Tony Goes

Custo alto e fuga dos jovens da TV aberta causaram o fim de 'Malhação'

Programa sai do ar em 2022, depois de 27 anos ininterruptos

Dado (Claudio Heinrich) e Luiza (Fernanda Rodrigues), protagonistas da primeira "Malhação" (1995) - Nelson Di Rago/Globo
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Em meados da década de 1990, a Globo buscava um novo formato de dramaturgia, que não custasse os olhos da cara. Algo próximo das “soap operas”, as novelas vespertinas da TV aberta americana, que duram anos a fio e cujos elencos vão mudando aos poucos.

Desenvolvida por Andrea Maltarolli e Emanuel Jacobina, “Malhação” estreou em 24 de abril de 1995, na faixa das 17 horas. O principal cenário era uma academia, onde se cruzavam jovens de diferentes origens. Focado no público adolescente e com uma boa dose de humor, o programa foi um sucesso imediato.

“Malhação” manteve o cenário e o elenco originais por alguns anos. No entanto, a série acabou evoluindo para o formato que os americanos chamam de antologia: a cada temporada, conta-se uma nova história, com elenco e cenários diferentes

A fórmula deu muito certo. Além de servir de aquecimento para a novela das 18 horas, atraindo o espectador mais cedo para a frente da TV, “Malhação” também ajudou a revelar dezenas de novos atores e autores. Praticamente não há quem tenha sido adolescente de 1995 para cá que não tenha acompanhado pelo menos uma temporada da série.

No entanto, a partir da década passada, a audiência começou a cair. Essa tendência de queda foi interrompida por “Viva a Diferença” (2017), a única temporada ambientada em São Paulo, que conquistou o público e a crítica, mas retomada nas duas seguintes.

Aí veio a pandemia, e a temporada prevista para 2020 foi cancelada. Em seu lugar, entraram reprises. No momento, a Globo exibe “Sonhos”, de 2014, que deve terminar em fevereiro de 2022.

Na sequência, estava prevista uma temporada inovadora. Escrita pelos irmãos Eduardo e Marcos Carvalho, que são negros, a trama teria 70% de personagens também negros, e seria ambientada em uma favela carioca. Um grande passo da emissora em direção à diversidade.

Só que, nesta terça (28), a Globo informou que esta nova safra foi “adiada”, interrompendo sua produção. A leitura que boa parte da imprensa fez foi outra: “Malhação” estaria definitivamente cancelada, depois de 27 anos no ar.

A razão principal é o custo. Não é segredo que as receitas de todas as emissoras abertas vêm caindo vertiginosamente, obrigando-as a demitir funcionários e reduzir produções.

A pandemia também inundou a tela de reprises. E a Globo logo percebeu, por exemplo, que o humorístico “Vai que Cola”, produzido para seu canal pago Multishow, alcança índices de audiência semelhantes aos de um episódio inédito do extinto “Zorra”. Para quê gastar em conteúdo novo, se o que já existe quebra o galho?

Mas também há um outro fator que explica o fim de “Malhação”. Os jovens de hoje não estão mais tão ligados na TV aberta quanto os das gerações anteriores. A garotada não tem interesse por novelas, nem paciência para ver um programa com hora marcada. O YouTube e as plataformas de streaming mudaram os hábitos para sempre.

Especula-se que a Globo irá reprisar duas novelas antigas na faixa Vale a Pena Ver de Novo, ou até mesmo ressuscitar o Video Show. São opções baratas, mas de apelo restrito ao público mais velho.

Dessa forma, segue o dilema: o que fazer para atrair os jovens de volta à TV aberta?

Tony Goes

Tony Goes tem 60 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.com.br

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