Biblioteca da Vivi
Descrição de chapéu maternidade

Carpinejar deixa herança literária em vida para a mãe

Escritor faz uma bela homenagem no livro "Coragem de Viver"

O escritor Fabrício Carpinejar na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, em São Paulo
O escritor Fabrício Carpinejar na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, em São Paulo - Zanone Fraissat - 17.dez.2015/Folhapress
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O livro “Coragem de Viver” (de R$ 25 a R$ 40; 156 págs., Planeta), de Fabrício Carpinejar, é um embalo em colo de mãe. Com 46 obras publicadas, e mais de duas dezenas de prêmios literários, o poeta gaúcho, famoso pela participação no “Encontro com Fátima Bernardes” (Globo), expõe toda a fofura de sua infância.

E convida o leitor a com ele reviver os melhores momentos da companhia de sua mãe, a poeta Maria Carpi. Como o próprio título diz, escrever é um ato de “coragem” e, na obra, Carpinejar se desnuda para satisfazer aos desejos mais íntimos de seu público.

“Escrevi ‘Coragem de Viver’ com medo que ela morresse. Foi meu testamento em vida. Não poderia suportar a ideia de que ela não soubesse o quanto influenciou e modelou a minha trajetória. Melhor ser redundante e intenso do que indiferente e omisso”, conta.

A obra está dividida em dezenas de anedotas, hierarquizadas ao gosto da memória confiante do autor. Há aquelas que exaltam a determinação de sua mãe, as dificuldades que a família passou e a poesia que ela costumava ver nas coisas simples.

Uma das recordações que mais se destacam é aquela que narra seu turbulento processo de alfabetização. Nele, ciente de que o filho estava com sérios problemas na escola, Maria Carpi pede que a professora deixe Fabrício aos seus cuidados. A mãe então tira uma licença no trabalho e ela mesma garante que o filho aprenda, de forma lúdica e leve, os prazeres da leitura e da escrita.

“Ela não me ensinou somente a escrever, mas a pensar emotivamente, a ser solidário na alegria e na dor, oferecendo ajuda e aceitando ajuda”, diz Carpinejar.

Cada uma das pequenas crônicas da infância do poeta é intercalada pela doçura das ilustrações de Ana Carolina. São imagens infantis e cheias de significado que extraem os momentos mais importantes de cada recordação.

Algumas páginas são preenchidas apenas por uma frase, dando força à narrativa. Outras, são cravejadas de diálogos ou parágrafos curtinhos, bem concatenados uns com os outros. “Quis mostrar que devemos conhecer o passado dos nossos pais para entender as suas escolhas”, finaliza Carpinejar. Confira abaixo a entrevista.

*

No livro, você fala de sua relação com sua mãe. Poderia falar um pouco da importância dela para você atravessar a pandemia? Creio que muitas famílias tenham se unido durante esse período.
Minha mãe foi a representação da saudade. Só a vejo por chamada de vídeo desde o início da pandemia. Ela mora sozinha em apartamento em Poá, independente e ativa em seus 82 anos. Já foram dois aniversários e dois Dias das Mães sem cozinhar para ela, ritual de gratidão que mantínhamos. Vivo mandando livros, sou sua livraria online. Acho que Rodrigo e Carla são a tele-entrega de restaurantes. E o Miguel é o responsável pela farmácia. Escrevi “Coragem de Viver” com medo que ela morresse. Foi meu testamento em vida. Não poderia suportar a ideia de que ela não soubesse o quanto influenciou e modelou a minha trajetória. Melhor ser redundante e intenso do que indiferente e omisso.

A obra é cheia de anedotas. Como foi o processo de escolha das histórias? Sua mãe ajudou? Tem alguma importante que ficou de fora por causa da limitação de espaço?
Busquei parábolas que expressassem a sua valentia de viver. Como se fossem as andanças filosóficas do mestre (ela) e o seu discípulo (eu) na exaltação da simplicidade. Feliz do filho que tem na mãe um exemplo como eu. Eu não via a hora do livro ser publicado para que parasse de atualizá-lo. Mãe não tem fim, é sempre o nosso início.

Dessas recordações narradas, qual a mais importante para você e por quê?
A flor do impossível. Quando ela representou que o impossível não existe porque há flores que crescem nos muros, nos telhados, longe da terra.

Você conta que sua mãe o ensinou a escrever. Acha que, de alguma forma, ela tenha nesse processo te ensinado a viver também?
Ela não me ensinou somente a escrever, mas a pensar emotivamente, a ser solidário na alegria e na dor, oferecendo ajuda e aceitando ajuda.

Como você definiria a relação entre a vida e a literatura abordada no seu livro, num aspecto mais amplo?
Quando o que aconteceu é literário, você se sente vivendo um personagem. Eu fui um personagem da minha mãe que escapou de seus poemas para fazer um livro à parte e devolver para ela. A diferença desse livro é que não escrevi com caneta, mas com o ouvido: escutando suas lições e suas histórias. Nada mais inesquecível quando verdade e beleza se encontram. Como nos versos de Emily Dickinson: duas lápides vizinhas dividindo as mesmas heras.

As ilustrações são primorosas. Conte um pouco da sua parceria com elas e de onde veio a ideia de dar um caráter quase infantil ao livro a partir das imagens.
Encontrei Ana Cardia no Instagram porque a seguia e sabia que o seu traço combinava com a caligrafia de minha mãe. Fiz o convite sem nenhuma amizade prévia. É um livro adulto do amor entre duas infâncias: a minha e de Maria Carpi. Quis mostrar que devemos conhecer o passado dos nossos pais para entender as suas escolhas. Minha mãe sempre foi minha mãe, mesmo quando eu ainda não tinha nascido. Era muito minha mãe também quando menina.

MAIS VENDIDOS

FICÇÃO
1 “A Garota do Lago”, de Charlie Donlea (Faro)
2 “Torto Arado”, de Itamar Vieira Júnior (Todavia)
3 “Box - Nórdicos - Os Melhores Contos e Lendas”, de vários (Pandorga)
4 “Box - 1984 + A Revolução Dos Bichos”, de George Orwell (Pandorga)
5 “Box - Edgar Allan Poe - Histórias Extraordinárias”, de Edgar Allan Poe (Pandorga)

NÃO FICÇÃO
1 “Mindset”, de Carol Dweck (Objetiva)
2 “Sapiens - Uma Breve História da Humanidade”, de Yuval Noah Harari (Cia. das Letras)
3 “Pequeno Manual Antirracista”, de Djamila Ribeiro (Cia. das Letras)
4 “Uma Terra Prometida”, de Jorio Dauster (Cia. das Letras)
5 “Mulheres que Correm com os Lobos”, de Clarissa Pinkola Estes (Rocco)

AUTOAJUDA
1 “Mais Esperto que o Diabo”, de Napoleon Hill (CDG)
2 “A Sutil Arte de Ligar o F*da-se”, de Mark Mason (Intrínseca)
3 “O Milagre da Manhã”, de Hal Elrold (Record)
4 “Mais Esperto que o Diabo” (bolso), de Napoleon Hill (CDG)
5 “Quem Pensa Enriquece”, de Napoleon Hill (CDG)

Fonte: Livrarias Saraiva (de 23 a 31.mai.2021)

Biblioteca da Vivi

Vivian Masutti, 35, é jornalista formada pela Cásper Líbero e bacharel em letras (português e francês) pela USP (Universidade de São Paulo), onde também cursou a Faculdade de Educação e obteve licenciatura plena em língua portuguesa. No Agora, é coordenadora da Primeira Página.

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