Tony Goes

'Que medo que o governo tem dos artistas', diz Marisa Orth

Com a reestreia de 'Haja Coração', atriz está no ar em três programas diferentes

Marisa Orth estará na temporada 2020 do 'Zorra'
Marisa Orth - Estevam Avellar/TVGlobo

Pela primeira vez desde o início da pandemia, a paulistana Marisa Orth voltou ao Rio de Janeiro. Com a retomada dos trabalhos presenciais nos Estúdios Globo, ela foi participar das últimas gravações desta temporada do Zorra, que termina em dezembro. Mas não foi de avião. Preocupada em proteger ao máximo seu elenco do coronavírus, a Globo mandou um carro vir buscá-la em São Paulo.

“Estamos todos confinados num hotel na Barra, sem poder circular pela cidade”, conta ela por telefone. “Mas está muito divertido. Estou reencontrando colegas queridos como a Grace Giannoukas ou o Leopoldo Pacheco, e rindo muito. Não aguentava mais ficar em casa”.

As gravações do Zorra começaram em janeiro, foram interrompidas em março e só voltaram em julho. Mesmo assim, durante três meses, os atores trabalharam em suas próprias casas, sem interagir uns com os outros. Foi a solução encontrada pela emissora para produzir algum material inédito.

A onda de reprises que ainda varre a TV brasileira trouxe de volta ao ar dois trabalhos importantes da carreira de Marisa. Aos sábados, além do Zorra, ela pode ser vista à tarde na sitcom “Toma Lá, Dá Cá”, exibida originalmente entre 2007 e 2009. E, a partir desta segunda (12), também na repise da novela “Haja Coração”, de 2016, um remake assinado por Daniel Ortiz de “Sassaricando” (1987-1988), de Silvio de Abreu.

Sua personagem, a feirante Francesca, chamava-se Aldonza na versão original, tinha origem espanhola e era interpretada por Lolita Rodrigues. Na releitura, tornou-se italiana e mudou de nome. Marisa precisou aprender a fazer massas e pizzas, e a exagerar no sotaque do bairro da Mooca.

“A Francesca é uma mulher doce e forte ao mesmo tempo”, afirma a atriz. “Criou sozinha os filhos, depois da suposta morte do marido. Então ela descobre que ele não morreu e que foi enganada esse tempo todo”.

Francesca é mãe de filhos adultos, como Tancinha (Mariana Ximenes), Carmela (Chandelly Braz), Giovanni (Jayme Matarazzo) e Shirlei (Sabrina Petraglia). Pergunto se Marisa não se incomodou com a pouca diferença de idade que tem para sua prole televisiva. “Que nada! O que importa é que eles são todos lindos. Olha só que 'genética' boa que eu tenho”, ri.

Apesar das muitas cenas cômicas, Francesca é um papel com uma forte carga dramática. Junto com a Silvia da minissérie “Dupla Identidade” (2014) e da Celeste da novela “Tempo de Amar” (2017), serviu para mostrar na TV a versatilidade de Marisa Orth, uma atriz que os telespectadores conhecem mais como comediante.

“Mas eu estava com saudade de fazer comédia”, retruca ela, que durante seis anos encarnou a Magda de “Sai de Baixo”. Seu último trabalho no gênero na TV, antes do Zorra, havia sido a tresloucada Damares da novela “Sangue Bom” (2013), de Maria Adelaide Amaral.

“Eu até liguei para a Adelaide para comentar as coincidências com a ministra”, ri ela. “A Damares da novela era uma fanática religiosa, que fundava uma seita”.

Se a pandemia fez com que a presença de Marisa se multiplicasse na TV –e também na internet, onde participou de algumas lives — por outro lado, adiou todos os projetos que ela tinha no cinema e no teatro.

“Faz mais de um ano que eu não piso num palco”, lamenta a atriz, cujo último trabalho teatral foi o musical “Sunset Boulevard”, que esteve em cartaz em São Paulo entre março e junho de 2019. “Estou com vários projetos engavetados. Três peças, dois filmes, um show musical...”.

Para ela, ainda mais preocupante do que o confinamento é o desmonte que o atual governo vem fazendo na área da cultura. “Que medo que eles têm de nós, hein? Não sabia que os artistas eram tão importantes assim, para serem atacados dessa maneira”.

Marisa conta que se assustou com a rápida adesão de alguns setores do público à narrativa de que a classe artística só quer mamar nas tetas do Estado. Chegou a bater boca com estranhos nas redes sociais.

“Minha geração se tornou adulta no final da ditadura militar. Nunca imaginei que eu veria tanta gente pedindo a volta da censura. Achou pornográfico, então não consome, caceta! Faz um blog, fala mal, mas não proíbe. Podemos discutir de onde vem e para onde vai o dinheiro, mas sem agressões”.

“É muito sério o que está acontecendo, porque não são só os mecanismos de financiamento cultural que vêm sendo atingidos”, conclui. “Estão fechando bibliotecas. Estão minando a educação”.

Tony Goes

Tony Goes tem 60 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.com.br

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