Tony Goes

Por que quase não existem mais atores 'estratégicos' no elenco da Globo?

Nomes de peso vêm deixando a emissora, que se adapta aos novos tempos

Miguel Falabella, Bruno Gagliasso e Bruna Marquezine
Miguel Falabella, Bruno Gagliasso e Bruna Marquezine - Folhapress/Divulgação/Instagram

José de Abreu. Miguel Falabella. Vera Fischer. Só na semana passada, ficamos sabendo que essas três estrelas não terão seus contratos renovados com a Globo. Cada uma delas tinha mais de três décadas de vínculo com a emissora.

Os desligamentos de grandes nomes vêm acontecendo desde, pelo menos, 2013, e se acentuaram nos últimos dois anos. A lista de ex-globais já é longa: Malu Mader, Maitê Proença, Malvino Salvador, Carolina Ferraz, Leandro Hassum, Bianca Bin...

Há também aqueles que escolheram não renovar, como Bruno Gagliasso ou Marco Pigossi, e até o caso singular de Regina Duarte, que saiu depois de 50 anos para ficar três meses como secretária da Cultura.

A cada demissão, as redes sociais entram em polvorosa. “A Globo está quebrada, não tem mais dinheiro para pagar ninguém, acabou a mamata!”, celebram os bolsonaristas. Só que não é bem assim. A propaganda do governo federal nunca teve um peso significativo nas receitas da emissora, e os cortes já estavam acontecendo muito antes de Bolsonaro ser eleito presidente.

A mudança se deve a inúmeras razões. Para começar, o próprio modelo de contratação ficou obsoleto. No resto do mundo, poucos canais trabalham desse jeito, mantendo centenas de atores sob exclusividade. Na maioria desses países, predomina o modelo americano: o elenco é pago pelas produtoras das séries e novelas, que são empresas independentes das emissoras.

Por isto mesmo, é comum termos um ator estrelando uma série num canal aberto e, algum tempo depois, uma outra série em um outro canal. Em tempos de streaming, então, não são raros os que aparecem em várias plataformas ao mesmo tempo, como Reese Witherspoon ou Steve Carrell.

Aqui no Brasil, a novela se impôs como o principal gênero desde os primórdios da televisão. Isto fez com que as emissoras buscassem reter os atores campeões de audiência, oferecendo-lhes altos salários e contratos de longa duração. Dois remanescentes dessa época são Glória Menezes e Tarcísio Meira, que estão na Globo há mais de meio século.

Mas já nos anos 1970 surgiram os contratos por obra certa, voltados principalmente ao elenco coadjuvante. Fulano era chamado para uma novela, passava um ano trabalhando, era dispensado no final sem maiores dramas e, muitas vezes, chamado novamente algum tempo depois. Centenas de atores famosos jamais tiveram contratos fixos de longa duração: um exemplo flagrante foi Beatriz Segall, que entrou para a história como a vilã Odete Roitman da novela “Vale Tudo” (Globo, 1988).

Ao mesmo tempo, consolidava-se na Globo o conceito de ator “estratégico”: aquele que tem “a cara” da emissora. Que não pode, em hipótese alguma, trabalhar para a concorrência, mesmo quando não estiver no ar em nenhuma novela da casa. A emissora prefere pagar para ele ficar em casa, descansando a imagem. Foi o que aconteceu com Adriana Esteves, que passou mais de dois anos sem aparecer na TV depois da Carminha de “Avenida Brasil” (2012).

Adriana continua sendo vista como “estratégica” pela Globo, assim como alguns outros: Glória Pires, Antonio Fagundes, Grazi Massafera... Só que a lista já foi bem maior. A tendência atual é a de que, à medida em que forem vencendo os contratos de longa duração, muito poucos serão renovados.

A queda nas receitas publicitárias é uma das causas, mas não é a única. Também conta a relativa fraqueza da concorrência. A Record, que há uma década tentou atrair estrelas globais com altos salários e contratos de até cinco anos, também aderiu ao modelo da obra certa, muito mais em conta, assim como o SBT. A Globo não precisa mais gastar fortunas para evitar que alguém mude de time.

Por fim, há o mercado de streaming, que estava em franca ebulição antes da pandemia. Muitos atores que passaram pela Globo têm encontrado bastante trabalho em produções para a Netflix ou a Amazon Prime Video. Alguns até preferem não ter contrato fixo com a emissora, como Maria Casadevall ou Rodrigo Santoro, justamente para poder atuar em projetos de diferentes veículos.

Para usar uma expressão da moda, este é o novo normal, e não há nada de muito grave nele. Claro que é chato para tantos famosos perderem salário, plano de saúde e tantos outros benefícios (a Globo costuma ser generosa com seus funcionários). Mas só quem entrou com processos trabalhistas é que deve ter as portas fechadas. Outros, como Luís Fernando Guimarães ou Isabella Garcia, já voltaram a trabalhar na casa, sempre por obra certa.

Nos próximos meses, outros grandes nomes ainda deixarão a Globo. Claro que há particularidades em cada caso (Falabella, por exemplo, andava insatisfeito com a emissora), mas o contexto geral é o mesmo: hoje é um novo dia, de um novo tempo que começou.

Tony Goes

Tony Goes tem 60 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.com.br

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