Tony Goes

Apesar de bem feita, 'Cidade Proibida' tem cara de série antiga

Vladimir Brichta, que vive o detetive Zózimo na série "Cidade Proibida", da Globo


Não é que "Cidade Proibida" seja ruim. Ao contrário, é um bom programa. Talvez um dos melhores de 1997, o ano em que parece ter sido produzido.

Esta sensação se acirra quando a série é comparada a outras que a Globo exibiu em 2017, como "Sob Pressão" ou "Vade Retro". Nos exemplos citados, tudo é moderno: texto, direção, atuações, a parte técnica, tudo.

Cidade Proibida é ambientada na década de 1950, mas isto não é desculpa. "Filhos da Pátria", que lhe sucede na grade, se passa num tempo ainda mais remoto, o ano de 1822. Mas exala contemporaneidade, e dialoga de frente com o Brasil atual.

Já o seriado policial dirigida por Maurício Faria, com redação final de Mauro Wilson, parece preso numa bolha. Até aí, tudo bem: nem toda a teledramaturgia precisa fazer referência direta aos problemas de hoje. O escapismo é sempre bem-vindo.

Adaptada da história em quadrinhos "O Corno que Sabia Demais", de Wander Antunes, "Cidade Proibida" narra as aventuras do detetive particular Zózimo Barbosa (Vladimir Brichta), especializado em casos de adultério.

A ação se desenrola no Rio de Janeiro, talvez a cidade menos noir do mundo. Aí também, nenhum problema: Chinatown, um dos clássicos do gênero, se passa na ensolarada Los Angeles.

Mas o curioso é que o Rio só aparece nas paisagens naturais e nas locações no centro histórico, muito bem escolhidas. A cultura fervilhante da então capital federal está curiosamente ausente. Nos episódios que eu vi, quase não há menções ao futebol, à música popular ou a figuras da época. Quando os personagens vão ao cinema, é para ver "Mogambo", com Clark Gable.

Isto dá um sabor absolutamente genérico a "Cidade Proibida": suas histórias poderiam se passar em qualquer metrópole do Ocidente. Se havia a pretensão de se emular o clima das peças de Nélson Rodrigues, um dos pilares da carioquice, ela se esvai como a fumaça que Zózimo insiste em acender dentro de uma igreja (um gesto compreensível apenas para alguém recém-chegado de Marte).

Cada episódio traz uma mulher fatal interpretada por alguma estrela da casa: Giovanna Antonelli, Mariana Lima, Cláudia Abreu... Zózimo invariavelmente se apaixona por elas, mas acaba sempre nos braços da prostituta Marli (Regiane Alves, que costuma ser subaproveitada mas aqui encontrou um papel sob medida). Essa repetição já está cansando, e ainda faltam nove capítulos.

Com lindos cenários e figurinos, fotografia esmerada, elenco experiente e o padrão Globo de acabamento, "Cidade Proibida" não é desagradável de se ver. Mas, apesar da violência explícita, não passa de um entretenimento ligeiro, para ser esquecido rapidamente. Será.

Tony Goes

Tony Goes tem 56 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.blogspot.com

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