Tony Goes

'O Outro Lado do Paraíso' reabre a crise no horário nobre da Globo

Durante quase cinco décadas, a novela da Globo da faixa das 21h foi o programa de maior audiência da televisão brasileira. Por conseguinte, também se tornou o produto cultural mais importante do país, lançando modas, influenciando costumes e debatendo questões importantes.

Só que, até o começo de 2017, parecia que os dias de glória da chamada novela das oito - um apelido que perdurou mesmo depois de não corresponder mais à realidade - haviam terminado com Avenida Brasil (2012), o último sucesso absoluto exibido no horário.

De lá para cá, a audiência foi caindo paulatinamente, com algumas oscilações. Alguns títulos, como "Velho Chico" (2016), desapontaram no Ibope. Outros, como "Em Família" (2014) ou "Babilônia" (2015), podem tranquilamente ser chamados de fracassos.

Um fenômeno curioso começou a acontecer: a novela das 19h, transmitida numa hora em que muita gente ainda nem chegou em casa do trabalho, passou a alcançar índices mais altos do que a das 21h.


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Autores e estilos diversos foram tentados na faixa mais nobre da emissora, mas ninguém conseguia recuperar o prestígio perdido —embora seja importante ressaltar que, em nenhum momento, a novela das 21h da Globo tenha perdido a liderança no horário para a concorrência.

Até que "A Força do Querer" estreou em abril deste ano. A trama de Glória Perez não reinventou a roda, mas trouxe inovações importantes. Não havia um protagonista claro: cinco histórias principais se revezavam em primeiro plano.

Além disso, os personagens eram complexos, sem uma divisão clara entre bons e maus. A única vilã clássica era Irene (Débora Falabella), relegada a uma trama paralela.

Para completar, Glória Perez abordou temas da ordem do dia, como transexualidade, tráfico de drogas e vício em jogo, de maneira sensível. O resultado foram boas críticas e picos de audiência como não se viam há quase cinco anos.

A novela das 21h havia reencontrado seu prumo? O relativo insucesso de "O Outro Lado do Paraíso", sucessora de "A Força do Querer", faz desconfiar que (ainda) não.

A produção é esmerada e o elenco inclui medalhões como Fernanda Montenegro e Lima Duarte. O texto de Walcyr Carrasco também fala de assuntos espinhosos, como o racismo, a violência contra a mulher e até o preconceito contra o nanismo, inédito na nossa TV.

Mas os diálogos são óbvios demais, pesadões. Pior: a estrutura da novela é antiquada. A mocinha Clara (Bianca Bin, algo sem sal) é boníssima, a vilã Sophia (Marieta Severo) é um poço de maldades. E vamos combinar que internação forçada num hospício é um recurso digno de folhetim do século 19.


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O público parece ter se ressentido de tudo isso, e não correspondeu com audiência. A Globo, preocupada, resolveu acelerar o ritmo e adiantar a segunda fase, em que Clara buscará vingança.

O Ibope já reagiu: o capítulo de segunda (27), quando ocorreu a virada na trama, foi o mais visto até o momento.

A crise já foi superada? Pode até ser. Mas continuo com a suspeita de que "O Outro Lado do Paraíso", com sua pegada de dramalhão mexicano, não é exatamente o que o espectador brasileiro de 2017, plugado na internet e com centenas de séries modernas a um clique de distância, tem vontade de ver.


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Tony Goes

Tony Goes tem 56 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.blogspot.com

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