Viola Davis, Chadwick Boseman, Colman Domingo, Michael Potts e Glynn Turman em 'Ma Rainey's Black Bottom'

Viola Davis, Chadwick Boseman, Colman Domingo, Michael Potts e Glynn Turman em 'Ma Rainey's Black Bottom' David Lee/Netflix

Kyle Buchanan

Na nova adaptação da Netflix para "Ma Rainey’s Black Bottom", estamos em um dia quente de verão em Chicago, no ano de 1927, e todo mundo quer alguma coisa. Os figurões brancos da indústria da música querem um novo disco da indomável Ma Rainey (Viola Davis), uma cantora negra do sul dos Estados Unidos conhecida como “a mãe do blues”, e querem que isso aconteça rápido.

O ambicioso trompetista que a acompanha, Levee (Chadwick Boseman), está desesperado para dar um toque contemporâneo às canções antiquadas de Rainey, na esperança de que isso o ajude a lançar sua carreira. E o que Rainey mesma deseja, depois de chegar atrasada à sessão de gravação, causar tumulto na rua e avaliar os músicos suplicantes que a cercam como gafanhotos? Bem, para começar, ela quer uma Coca-Cola. E onde diabos está a bebida?

Adaptado pelo diretor George Wolfe e pelo roteirista Ruben Santiago Hudson da peça escrita por August Wilson em 1984, esse novo olhar sobre "Ma Rainey’s Black Bottom" estreia em 18 de dezembro na Netflix, ainda que muita coisa tenha mudado desde as filmagens, no ano passado. Em agosto, Boseman morreu, aos 43 anos, depois de uma batalha oculta contra câncer no cólon. Levee foi seu último papel. "Ele fez um trabalho brilhante, e agora se foi", disse Denzel Washington, um dos produtores do filme. "Ainda não consigo acreditar."

Além disso, depois de um verão de acerto de contas racial no país, a trágica história de Wilson sobre americanos negros tentando navegar por um sistema montado para explorá-los se tornou ainda mais relevante. “Como ir adiante”, questionou Wolfe, “quando o passado ainda nos assombra?”

“Ma Rainey’s Black Bottom” é a segunda adaptação para as telas de uma peça de Wilson, de 2015 para cá. Naquele ano, Washington foi encarregado pelos executores do espólio literário do escritor premiado com o Pulitzer de levar suas obras às telas.

A primeira adaptação, "Fences", dirigida por Washington, valeu a Davis um Oscar como melhor atriz coadjuvante; para o próximo trabalho, Washington espera escalar seu filho, John David Washington, Samuel L. Jackson e o diretor Barry Jenkins para adaptar "The Piano Lesson", de 1987. "A maior parte do tempo que resta em minha carreira vai ser dedicado a garantir que August seja tratado como merece", disse Washington.

Mas quando Washington e Wolfe procuraram Davis com a proposta de que ela interpretasse Rainey, a atriz hesitou. Ainda que tenha ganhado dois prêmios Tony –por sua interpretação em "King Hedley 2°", um drama de Wilson, em 2001, e pela nova montagem de "Fences" realizada na Broadway em 2010–, a atriz jamais havia interpretado uma diva como a cantora de blues, e tinha dúvidas sobre sua capacidade para fazê-lo.

"Eu pensei em 50 outras atrizes para o papel antes de me imaginar nele", disse Davis. "Ela é uma pessoa combativa, e isso se estende ao seu corpo e à forma como ela se veste. E pode acreditar que, como Viola, em minha vida, não é isso que eu faço."

Com os olhos quase encobertos por maquiagem escura, os dentes revestidos de ouro e os seios frequentemente se despejando para fora do vestido, Rainey é uma figura marcante. "É uma espécie de kabuki negro sulista", disse Wolfe, que se inspirou nas coristas do Apollo Theater, que costumavam usar graxa de sapato diluída para sombrear seus rostos. "Fiquei fascinado com a maneira pela qual os artistas negros de certa era inventaram uma forma de estilo e glamour."

