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Zapping - Cristina Padiglione
Descrição de chapéu

Documentário de Casagrande é lição de vida

Ex-jogador lembra como foi do céu ao inferno com as drogas, passando pela heroína

O ex-jogador de futebol e comentarista Walter Casagrande
Walter Casagrande em imagem do documentário 'Casão: Num Jogo Sem Regras' - Reprodução
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Mais do que se limitar ao chavão de uma história de superação, "Casão: Num Jogo Sem Regras", nova série documental do GloboPlay, apresenta um sujeito visceral, com sede de viver aceleradamente desde que se entende por gente. "Sempre fui céu ou inferno, nunca soube tocar de outro jeito que não fosse rock pesado, pra jogar, pra me declarar, pra sofrer", diz Walter Casagrande na abertura da produção. "Fiz muito gol, muita coisa boa e muita merda."

Em quatro episódios, a série dirigida por Susanna Lira apresenta um cidadão com disposição em questionar, em se posicionar e em testar limites, o que o levou tanto ao topo, como craque no futebol, como ao fundo do poço, pela dependência química.

A trajetória do biografado exposta em cena endossa que o pódio de um atleta, principalmente desse esporte que movimenta bilhões de pessoas e moedas diante de tantos holofotes por todo o planeta, é bem mais próximo do mundo das drogas do que possa parecer.

"Não tem nada que não se possa dizer através do futebol", fala. "O futebol é que nem a vida: os 22 caras correndo pra meter a bola no gol dizem muito sobre tradição e modernidade, sobre os choques ideológicos do mundo, sobre a fé. O futebol, aparentemente tão simples, põe em jogo as questões universais que alimentam os melhores dramas."

A produção prima por um resgate precioso de imagens de gols impetuosos diante de torcidas eufóricas, e não só a do Corinthians, time de coração onde ele começou e encerrou carreira, mas também do Ascoli, na Itália, para onde foi depois de desistir de jogar no Porto, cidade onde, conta no filme, conheceu a heroína.

Imagens do ex-jogador Walter Casagrande
Imagens do ex-jogador Walter Casagrande no documentário 'Casão: Num Jogo Sem Regras' - Reprodução

São comoventes os depoimentos da irmã Zenaide, dos três filhos, de amigos de infância e juventude na Penha, e de outros amigos conquistados após o início da carreira no futebol, como Serginho Groisman. Os músicos Paulo Miklos e Branco Mello lembram do sofrimento que foi, para ele, a perda do então também titã Marcelo Fromer, em 2001.

A morte da irmã Zilda, mais velha, aos 23 anos, de infarto, a quem ele considerava como segunda mãe, também pontua a trajetória rumo às drogas. Ex-namorada recente, Baby do Brasil se recorda de tê-lo encontrado em uma festa em Nova York, bem antes do romance dos dois, com farta oferta de cocaína.

Os valores da Democracia Corintiana, movimento do qual foi um dos fundadores ao lado de Sócrates, a quem novamente descreve como mais que irmão e amigo, atravessam vários momentos dos quatro episódios.

Companheiros de microfone, Galvão Bueno e Cléber Machado falam sobre a oscilação eufórica nos bastidores do trabalho como comentarista. Também dão seu testemunho alguns jornalistas, como Juca Kfouri e José Trajano.

A montagem da série orna com a própria trajetória de Casagrande, ao intercalar céu e inferno. E permite-se abrir espaço também ao riso, como o dia em que ele, ostentando cabelos compridos, barba e gols milagrosos, foi chamado de "Jesus" pela torcida italiana.

A diretora Susanna Lira exibe sintonia fina ao optar por uma trilha sonora de acordo com o biografado, conhecido fã de rock, salpicando a edição de Janis Joplin a Rita Lee.

É de encher os olhos de qualquer torcida.

A reverência da Gaviões da Fiel ao seu então ídolo nas hoje finadas arquibancadas do Pacaembu é capaz de transformar até os mais convictos palmeirenses e sãopaulinos em alvinegros: "Volta, Casão, seu lugar é no Timão", gritava a massa corintiana ao vê-lo enfrentando o time da zona leste com a camisa do Flamengo, logo após a volta da Europa.

Ao retratar figura tão intensa e expor o contraste entre as glórias e os demônios dos quais Casagrande se sentia cercado nos surtos trazidos pela droga, o documentário nos conduz a uma trajetória que vale como lição de vida de alguém que mal teve tempo para marcar o adversário, ocupado que sempre esteve em fazer seus gols --alguns contra ele próprio.

Zapping - Cristina Padiglione

Cristina Padiglione, 50, é jornalista e escreve sobre assuntos relacionados à televisão. Ela cobre a área desde 1991, quando a TV paga ainda engatinhava. Ela passou pelas Redações dos jornais Folha da Tarde (1992-1995), Folha (1997-1999) e O Estado de S. Paulo (2000-2016), entre outras publicações. Ela também tem o blog Telepadi (telepadi.folha.com.br), hospedado no site da Folha.

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