Tony Goes
Descrição de chapéu Dia da Consciência Negra

'Falas Negras' mostrou ótimos atores que poderiam ser mais bem aproveitados pela TV

Exibido no Dia da Consciência Negra, especial trouxe caras pouco conhecidas

Falas negras, com Olívia Araújo
Em ‘Falas Negras’, a atriz Olivia Araujo é Harriet Tubman - Victor Pollak/Divulgação

Na sexta passada (20), a Globo transmitiu o que talvez seja o programa mais importante da TV brasileira em 2020. Concebido por Manuela Dias (autora da novela “Amor de Mãe”) e dirigido por Lázaro Ramos, o especial “Falas Negras” transformou textos e depoimentos de figuras históricas e contemporâneas em monólogos impactantes.

Todos os vultos retratados eram negros que se destacaram de alguma forma na luta contra a escravidão, o racismo e a desigualdade, desde o século 17 até os dias de hoje. E todos foram interpretados por excelentes atores negros – alguns famosos; outros, praticamente desconhecidos pelo público da TV aberta.

“Falas Negras”, que já seria um projeto importante em circunstâncias normais, ganhou ainda mais pungência por causa de uma tragédia ocorrida na véspera da exibição: o assassinato de João Alberto Silveira Freitas, um homem negro, por dois seguranças de um supermercado da rede Carrefour em Porto Alegre (RS).

A comoção que tomou boa parte do Brasil por causa desse crime bárbaro encontrou sua catarse no final do programa. Foi impossível conter as lágrimas diante das atuações de Silvio Guindane e Tatiana Tibúrcio.



Guindane, que começou ainda criança sua carreira de ator, já participou de dezenas de filmes, novelas e séries, mas nunca tinha encarnado um personagem com a carga dramática de Neilton Pinto, o pai do menino João Pedro, morto durante uma operação policial em São Gonçalo (RJ), em maio passado.

Tatiana Tibúrcio foi ainda mais surpreendente. Muitos espectadores pensaram que se tratava da própria Mirtes Renata, a mãe de Miguel, o garoto que despencou de um prédio no Recife (PE) em junho. Atriz tarimbada e com alguns prêmios no currículo, Tatiana também foi a preparadora do elenco de “Falas Negras”. Fez algumas participações em novelas da Globo, mas nenhuma teve, nem de longe, a repercussão que alcançou com o especial. Sua atuação contundente revelou uma atriz fantástica, visceral e técnica ao mesmo tempo.

Terminado o programa, muita gente se perguntava nas redes sociais: onde se escondiam tantos atores fenomenais? Por que a TV brasileira não dá mais chances a esses talentos maiúsculos? Além de Guindane e Tibúrcio, também brilharam Bukassa Kabengele, Barbara Reis, Izak Dahora, Heloisa Jorge, Guilherme Silva, Ivy Sousa, Reinaldo Junior, Aline Deluna, Samuel Melo, Valdineia Soriano, Angelo Flavio, Olivia Araújo, Naruna Costa e Tulanih Pereira, ao lado de nomes mais estabelecidos como Flávio Bauraqui, Babu Santana, Mariana Nunes, Fabrício Boliveira, Ailton Graça e Taís Araújo.

Fiquei até envergonhado, como colunista de entretenimento, de conhecer tão poucos integrantes desse elenco fabuloso. Já como espectador, fiquei foi revoltado: eu simplesmente exijo ver mais de cada um desses artistas. Não se trata de cotas, nem de qualquer tipo de ação social. É egoísmo mesmo. Só quero perder meu tempo diante de grandes atores, e não é justo comigo (e com todo o público, claro) que as emissoras não aproveitem melhor tanta gente incrível.

A Globo, felizmente, parece ter acordado depois do bafafá que foi a novela “Segundo Sol” (2018), que tinha pouquíssimos atores negros em uma trama ambientada em Salvador, a capital mais negra do Brasil. Desde então, negros vêm ganhando visibilidade e destaque nas produções do canal.

Também nos comerciais os negros têm sido mais presentes. É bom lembrar que, por mais que pose de preocupada com as causas sociais, a propaganda não faz caridade. Se tem mais negros nos anúncios, é porque negros vendem.

E vão vender e comprar cada vez mais, porque finalmente está se formando uma classe média negra no Brasil. Mais e mais negros têm acesso à universidade, e saem de lá exigindo mais de tudo: representatividade, emprego, consumo, justiça, tudo.

Alguns veículos já estão de olho neste novo mercado e se adaptando à nova realidade –como a Netflix, que costuma encher de negros suas produções brasileiras, e a já citada Globo. Outros, como o SBT, parecem que ficaram presos em algum momento do século 20, quando os negros mal faziam figuração. Já estão ficando para trás –e, se não mudarem logo, irão simplesmente desaparecer.

Tony Goes

Tony Goes tem 60 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.com.br

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