De faixa a coroa

'Mostrei ao nosso país que os negros também são belos', diz primeira Miss Brasil negra

Vencedora do concurso de 1986 diz que preconceito pouco mudou

Deise Nunes em 86, quando foi eleita Miss Brasil - Instagram/nunesdeise

Mulher, bonita, bem-sucedida e miss. Parece um cenário ideal mas, na verdade, cada um desses atributos veio com uma luta a ser enfrentada pela empresária gaúcha Deise Nunes, 51. O maior peso, no entanto, veio por outro atributo, a cor de sua pele, já que foi a primeira negra a vencer o Miss Brasil, em 1986. 

“Eu abri uma porta quando ganhei. Cada miss dá voz para um tipo de mulher, pessoa ou situação, e a minha foi a da raça”, disse ela em entrevista ao F5. “Não me considero feminista, mas acho importante lutar e querer direitos. Sejam eles como mulher, como negra ou como ser humano”.

Quando eleita, aos 18 anos, Deise lembra-se que levou certo tempo para dimensionar que sua vitória não significava apenas uma participação no Miss Universo. “Foi um feito. A ficha foi cair pra mim de verdade uns três dias depois”, conta ela, que começou a modelar aos 14 anos. 

A conquista foi manchete em todos os principais meios de comunicação do país e do exterior. À época, família, amigos e a opinião pública apoiaram muito a recém-eleita Miss Brasil que, na ocasião, se classificou em sexto lugar no internacional. 

Aos poucos ela percebeu que não havia se tornado apenas uma representante da beleza, mas, acima de tudo, das mulheres negras. 

“Me dei conta da importância desse título para uma raça que sempre foi muito desprezada, apesar de ter construído essa nação”, afirma. “Mostrei para o nosso país que os negros também são belos e que as mulheres, principalmente negras, podem participar de qualquer concurso de beleza e vencer”. 

Ainda assim, Deise lamenta que, quando se fala de preconceito racial, pouco mudou desde que foi coroada. “Sabemos que a sociedade é racista e, em pleno século 21, ainda nos deparamos com preconceito e discriminação. É algo que me deixa muito triste, pois, quando achamos que a humanidade está caminhando a passos largos, ela retrocede”. 

TRÊS NEGRAS

A primeira disputa de Miss Brasil foi em 1954, onde sagrou-se vencedora a baiana Martha Rocha. Desde então, em quase 70 anos de existência, além de Deise apenas outras duas negras conquistaram o posto do certame. 

“Por anos as pessoas me perguntaram quando outra mulher negra seria eleita. Eu sempre dizia ‘em breve’, e esse ‘breve’ levou 30 anos. Muitas ainda ficam receosas [de participar]”, pondera. 

Quem quebrou o jejum primeiro foi Raíssa Santana, 24, em 2016, representando o Paraná. Na edição, um recorde histórico de seis misses negras disputaram a coroa. No ano seguinte, em 2017, quem entrou para o time foi a piauiense Monalysa Alcântara, 20.

Na avaliação de Deise, tanto Raíssa quanto Monalysa não ganharam por serem negras e, sim, por serem empoderadas. “Ser empoderada é ter decisão. Escuta-se muito falar disso hoje, mas imagina lá na época da Ditadura, quando a Ieda Maria Vargas venceu o Miss Brasil [1963] e, depois, o Miss Universo. Você acha que ela não tinha empoderamento? Era poderosa!”, destaca. 

Ela enxerga também que, quanto maior o número de mulheres negras na competição, maior a probabilidade de uma delas vencer. E, para que isso aconteça, diz, as competidoras precisam não só ter desejo de participar, mas também muita coragem e investimento. 

“Ser miss é caro. Precisa ter roupas, acessórios, maquiagem… o que acaba dificultando ainda mais. Me lembro do caso da Sabrina de Paiva [Miss São Paulo 2016, participante da atual edição do reality A Fazenda], que fez ‘vaquinha’ e vendia coisas na sua cidade para poder competir”. 

NOVOS TEMPOS

Casada e mãe de dois filhos, Deise comanda atualmente uma escola de modelos e misses em Porto Alegre. A gaúcha também faz parte do projeto que batalha para garantir o Miss Brasil Universo de volta, após o fim da parceria entre a Band e a Polishop em julho passado.

“Sei que querem trazer para perto mulheres que já venceram. Ainda não fomos convidadas para alguma reunião, então não sabemos como cada uma vai contribuir”, revela. “O miss é como um conto de fadas que te torna numa Cinderela. Por mais que digam que é ultrapassado, enquanto houver meninas sonhando com isso, sempre vai ter concurso”.

O alerta de Deise fica com a alta e instantânea exposição nas redes sociais, que pode ter uma repercussão positiva, mas também muito cruel. “Hoje as meninas estão suscetíveis a receber um bombardeio de elogios assim como de críticas, que muitas vezes são destrutivas, para magoar”, diz.

Apesar disso, a miss diz acreditar em prósperos novos tempos, onde as diferenças não sejam mais apontadas. “Ainda vai chegar o dia em que, quando uma miss for eleita, seja ela da etnia que for, não se vai mais enumerar se foi a primeira, a quarta ou a quinta. Não vai mais interessar se ela é negra, japonesa, alemã ou indígena. Vai importar apenas que, naquele ano, ela é a representante da beleza brasileira. Talvez isso demore muito tempo, ou talvez aconteça mais rápido do que possamos imaginar”, conclui. 

De faixa a coroa

Fábio Luís de Paula é jornalista especializado na cobertura de concursos de beleza, sendo os principais deles o Miss Brasil e Miss Universo. Formado em jornalismo pelo Mackenzie, passou por Redações da Folha e do UOL, além de assessorias, como a da Fox.

Final do conteúdo

Comentários

Ver todos os comentários Comentar esta reportagem