Tony Goes

Reincidente na homofobia, Patrícia Abravanel encarna a decadência do SBT

Emissora insiste em posturas arcaicas e programação embolorada

A apresentadora Patrícia Abravanel

A apresentadora Patrícia Abravanel Marcus Leoni-19.jul.2018/Folhapress

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Ela fez de novo. No primeiro dia do mês do orgulho LGBTQIA+, a apresentadora Patríca Abravanel, 43, soltou declarações homofóbicas mais uma vez.

Durante o programa Vem Pra Cá (SBT) desta terça-feira (1º), a filha número quatro de Silvio Santos disse que os gays precisam “compreender” quem não os respeita e que é difícil falar sobre diversidade com os filhos. Como se fosse pouco, ainda debochou da sigla LGBTQIA+, que ela pronunciou como LGBTYH.

Se o SBT fosse uma emissora séria, dessas que respeitam a audiência, Patrícia seria, no mínimo, advertida, e já teria pedido desculpas no ar. Ainda mais se os patrocinadores fossem empresas que promovem a inclusão, e não a Jequiti ou as lojas Havan.

Mas por que Patrícia Abravanel seria advertida? Afinal, ela é filha do dono do canal —e nunca é demais lembrar que Silvio Santos, ao longo de toda a carreira, soltou barbaridades muito piores, de teor machista, racista, homofóbico e gordofóbico.

Patrícia também é filha de Íris Abravanel, autora titular de quase todas as novelas infantojuvenis produzidas pela casa. Tampouco é demais lembrar que, no capítulo 61 de “As Aventuras de Poliana”, exibido em agosto de 2018, a coordenadora Helô, vivida pela atriz negra Elina de Souza, dizia a uma aluna igualmente negra que a culpa pelo racismo era dos próprios negros, que se colocariam como “diferentes” do resto da sociedade.

Patrícia Abravanel é casada com Fábio Faria (PSD-RN), ministro das Comunicações. Será que ela também não acha difícil explicar para as crianças que o governo Jair Bolsonaro ignorou ou recusou 11 ofertas para adquirir as vacinas da Pfizer?

Por fim, a apresentadora é tia de Tiago Abravanel, filho de sua irmã Cíntia. O ator e cantor é gay assumido, e casado com o produtor Fernando Poli. Se Patrícia acha difícil falar de homossexualidade com os filhos, nem precisa: basta deixá-los conviver com Tiago. Não há maneira melhor de ensinar respeito e amor do que a convivência natural. Digo isto por experiência própria.

Tiago, visivelmente magoado, rebateu as declarações de Patrícia em um vídeo postado em seu perfil no Instagram. “(Vou) tentar falar para você, tia, o como eu me senti assistindo, tá? Eu acho que em primeiro lugar, orientação sexual não é uma questão de opinião. É uma questão de respeito”, diz.

“Opinar, você opina se uma roupa é bonita ou feia para você. Se você quer café ou chá ou se você gosta de doce ou salgado. A orientação sexual não é da opinião de ninguém. A não ser da pessoa que escolheu ser aquilo que ela é. Escolheu não. Ela nasceu assim, então, não é uma questão de opinião. Ponto. Quando se opina em relação a isso... Esse é um ato homofóbico”.

Talvez, agora, Patrícia se posicione, depois de ter ferido alguém da própria família. Mas eu, para falar a verdade, duvido. Apesar de ser indiscutivelmente talentosa e despontar como possível herdeira do pai em frente às câmeras, Patrícia Abravanel também demonstra, com sua fala homofóbica, que tem a cabeça tão velha quanto uma reprise de “Chaves”.

Ela se insere no processo de decadência generalizada do SBT, uma emissora que já ocupou um confortável segundo lugar na audiência e hoje luta para se manter relevante.

Foram muitos os bondes da história que Silvio Santos perdeu. Ele não investiu em TV paga, não investiu no streaming, nunca incentivou a inovação. Seus programas “novos” são, na verdade, quase todos vindos de outros canais, ou adaptações de formatos estrangeiros. Pouquíssimos foram criados dentro do SBT.

Além de tudo, a emissora não se deu conta de que o mundo mudou, e insiste numa programação que empacou na década de 1960. Faltam negros em suas produções. Falta diversidade. Sobra apoio a este desgoverno anacrônico.

O resultado está aí: Ibope baixo e atrações que só repercutem quando alguém manifesta preconceito.

ATUALIZAÇÃO: A assessoria de imprensa do SBT me chamou a atenção para o fato de que, no próprio Vem Pra Cá, o fotógrafo Gabriel Cardoso explicou para Patrícia o significado da sigla LGBTQIA+. Isto mostra que ela está disposta a aprender. Para isto ficar ainda mais claro, sugiro que ela volte ao assunto na TV, em seu programa.

Tony Goes

Tony Goes tem 60 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.com.br

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