Tony Goes

Será que o legado de Silvio Santos irá sobreviver?

Apresentador chega aos 90 anos com saúde, mas o futuro de seu império é incerto

Silvio Santos
Silvio Santos - Lourival Ribeiro/SBT
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Silvio Santos completou 90 anos de idade no dia 12 de dezembro. O dono do SBT chegou a esta idade com saúde, cercado pelas filhas e pelos netos. Também mereceu diversos artigos elogiosos na imprensa brasileira, destacando sua importância como apresentador e empresário.

Uma reportagem, no entanto, desviou do tom: em entrevista ao UOL, Boni criticou Silvio de maneira contundente. “Não fez nada que fosse importante para a história da TV brasileira, a não ser ele mesmo”, disse o ex-vice-presidente de operações da Globo.

Como assim, não fez nada de importante? E o SBT, que disputa com a Record o posto de segunda emissora de maior audiência do país? E os milhares de empregos diretos e indiretos gerados por suas empresas? Nada disso conta?

Claro que conta, mas Boni tem razão. Ao longo de mais de 60 anos, Silvio construiu talvez a carreira mais bem-sucedida da nossa televisão. Passou de animador de auditório a líder de um império. Continua sendo uma das figuras mais populares do Brasil, e tudo o que ele diz e fala costuma virar notícia.

Mas será que este império sobreviverá? Qual será o legado que SS irá deixar, para além das nossas memórias afetivas? Suspeito que bem pouco.

Silvio Santos não tem sócios. O SBT é 100% dele. Não precisa dar ouvidos a ninguém, e não dá mesmo. São frequentes seus arroubos, tirando do ar programas que acabaram de estrear, ou mudando sem parar os horários dos que não vão bem no Ibope. Quando é criticado por isto, muitos o defendem nas redes sociais: “a TV é dele, ele faz o que quiser”. E faz mesmo.

Só que nem sempre faz bem. Silvio insiste em produzir, em pleno 2020, uma programação digna dos anos 1960. Programas de apelo popularesco, às vezes, sensacionalista. Dramaturgia primária. Jornalismo subserviente aos poderosos de plantão, como se nunca tivéssemos saído da ditadura militar.

No ar desde 1981, o SBT jamais primou pela inovação. Praticamente todos seus programas de sucesso vieram prontos de outros canais: A Praça É Nossa, Hebe, Programa do Ratinho. Muito poucos nasceram intramuros.

Alguns grandes talentos surgiram lá, verdade seja dita, como Gugu Liberato ou Maísa. Mas até mesmo a maior revolução que o SBT provocou na TV brasileira –A Casa dos Artistas (2001), o primeiro reality show de confinamento– não foi criado lá dentro, mas copiado sem maior cerimônia do Big Brother, formato da produtora holandesa Endemol depois adquirido pela Globo.

Além do mais, todo o SBT existe em função de Silvio. Ele é a maior atração da casa, o diretor de programação, o proprietário e, como se não bastasse, também o maior anunciante. É como se, na Globo da década de 1990, Xuxa, Boni, Roberto Marinho e o presidente da Coca-Cola ou da Volkswagen fossem todos a mesma pessoa.

Essa estrutura toda consegue sobreviver sem sua figura de proa? Tenho sérias dúvidas, que foram aprofundadas depois do que aconteceu em 2020.

Nenhuma outra emissora da nossa TV aberta foi tão afetada pela pandemia do novo coronavírus quanto o SBT. Reprises ocupam a grade há muitos meses. O próprio Silvio não produz conteúdo inédito desde o final de 2019. Para confirmar o “annus horribilis”, Maisa pediu as contas e foi embora.

A sucessão de Silvio Santos já está garantida, com as diversas funções de comando de suas empresas distribuídas entre suas filhas. Estou muito curioso para ver que rumo elas vão dar ao SBT. Irão investir na TV paga ou no streaming, duas áreas em que a emissora nunca se arriscou? Contratarão nomes consagrados, ou buscarão desenvolver os talentos internos?

Claro que é cedo para dizer. Por enquanto, o legado de Silvio Santos à TV brasileira ainda corre perigo.

Tony Goes

Tony Goes tem 60 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.com.br

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