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Mariana Ximenes diz que ficou apavorada ao dar vida a Tancinha em 'Haja Coração'

Atriz diz que queria honrar Claudia Raia, que fez a personagem em 1987

Mariana Ximenes em Haja Coração
Mariana Ximenes como Tancinha em "Haja Coração" - Divulgação
São Paulo

"Você estava apavorada, Mari, fala a verdade". É Malvino Salvador, 44, quem entrega o nervosismo de Mariana Ximenes, 39, antes da estreia de "Haja Coração", novela de 2016 que volta ao ar nesta segunda-feira (12), na Globo. A atriz admite a tensão e explica. Além do desafio profissional de dar vida a Tancinha, personagem que virou um ícone na teledramaturgia brasileira, a sua primeira intérprete foi Claudia Raia, amiga pessoal da artista.

"A Claudia Raia é aquela atriz potente, é um ser humano maravilhoso que, além de toda a admiração profissional, eu tenho um profundo afeto por ela e queria honrá-la", lembra Ximenes. "O Malvino está supercerto, eu estava A-PA-VO-RA-DA. Até o dia da estreia, eu quase não saia", conta ela em conversa com jornalistas, feita por videoconferência na última terça (6), para a divulgação da reprise da trama.

Ser muito diferente fisicamente de Raia e ter até então feito pouco humor na carreira eram outros fatores que deixavam a atriz insegura. Para o autor Daniel Ortiz, responsável por escrever a trama, uma releitura de "Sassaricando", novela de Silvio de Abreu, que ele tem como um dos seus ídolos, a sensação era semelhante: "A gente falava: no que a gente se meteu, o que a gente está fazendo?"

"As atrizes tinham medo de fazer a Tancinha, porque é uma personagem icônica. É a mesma coisa que você fazer a Odete Roitman [vilã de 'Vale Tudo']. Você foi corajosa, Mari. Nós fomos corajosos", diz Ortiz. Com o tempo e a resposta positiva do público, as tensões foram se dissipando. "Haja Coração" foi um sucesso em 2016, quando alcançou média de 29 pontos no PNT (Painel Nacional de Televisão) –naquele ano, cada ponto no Ibope equivalia a 240.886 lares.

Para Ximenes, o papel se tornou um dos mais marcantes da sua carreira. "Eu estava apavorada no início, e depois foi um gozo, um prazer inenarrável", afirma. Neste momento em que o Brasil e o mundo passam pela pandemia e por crises econômicas e sociais, a atriz diz acreditar que a reprise de "Haja Coração" vem como um alento por ser uma história leve, divertida e cheia de romance.

Questionada se considera Tancinha uma feminista, ela diz que sim. "Ela luta pelos direitos dela, pelo que ela quer, pelo que ela sente. Ela tinha esse jeitão às vezes não tão delicado, mas ela é muito verdadeira, muito forte, muito colocada", afirma. Para Daniel Ortiz, já na primeira versão, com Claudia Raia, a personagem pode ser considerada feminista. "Ela é dona de si."

Para superar os desafios, Mariana Ximenes conta que "deu uma olhada" em "Sassaricando" e conversou muito com Raia, mas desde o início procurou criar a sua própria Tancinha, que fosse mais contemporânea e acompanhasse a atualização que a novela sofreu em 30 anos de uma versão para outra.

"Eu lembro que eu cruzei com o Jorge Fernando [diretor morto em 2019], e ele falou uma coisa para mim muito fundamental e que eu guardo comigo. Ele disse: 'Mari, coloca humanidade, coloca o teu coração na personagem, vai com o coração aberto."

De fato, para o autor Daniel Ortiz, a Tancinha de Raia se destaca pelo humor escrachado, já a de Ximenes é mais romântica. Isso, segundo ele, é resultado também da própria releitura que fez do texto original. "'Sassaricando' traz muito o humor daquela época, que era um humor um pouquinho mais TV Pirata, mais besteirol, e 'Haja Coração' já foi mais para o lado romântico", diz.

Outra diferença pontual é a origem de ambas. Na versão de Claudia Raia, a família da personagem tinha origem espanhola, já na de 2016, é italiana. O remake tem outras atualizações na comparação com 1987, como a Fedora de Tatá Werneck, um dos destaques de "Haja Coração". Além de ser fanática pelas redes sociais (algo que não existia na época em que o papel foi interpretado por Cristina Pereira), Ortiz conta que fez ela com o objetivo de atrair mais o público infantojuvenil. E deu certo.

Também foi inserida na história Shirlei (Sabrina Petraglia), uma homenagem do autor a uma personagem de outra novela de Silvio de Abreu, "Torre de Babel" (1998), em que a personagem foi interpretada por Karina Barum.

Embora possa parecer mais fácil fazer uma releitura de uma trama que já existe, Ortiz diz que, "talvez, seja mais simples começar uma novela do zero". "A partir do momento que você começa a mudar uma coisinha [num remake], é um efeito cascata. E o próprio personagem vai reagindo de maneiras diferentes. Se você reparar a Tancinha começa de um jeito muito parecida com a da Claudia Raia, mas logo ela muda e vai para um eixo mais romântico", diz.

Ortiz não vê problemas na novela ser reprisada ao mesmo tempo em que "Sassaricando" é transmitida no canal Viva, porque para ele são canais diferentes, com públicos diferentes. Já o diretor Fred Mayrink avalia como positiva a coincidência. "Acho que é um presente para o público que tem a possibilidade de passear nessas épocas, de perceber uma diferença estética, de ritmo, de diferença de interpretação e histórias atualizadas. Acho que vai ser uma brincadeira gostosa."

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