Tony Goes

Cerimônia do Oscar ficou mais ágil e enxuta, mas com cara de Globo de Ouro

Distanciamento social proporcionou clima intimista, com mais emoção que glamour

A atriz Regina King, uma da apresentadora do Oscar

A atriz Regina King, uma da apresentadora do Oscar Chris Pizzello-25.abr.2021/Reuters

Para um ano peculiar, um Oscar peculiar. A cerimônia de 2021 desviou do padrão a que estávamos acostumados. No lugar do gigantesco Dolby Theatre, a ação se concentrou em um salão da Union Station, uma histórica estação de trem no centro de Los Angeles.

Os indicados não estavam mais acomodados nas primeiras fileiras de um auditório, mas espalhados por mesas –com distanciamento social e nenhuma aglomeração.

O diretor Steven Soderbergh, um dos três produtores do evento, prometeu que ele seria "mais cinema e menos TV". Não conseguiu. Apesar da abertura emular os créditos iniciais de um longa, com letreiros com os nomes dos apresentadores, o que se viu foi algo parecido com a entrega do Globo de Ouro, o primo pobre do prêmio da Academia. Sem as piadas cáusticas daquela festa, pois os tempos não estão para brincadeira.

Por outro lado, a 93ª entrega do Oscar logrou uma façanha e tanto: um clima intimista, quase familiar. Dessa vez, nada da orquestra interromper o discurso de agradecimento do vencedor —aliás, nem orquestra havia, só um DJ.

Soderbergh disse que queria dar tempo para os premiados contarem suas histórias, e deu certo. Sem medo de serem gongados do palco, quase todos aproveitaram bem o tempo, sem abusar da paciência do espectador. Uma inovação que poderia ser mantida no próximo ano, se tudo voltar ao normal.

O ritmo também foi bem mais ágil que o habitual. Esta já é a terceira edição sem um anfitrião fixo, e o rodízio entre os apresentadores funcionou melhor do que nunca. Cada um conduziu um único bloco, e cada bloco trouxe apenas dois prêmios. Sem enrolação, mas com espaço para os indicados serem introduzidos com calma —e também para a emoção do vencedor aflorar.

As apresentações das canções indicadas sempre geraram discórdia. Em anos anteriores, eram encurtadas, ou juntadas em medleys. Dessa vez, foram todas executadas na íntegra. Só que antes da cerimônia em si, durante o chamado “pré-show”, em segmentos pré-gravados entremeados às entrevistas no tapete vermelho.

Deu certo: as performances não tiveram produções suntuosas nem contaram com o calor da plateia, mas foram de alta qualidade. As músicas em si, nem tanto. Provavelmente, serão todas esquecidas em pouco tempo.

Sem números musicais, a ordem habitual das premiações também foi alterada. Os primeiros troféus entregues foram os de roteiro, original e adaptado —talvez para nos lembrar que um filme sempre começa pelo roteiro? Melhor diretor, geralmente um dos últimos prêmios da noite, saiu já no quarto bloco para a favoritíssima Chloé Zhao, de "Nomadland".

As apresentações dos concorrentes a melhor filme, que eram espalhadas durante o programa, também foram arquivadas. Outra decisão acertada, pois funcionavam como um breque de mão no ritmo da cerimônia. Mas o prêmio humanitário Jean P. Hersholt, entregue ao produtor Tyler Perry, comeu minutos preciosos. A Academia deve ter batido o pé.

Tudo correu relativamente bem até os três últimos blocos. Soderbergh e sua equipe decidiram entregar o prêmio de melhor filme, tradicionalmente o último da noite, antes dos de melhor atriz e ator. Provavelmente, para deixar a esperadíssima vitória de Chadwick Boseman por "A Voz Suprema do Blues" como o grand finale da cerimônia.

O discurso de agradecimento de Taylor Simone Ledward, viúva do ator morto em agosto passado, traria lágrimas aos olhos de todos. Só que nem mesmo os produtores têm acesso aos envelopes com os nomes dos vencedores, e o destino resolveu pregar uma peça.

Joaquin Phoenix anunciou Anthony Hopkins como o vencedor do Oscar de melhor ator. Àquela altura, o protagonista de "Meu Pai" dormia no País de Gales. Não houve discurso nem nada, e o filme prometido por Steven Soderbergh terminou de maneira chocha e abrupta.

No final, a entrega do Oscar de 2021 foi condizente com o estranho período que estamos vivendo. Filmes-espetáculo de grande apelo popular, como o "West Side Story", de Steven Spielberg, ou o "Duna", de Denis Villeneuve, tiveram suas estreias adiadas para o final deste ano.

Com um cardápio minguado, cheio de títulos de baixo orçamento, a cerimônia da Academia também cortou seus excessos. Foi pequena, despretensiosa e adequada para o segundo ano da pandemia.

Tomara que tenha sido apenas uma exceção. Que, em 2022, a festa esteja de volta a seu lar oficial, o Dolby Theatre. Muito do que se fez neste ano pode ser incorporado de vez, como os discursos relaxados e a atenção especial a cada indicado.

Mas fizeram muita falta o glamour, os efeitos especiais e até as gafes. Afinal, estamos falando do Oscar, o mais exagerado de todos os prêmios.

Tony Goes

Tony Goes tem 60 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.com.br

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