A aparência criada dessa maneira tem um significado e, para Davis, isso ficou realmente claro. "Foi trabalhoso assumir tudo aquilo", ela admitiu. Mas, depois de aceitar o compromisso de fazer o papel e de deixar suas inibições na porta, personificar Ma Rainey foi “totalmente fantástico”, ela disse.

"Curti muito vivê-la. Eu passava o dia todo jogando os quadris. Havia muita alegria naquela liberdade de expressão”. E a autoconfiança da personagem também ensinou outra lição valiosa a Davis: "Tenho de me lembrar de que não preciso aceitar trocas para poder revelar aquilo que valho. Já nasci com esse valor".

A produção terminou sendo montada de maneira a se acomodar à agenda lotada da atriz. O filme foi rodado em Pittsburgh no ano passado, durante a pausa de verão nas gravações de sua série “How To Get Away With Murder”, e todas as cenas com Davis foram gravadas primeiro para ela poder voltar à produção da última temporada do seriado.

Ainda que Boseman, o segundo nome dos créditos, estivesse naquele momento no pico de sua fama, depois de um triplo sucesso de bilheteria com “Pantera Negra”, “Vingadores: Guerra Infinita” e “Vingadores: Ultimato”, Davis descreveu seu colega de elenco como um colaborador perfeito.

“Muitos atores acham que a presença deles é a coisa mais importante”, disse Davis. “Um ator com o status de Chadwick usualmente vem precedido por seu ego: eles querem isso, não farão aquilo. No caso de Chadwick, isso absolutamente, 150%, não aconteceu. Ele descartava completamente o ego, a vaidade, e deixava que Levee emergisse”.

O papel será uma revelação para os fãs que só conheciam Boseman como o estoico super-herói T’Challa. No papel de Levee, sua presença física é marcante, quer ao lidar com um passado repleto de traumas, quer ao seduzir Dussie Mae (Taylour Paige), namorada de Rainey, quer ao disparar dois monólogos que culminam em uma expressão de raiva a Deus. É um desempenho repleto de carisma que quase certamente resultará em uma indicação ao Oscar, e é o melhor trabalho de Boseman nas telas.

Davis disse que não fazia ideia dos problemas que Boseman estava enfrentando enquanto rodava o filme. "Eu agora recordo o quanto ele parecia cansado, o tempo todo", ela disse. "Vejo aquela linda, incrível, equipe meditando com ele, ou o massageando, e agora percebo que estavam tentando lhe dar forças para trabalhar em seu melhor nível. E essa força claramente chegava a ele."

Mas ainda que as ambições frustradas de Levee provavelmente devem ganhar grandeza trágica ainda maior depois da morte de Boseman, Davis encoraja os fãs do ator a se concentrar mais nas verdades culturais que Boseman pretendia transmitir.

"Acho que muitas vezes as pessoas contemplam a vida de alguém ao contrário", ela disse. “Agora temos esse lamentável conhecimento de que Chadwick sucumbiu ao câncer com 43 anos, mas a verdade é que Levee representa tantos homens negros que viveram nos Estados Unidos. Aquilo que eles navegam a cada dia, constantemente, é o trauma de nosso passado; estamos tentando nos curar disso, estamos tentando compreender que o trauma existe, e negociando entre isso e nossos sonhos, e aquilo que desejamos nos tornar."

Para Davis, é isso que continua tão significativo sobre o trabalho de Wilson, no qual pessoas negras comuns enfim se tornam a espécie de herói trágico que por muito tempo foi personificado por atores brancos no teatro. "Agora sabemos que o papel espelha a vida de Chadwick, mas mesmo que isso seja omitido, Levee ainda espelharia sua vida, de algum modo", disse Davis, "porque espelha a vida de cada pessoa negra que vive o pesar, e especialmente a vida dos homens negros".

The New York Times

Tradução de Paulo Migliacci

Final do conteúdo

Comentários

Ver todos os comentários Comentar esta reportagem