Tony Goes

Baseada em crônica de Antonio Prata, 'Sala de Roteiro' capta o descalabro da política brasileira

Websérie já tem dois episódios disponíveis, e um terceiro está a caminho

Da esq. para dir. em sentido horário, Mariana Lima, Andréa Beltrão, Marcos Palmeira, William Costa e Enrique Díaz
Da esq. para dir. em sentido horário, Mariana Lima, Andréa Beltrão, Marcos Palmeira, William Costa e Enrique Díaz - Reprodução

"O roteirista do Brasil é ruim. As situações que ele cria são absurdas e inverossímeis. O cara deveria ser demitido." Com inúmeras variações, essa piada vem circulando pelo menos desde 2016, o ano do impeachment de Dilma Rousseff. Sem nunca perder a atualidade, porque, convenhamos –as situações pelas quais o Brasil tem passado são mesmo absurdas e inverossímeis.

Roteirista experiente e colunista da Folha, o escritor Antonio Prata pegou essa anedota recorrente e a transformou em uma crônica chamada "Brasil, Sala de Roteiro", publicada na edição impressa do jornal em 21 de junho. O catalisador do texto foi a prisão de Fabricio Queiroz três dias antes, em Atibaia, na casa de Frederick Wassef, advogado da família Bolsonaro.

Antonio Prata participa de um grupo no WhatsApp onde também estão dezenas de outros artistas e intelectuais que integram o movimento Estamos Juntos, uma frente ampla de oposição ao atual governo. O diretor Fernando Meirelles ("Cidade de Deus") também faz parte e, naquele mesmo dia 21, lançou uma ideia no grupo: transformar a crônica em websérie.

No dia 1º de julho, o primeiro episódio de "Sala de Roteiro" chegou ao YouTube. Com quatro atores de peso, todos também integrantes do Estamos Juntos: Andréa Beltrão, Enrique Díaz, Marcos Palmeira e Mariana Lima. Além do novato William Costa, que trabalhou com Meirelles na série "Pico da Neblina" (HBO).

Como quase tudo que vem sendo produzido nesta quarentena, "Sala de Roteiro" também é gravada remotamente, com cada ator em sua própria casa. Não há nenhum requinte técnico: todo mundo se conecta através do aplicativo Zoom, o mais popular para videoconferências.

De sua casa em São Paulo, Fernando Meirelles capta as imagens usando apenas dois computadores. Depois, elas são editadas por André Dib, e o pessoal da pós-produção da O2 Filmes –a produtora da qual Meirelles é um dos sócios– dá um tapa no som e no visual.

"Mas nada muito caprichado", conta Meirelles, em entrevista por telefone. "A proposta é que fique mesmo meio tosco. Como se fosse uma reunião de roteiristas de verdade, que usam muito a videoconferência na vida real."

O primeiro episódio viralizou: sem patrocínio nem propaganda, já acumula quase 70 mil visualizações. O segundo, lançado nesta quinta (16), vai pelo mesmo caminho, com quase 6.000 visualizações em menos de 24 horas.

"Este segundo episódio tem algumas melhorias técnicas", acrescenta Meirelles. "Pedimos para alguns atores trocarem de microfone e mudarem de lugar por causa da luz. O Ian SBF, diretor do Porta dos Fundos, nos deu várias dicas."

"As gravações não são fáceis, porque acontecem todas as tretas habituais: a imagem trava, o som entra com atraso e assim por diante", afirma Antonio Prata, também por telefone. "Mas esses defeitos da captação são qualidades para a nossa dramaturgia."

O próprio Antonio Prata adaptou sua crônica para o roteiro do primeiro episódio, definindo os personagens e distribuindo as falas entre eles. O segundo foi totalmente inédito. Agora Prata está trabalhando no roteiro do terceiro episódio, que precisa ser gravado logo –no Brasil de hoje, as coisas mudam sem parar. "Conseguimos falar dos gafanhotos neste segundo episódio. Mas, entre a escrita do roteiro e o lançamento, surgiram a naja, a ema, o cachorro que mordeu Paulo Guedes...", ri Prata.

Se essas piadas envelhecem rápido, o mesmo não se pode dizer do formato de "Sala de Roteiro". Tanto que a primeira temporada não tem hora de acabar. "Não temos meta, mas vamos dobrar a meta", diz Prata, parafraseando Dilma Rousseff. De fato, enquanto a política brasileira produzir descalabros, não faltará assunto para a série. E podem até ser feitos episódios retroativos, cobrindo desde a descoberta pelos portugueses do que é hoje o Brasil.

"Mas não temos compromisso com o factual", explica o escritor. "Não precisamos ficar atrelados ao noticiário." Ele dá um exemplo de algo que pensou para um próximo episódio da websérie: "Os roteiristas irão revelar que Jair Bolsonaro, na verdade, é um ator contratado pelos globalistas para desmoralizar a extrema-direita. Sua presidência faz parte de um grande 'happening' mundial dirigido por Zé Celso Martinez Correa, para derrubar o Trump e outros líderes autoritários."

E conclui: "os bolsonaristas são bem capazes de acreditar nessa teoria".

Tony Goes

Tony Goes tem 60 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.com.br

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