Biblioteca da Vivi

O horror nos faz olhar para o vilarejo macabro que existe em nós

Livro de Raphael Montes evoca o demônio em histórias curtas

Ilustrações de Marcelo Damm para o livro "O Vilarejo", de Raphael Montes
Ilustrações de Marcelo Damm para o livro "O Vilarejo", de Raphael Montes - Divulgação
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Os capítulos curtos do livro “O Vilarejo”, um dos primeiros do carioca Raphael Montes, parecem-se muito com os dias de um confinado em meio à pandemia. Cada um com sua narrativa, todos são carregados de um ambiente soturno que deságua, invariavelmente, em um final tão triste quanto verdadeiro. E é o que infelizmente o leitor está vivendo.

No livro, que evolui com linguagem simples, os causos de horror provêm de três cadernos velhos que são destinados ao narrador. Eles são escritos em uma língua arcaica e demandam enorme esforço de tradução. Por fim, após a primeira dona ter ameaçado queimá-los, eles ganham a versão em português que o leitor vê em mãos.

Seria simples compará-los à obra enorme do escritor americano Stephen King, o maior mestre do terror vivo. É certo no entanto que as historietas têm um quê dos contos dos Irmãos Grimm (que ao que consta não tinham nada de infantis), como sugere a atriz e escritora Fernanda Torres na capa. Assassinato, canibalimo, tortura, traição, racismo... está tudo lá.

Mas existe um elemento bastante peculiar que permeia boa parte dos contos: a fome. Se no primeiro ela aparece de maneira mais descarada na figura de uma mãe que faz de tudo para alimentar os filhos, nos outros ela pode surgir por exemplo como uma sede, como no caso da garotinha que tem a ganância de destruir o namorado da irmã.

Ou mesmo no trecho em que a cidade inteira comenta a postura de uma mulher que trata bem seu escravo faminto. No fim, tudo se alinha na fome de horror que tem o autor e como ela se desenrola de um esquete para outro.

O título do livro também não decepciona e de uma forma ou de outra acaba aparecendo em todas as histórias. É o que evoca um assombroso paralelo com qualquer outro vilarejo que houver por aí, fora ou dentro de nós, tão sufocados pelos dias de horror que a realidade também apresenta.

Uma pitada macabra o autor dá ao colocar no título de cada história uma maneira diferente e nunca óbvia de denominar o demônio.
*
Entro em férias a partir de hoje, e a coluna volta em 24 de maio. Até lá!

MAIS VENDIDOS

FICÇÃO
1 “Box - 1984 + A Revolução Dos Bichos”, de George Orwell (Pandorga)
2 “Box Nórdicos - Os Melhores Contos e Lendas”, de vários (Pandorga)
3 “A Garota do Lago”, de Charlie Donlea (Faro)
4 “Box - O Essencial de Sherlock Homes”, de Arthur Conan Doyle (Aeroplano)
5 “Box - Edgar Allan Poe”, de Edgard Allan Poe (Pandorga)

NÃO FICÇÃO

1 “Vade Mecum Saraiva” (Saraiva)
2 “Sapiens”, de Yuval Noah Harari (L&PM)
3 “Mulheres que Correm com os Lobos”, de Clarissa Pinkola Estes (Rocco)
4 “Box - O Essencial da Psicologia”, de Sigmund Freud e Carl Gustav de Jung (Aeroplano)
5 “Box - O Essencial da Segunda Guerra Mundial”, de Editorial Aeroplano (Aeroplano)

AUTOAJUDA
1 “Mais Esperto Que o Diabo”, de Napoleon Hill (CDG)
2 “Ansiedade”, de Augusto Cury (Saraiva)
3 “A Sutil Arte de Ligar o Foda-Se”, de Mark Manson (Intrínseca)
4 “Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas”, de Dale Carnegie (GMT)
5 “O Milagre da Manhã”, de Hal Elrod (Record)

Fonte: Livrarias Saraiva (de 29.mar. a 4.abr.2021)

Biblioteca da Vivi

Vivian Masutti, 35, é jornalista formada pela Cásper Líbero e bacharel em letras (português e francês) pela USP (Universidade de São Paulo), onde também cursou a Faculdade de Educação e obteve licenciatura plena em língua portuguesa. No Agora, é coordenadora da Primeira Página.

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