram em agosto e, mesmo assim, com o elenco gravando remotamente suas participações.

A atual temporada do Zorra encerrou suas gravações, já presenciais, na semana passada. A Escolinha do Professor Raimundo acaba de estrear nova fase, que será a última. Assim como o Fora de Hora, nenhum deles retornará em 2020. O que vem por aí? O que se sabe, até o momento, é que uma nova atração para as noites de sábado está sendo preparada, sob a batuta do roteirista (e colunista da Folha) Antonio Prata. Circulam notícias de que até 150 pessoas, entre atores, roteiristas e técnicos, serão demitidas.

Também circulam rumores de que a Globo, interessada em melhorar sua turbulenta relação com Jair Bolsonaro, pretende aliviar a barra do governo neste futuro programa. Marcius Melhem é declaradamente de esquerda, e suas opiniões progressistas ficavam claras em todos os produtos de sua gestão. Será que o final da "era Melhem" também marcará a volta a um humor menos politizado?

Eu duvido. Afinal, Marcelo Adnet, que não poupou ninguém em seu programete Sinta-se em Casa, continua sob contrato (e ele mesmo anunciou que o Sinta-se, produzido para o Globoplay entre abril e setembro deste ano, deve voltar em breve). O próprio Prata não tem nada de neutro, como mostrou na websérie "Sala de Roteiro". Consultado, ele garantiu: "temos liberdade total para falar de qualquer assunto".

Ainda bem. Porque o próprio governo continua a gerar farto material para os humoristas, com atitudes ridículas e trágicas ao mesmo tempo. Ignorar este manancial de piadas prontas é impossível para qualquer comediante que se preze.

Tony Goes

Tony Goes tem 60 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.com.br

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