Renato Kramer

'Não sou escrava do sucesso', afirma a escritora gaúcha Martha Medeiros

"Calhou de eu ser escritora, deu sorte. As pessoas gostam do que eu escrevo, amém!", declarou a escritora e colunista Martha Medeiros no "Marília Gabriela Entrevista" (GNT) deste domingo (2).

"Quem escreve se protege e se expõe ao mesmo tempo. Eu realmente me exponho quando escrevo, mas tem uma parte de mim que ainda fica protegida e aí ela sai muito sutilmente —e eu sei que ela está saindo, o leitor não sabe. O leitor sabe o que eu permito que ele saiba. Escrever é uma mágica!", disse Martha, que já publicou 23 livros.

"Esse temor à exposição é fruto de timidez?", perguntou Gabi. "Eu não me considero muito tímida, não. Também não sou muito exuberante. É que a gente sabe que vive numa sociedade que é meio cruel, não é?", responde Martha, que começou a escrever aos 16 anos.

"Quando a gente escreve ficção a gente está mais protegido, já a coluna é diferente: ali é o teu nome, é um achismo, é opinião, ali tu estás te colocando completamente", acrescentou a gaúcha. "Por isso que eu sou fanática pela ficção. Eu adoraria ser uma escritora de ficção, ser reconhecida pela ficção, coisa que eu não sou porque eu não tenho a técnica."

"Você mesma já disse que mesmo na ficção você está lá", observou a entrevistadora. "É, mas eu enlouqueço mais! Eu estou totalmente lá, mas aí não é a Martha versão oficial, é a Martha versão paralela, mais selvagem, é uma catarse, uma loucura! Ali eu posso realmente chutar o balde e ninguém vai criticar porque ali tem um personagem por trás. É mais delicioso", declara.


Martha, que cursou publicidade, confessou que não pensava em ser escritora. "Aos 16 anos, eu simplesmente colocava ali no papel alguns versos, era totalmente uma fonte de expressão minha, particular. Depois eu fiz faculdade de propaganda, aí comecei a ser redatora publicitária, que era uma maneira que eu achei de estar próxima da arte, ao mesmo tempo me sustentando, porque eu não acreditava que poderia viver de literatura. Eu nem imaginava que isso ia acontecer."

E acrescenta: "Tudo foi obra do acaso. Fui morar fora do país para acompanhar meu marido, eu era casada, já com 13 anos como publicitária e, quando eu volto, me convidam para escrever uma coluna no jornal 'Zero Hora'. No início não era nem uma coluna, era um texto solitário. Daí os leitores gostaram, pediram mais um, mais um... então, eu fui na onda. Nunca pensei na minha vida: eu quero ser colunista de jornal", afirma a autora de "Divã".

"Quando eu era menina eu queria ser secretária executiva, olha como eu não era muito ambiciosa!", comenta a escritora. "Com a minha primeira máquina de escrever, eu sonhava que eu era secretária assim da Rede Globo e hoje eu brinco que realizei esse sonho, porque eu passo 80% do meu tempo sendo secretária de mim mesmo. Então ser escritora é um personagem que eu criei para realizar o sonho de ser secretária", afirma Martha, bem humorada.

"Você é hoje uma das escritoras mais bem sucedidas desse país. Você continua sem agente, sem secretária?", questiona Gabi. "Nada", responde de pronto a escritora. "Então além de tudo você é maluca?", solta a apresentadora. "Um pouquinho. Mas eu aprendi uma coisa maravilhosa: aprendi a dizer não. Eu não sou escrava desse sucesso. Eu digo muito não. Pra maioria dos convites eu digo não."

"Convites para?", quis saber Gabi. "Palestras, principalmente. Nem é bem palestra, porque eu não dou palestra, eu faço um talk show, um bate-papo ao vivo, uma entrevista, como a gente tá fazendo aqui agora. Depois a plateia faz perguntas, eu respondo, isso eu faço. mas estou fazendo pouquíssimas. Eu já não tenho muita paciência para estar sempre viajando, sempre em aeroporto", conta.

"Eu preciso ficar à toa, principalmente para o meu trabalho. Se eu ficar nessa roda viva eu perco a matéria-prima, que é a introspecção, que é observar a vida. Eu preciso me atirar no sofá ouvindo música, ler, sair com as amigas, não fico refém desses convites. Eu poderia estar milionária se eu aceitasse tudo, mas não tem como", garante Martha, para quem falar de dinheiro é a coisa mais constrangedora do mundo.

Martha Medeiros, cujo livro "Feliz Por Nada" já alcançou a sua 53ª edição, comemora os seus 30 anos de carreira, 20 como colunista. Autora da recente trilogia: "Liberdade Crônica", "Felicidade Crônica" e "Paixão Crônica" (L&PM Editores), a escritora confessou que "o lugar mais fácil de me encontrarem é no supermercado, não numa livraria!".

Renato Kramer

Natural de Porto Alegre, Renato Kramer formou-se em Estudos Sociais pela PUC/RS. Começou a fazer teatro ainda no sul. Em São Paulo, formou-se como ator na Escola de Arte Dramática (USP). Escreveu, dirigiu e atuou em diversos espetáculos teatrais. Já assinou a coluna "Antena", na "Contigo!", e fez críticas teatrais para o "Jornal da Tarde" e para a rádio Eldorado AM. Na Folha, colaborou com a "Ilustrada" antes de se tornar colunista do site "F5"

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