Tony Goes

'Apocalipse' estreia com efeitos espetaculares e diálogos terríveis

Jonathan (Gil Hernandez), Elisa (Deborah Khalume) e o filho Uri (Fhelipe Gomes) são surpreendidos por uma onda gigante
Jonathan (Gil Hernandez), Elisa (Deborah Khalume) e o filho Uri (Fhelipe Gomes) são surpreendidos por uma onda gigante - Munir Chatack-21.nov.2017/Record TV


A Record descobriu um filão, e vem explorando-o há anos: as novelas bíblicas, que não só costumam ir bem de audiência como dão personalidade à emissora. Mas também são reprisadas à exaustão. E até mesmo o copioso Antigo Testamento, onde se basearam quase todas as atrações do gênero até o momento, um dia chega ao fim.

Sabendo disso, a Record deu um passo adiante. "Apocalipse" é o primeiro folhetim bíblico contemporâneo. Em vez de se passar na antiguidade remota, a trama de Vivian Oliveira se desenrola nos dias de hoje --ou melhor, de 1987 para cá.

A espinha dorsal da novela é inspirada na interpretação que algumas vertentes evangélicas fazem do Apocalipse, o último livro do Novo Testamento. É o chamado "arrebatamento", que prevê que, no final dos tempos, os justos ascenderão aos céus, sendo poupados dos cataclismas que destruirão o mundo.

O tema já suscitou dezenas de livros e filmes nos Estados Unidos, e tem tudo para gerar uma novela instigante e original. Pelo menos na parte técnica, a Record ficou à altura da premissa.

Os primeiros minutos da estreia de "Apocalipse", nesta terça (21), mostraram um tsunami devastando um resort na Indonésia. Não importa que as cenas tenham sido quase decalcadas do filme "O Impossível" (2012): os efeitos especiais estavam mesmo espetaculares.

Ainda melhor foi uma sequência de perseguição policial exibida no final do capítulo, com carros se chocando dentro de um túnel. Ótima decupagem e edição de tirar o fôlego. De certa forma, isto já era esperado: a Record (e a Casablanca, produtora responsável pela dramaturgia da casa) vem se notabilizando pelas proezas tecnológicas que costuma salpicar em suas novelas, como a abertura do mar Vermelho em "Os Dez Mandamentos".

Moisés (Guilherme Winter) encara as águas do mar Vermelho
Moisés (Guilherme Winter) encara as águas do mar Vermelho - Divulgação

O que também é esperado, infelizmente, é a pobreza dos diálogos e das interpretações. "Apocalipse" não escapou a esta sina. Falas pouco coloquiais, escritas com mão pesada, ficaram ainda piores na boca de atores inexperientes ou mal dirigidos.

"Tudo indica que foi um crime premeditado", diz o investigador Luís (Marcelo Argenta) a respeito de um assassinato tenebroso: um homem que teve o cérebro perfurado por um objeto cortante, e depois foi sentado a uma mesa junto com manequins ensanguentados. Elementar, meu caro Watson.

Suspeito que o nível descerá ainda mais quando começar a pregação religiosa, com os personagens crentes tentando convencer aqueles que não têm fé. De qualquer forma, o primeiro capítulo de "Apocalipse" cumpriu bem a função de apresentar os núcleos da novela.

Em Nova York, a mocinha Débora (Manuela do Monte) se deixa seduzir pelo sinistro Adriano (Felipe Cunha) --os dois serão os pais do Anticristo, papel que caberá a Sérgio Marone na segunda fase da trama. Enquanto isto, no Rio de Janeiro, a polícia está no encalço de um "serial killer".

Um dado curioso: contei exatamente dois figurantes negros, passando rapidamente no fundo da cena. Não há personagens negros com falas nem nos ambientes onde seria esperado encontrá-los, como uma delegacia no Rio ou uma universidade nos EUA.

Será que os afrodescendentes estão protegidos pelos orixás de suas religiões ancestrais? No "Apocalipse" da Record, o fim do mundo só vem para os brancos.



Tony Goes

Tony Goes tem 56 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.blogspot.com

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