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Adriana Esteves, Renata Sorrah e Fernanda Montenegro falam sobre o fascínio das vilãs

Série 'As Vilãs que Amamos' é exibida aos sábados no canal Viva

Adriana Esteves como a personagem Carminha, de "Avenida Brasil" (2012)
Adriana Esteves como a personagem Carminha, de "Avenida Brasil" (2012) - Alex Carvalho/Globo
Karina Matias
São Paulo

"Novelas sem vilã não tem a menor graça, não é?" A frase é da atriz Renata Sorrah, 72, intérprete de uma das maiores malvadas da TV brasileira: a inesquecível Nazaré Tedesco, de "Senhora do Destino" (Globo, 2004-2005). O depoimento faz parte da série documental do canal Viva, "As Vilãs que Amamos". 

O programa, com 16 episódios, reúne depoimentos de grandes vilãs das novelas em busca de uma explicação para o fascínio que as megeras provocam no público. "Acho que são os melhores personagens", decreta Laura Cardoso, 91, que fez Sinhá em "Sol Nascente" (Globo, 2016-2017).

Silvio de Abreu, autor de sucessos como "Rainha da Sucata" (Globo, 1990) e "A Próxima Vítima" (Globo, 1995), concorda que as antagonistas são as mais cativantes de toda a obra. Segundo ele, uma boa malvada não pode ser uma personagem óbvia.

 

Que o diga Joana Fomm e a sua inusitada Perpétua, de "Tieta" (Globo, 1989-1990). "Com a vilã você é doida, você é maluca, você faz o que quer", diz ela. "E a vilã, diferentemente do vilão que é uma coisa mais séria e mais pesada, pode ser muito leve e divertida. Divertida não no sentido da comédia, mas nas armações que ela pode fazer", complementa Abreu.

Maria Altiva, a socialite falida vivida por Eva Wilma, 85, e que aprontava todas na cidade de Greenville em "A Indomada" (Globo, 1997), faz parte do time de vilãs que o público ama odiar. Como esquecer dos seus bordões, ditos com sotaque nordestino: "Oxente, my God. Well..." "O prazer da maldade é uma coisa fascinante", afirma Wilma, na série. 

Conhecida como uma das principais mocinhas da TV brasileira, Regina Duarte, 72, também é entrevistada no primeiro episódio da série para fazer um contraponto com as malvadas. Ela diz acreditar que as vilãs fazem sucesso por provocarem identificação com as pessoas. "Elas são amadas, porque revelam ao espectador um lado obscuro que eles não têm coragem de assumir. Daí essa identificação com coisas que não podem ser ditas, ações que não podem ser feitas, crimes que não podem ser cometidos."

Fernanda Montenegro, 89, que fez a megera Bia Falcão, de "Belíssima" (Globo, 2005-2006), tem opinião semelhante. "O ser humano é bem dividido em suas entranhas entre o bem e o mal." 

Regina Duarte também afirma que as malvadas ganharam a preferência do público nos últimos anos, porque são personagens "mais ricas". Ela criticou, ainda, a falta de heroínas "poderosas". "Elas [as vilãs] têm mais ingredientes, têm mais capacidade de sedução, são mais complexas, menos óbvias, menos chatas. Então, elas ganham sempre. Isso se deve a uma incapacidade de se fazer heroínas poderosas realmente. Eu fiz algumas."

Marieta Severo, a inescrupulosa Sophia de "O Outro Lado do Paraíso" (Globo, 2017-2018), lembra que por meio das maldades das antagonistas podem ser feitas grandes críticas sociais. Adriana Esteves, que se destacou como Carminha, de "Avenida Brasil" (Globo, 2012), e Laureta, de "Segundo Sol" (Globo, 2018), tem a mesma opinião.

"A vilã denuncia coisas que o povo quer denunciar, que o povo quer gritar". No final de "Segundo Sol", por exemplo, a malvada Laureta deixava a prisão e se lançava como candidata a deputada em uma clara crítica aos políticos do Brasil. 

A PRIMEIRA VILÃ

Mas nem sempre as malvadas foram amadas. Já houve tempo em que as megeras eram odiadas pelo público, e as suas intérpretes sofriam as consequências disso na pele. É o que conta na série a atriz Arlete Montenegro, 80, responsável pela primeira vilã da TV brasileira: Belinha, da novela "Ambição", escrita por Ivani Ribeiro (1922-1995), e exibida na TV Excelsior, em 1964. 

Ela revela que recebia muitas cartas de telespectadores revoltados com a atitude da sua personagem e chegou até a apanhar no supermercado. "Eu vivia resfriada, gripada e caía sozinha, do nada, na rua. Olha a energia ruim que eu recebia de São Paulo inteira e do Brasil."

O último capítulo da trama foi gravado, com a presença do público, na igreja da Consolação, em São Paulo. Era o casamento dos mocinhos. O diretor da trama, Dionísio de Azevedo (1922-1994), queria que a atriz participasse das cenas, fazendo caras e bocas atrás de pilastras do templo. Com medo da reação das pessoas, ela se recusou. 

"Eu não fui e fiz bem, porque depois eu vi que vieram piquetes de toda São Paulo para bater na Belinha. Quebraram altares na igreja", revelou. Apesar disso, ela afirma que tem muito orgulho de ter sido a primeira vilã: "É um papel muito forte, muito poderoso, de empoderamento."

A série não deixa de homenagear Beatriz Segall, morta em 2018, e responsável pela vilã mais conhecida da TV brasileira: Odete Roitman, de "Vale Tudo" (Globo, 1988-1989). Em imagens de arquivo, o programa relembra cenas da megera e depoimentos da atriz sobre o papel. "Quanto mais maldades ela fazia, mais interessante ela ficava", diz Segall. 

"As Vilãs que Amamos" estreou no dia 22 de junho, no Viva. Os episódios que já foram ao ar estão disponíveis também no Viva Play. As atrizes Fernanda Montenegro, Lília Cabral, Susana Vieira, Claudia Abreu, Eva Wilma, Nathália Timberg, Cássia Kis, Marieta Severo, Lea Garcia, Laura Cardoso, Joana Fomm, Glória Menezes, Renata Sorrah, Gloria Pires e Adriana Esteves são as convidadas da atração.

As Vilãs que Amamos

  • Quando Aos sábados, às 19h
  • Onde Canal Viva
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