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Descrição de chapéu The New York Times

Atriz de 'Lovecraft Country' diz sentir como traição virar uma mulher branca na série

Wunmi Mosaku interpreta Ruby Baptiste, que é meia-irmã de Leti

Wunmi Mosaku, a Ruby de 'Lovecraft Country'

Wunmi Mosaku, a Ruby de 'Lovecraft Country' Tracy Nguyen/The New York Times

Kathryn Shattuck

Para Wunmi Mosaku, uma atriz que sente aversão ao sangrento, atuar em “Lovecraft Country” (HBO) pode parecer uma escolha curiosa de trabalho. Mas ela já tinha lido a maior parte do roteiro do episódio piloto quando os monstruosos "shoggoths" começam a arrancar pedaços de suas vítimas, e àquela altura já estava fascinada.

“Eu me perdi na história a tal ponto que a sensação era a de que eu já tinha assumido aquela personagem antes de perceber que a história era de terror”, disse Mosaku sobre o thriller sobrenatural da HBO que se passa na década de 1950, quando os Estados Unidos ainda viviam em segregação racial. “Mas o que eu acho muito inteligente, e também muito mágico, místico e selvagem, no roteiro e no livro, é que a coisa mais assustadora é a realidade do terror”.

Mosaku interpreta Ruby Baptiste, uma cantora de blues que é meia-irmã da valente Leti (Jurnee Smollett) e cujos sonhos de trabalhar como vendedora na loja de departamentos Marshall Field’s até agora não haviam se realizado. Bem, pelo menos até o quinto episódio da série.

Com a ajuda de uma poção mágica, Ruby desperta no corpo de uma mulher branca, interpretada por Jamie Neumann. Assumindo o nome Hillary Davenport, Ruby passa o dia alternando momentos de desfrute e momentos de espanto por seu novo valor cultural, antes de se metamorfosear –gráfica e dolorosamente– de volta à negritude.

“Ver costelas e cotovelos saltando da pele de alguém é repulsivo, mas eu na verdade fiquei mais é encantada com a realização artística da coisa”, disse Mosaku. “Como exatamente eles fizeram aquilo?”

A atriz nascida na Nigéria fala com um ensolarado sotaque britânico sempre tingido de riso; ela emigrou para Manchester, Inglaterra, com seus pais, ambos professores universitários, quando tinha um ano de idade. Quando criança, obcecada por “Annie”, ela descobriu que o ator Albert Finney, outro morador de Manchester, havia estudado na Real Academia de Arte Dramática, e por isso ela decidiu se inscrever na escola, e foi aceita.

Presença frequente na TV britânica (“Vera”, “Luther”), ganhadora de um prêmio Bafta, Mosaku é mais conhecida nos Estados Unidos por papéis em filmes com “Animais Fantásticos e Onde Habitam” e “Philomena”. Ela também poderá ser vista em “His House”, um filme que está por estrear no qual ela e Sope Dirisu interpretam refugiados de guerra sudaneses que descobrem algo de terrível à espreita em sua nova casa no Reino Unido. O filme estreia dia 30 de outubro na Netflix.

Agora radicada em Los Angeles, Mosaku passou os últimos meses tentando impedir ataques de passarinhos à sua horta da quarentena, onde plantou pepinos e berinjelas. Em entrevista por telefone recente, ela falou de “Lovecraft Country”, de sua “desalentadora” relevância cultural, e de por que a vingança não é algo que deveria envolver saltos altíssimos. Abaixo, trechos editados da conversa.

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Em um dos episódios mais recentes, Ruby diz que quase todo dia é feliz por ser mulher e por ser negra, “mas o mundo sempre me interrompe, e estou cansada de ser interrompida”. Como seria Ruby sem interrupções?
Eu a descreveria como muito ambiciosa. Ela é bem ciente do jogo que precisa jogar. Mas ainda assim tem a ideia de que, se trabalhar com muita dedicação –e basta conseguir uma oportunidade—, o racismo sistêmico deixará de se aplicar a ela. Ela tem essa esperança profunda, mas na verdade está mascarando uma raiva ainda mais profunda e feroz pelas injustiças que sofreu.

A história se passa cerca de 60 anos atrás, mas existe alguma coisa na situação de Ruby que lhe parece familiar?
Oh, sim. Eu me pareço com Ruby, em um mundo que continua a experimentar racismo, injustiça, desigualdade, patriarcado e questões de cor. Eu passei por isso, e minha família com certeza passou por isso. A coisas que eu acho mais difícil na série é que ela ainda pareça tão relevante. Sou Ruby, de muitas maneiras. A perseguição de carros a 40 km/h e o policial que a segue foram um momento muito intenso, porque têm base na realidade, e isso ecoa em mim. Ecoa em muitas pessoas não brancas. É isso que eu acho tão incrivelmente poderoso na história, mas também verdadeiramente desanimador: ao que parece as coisas não mudaram o suficiente, e às vezes parece que não mudaram em coisa alguma.

Sua perspectiva mudou, entre a rodagem da série um ano atrás e agora, depois de um verão de protestos e de foco nacional renovado quanto à injustiça racial?
A diferença é que existe a pandemia, e muita gente não tem distrações. As pessoas estão prestando mais atenção e sentindo a questão de forma mais profunda, em lugar de vê-la como um problema que existe em outro lugar, ou um problema que um racista deve resolver, ou um problema apenas para as pessoas negras. Nós percebemos que é dever de todos, todos que desejam e requerem justiça e um pedido de desculpas. É uma questão comunitária. Se você deseja que o mundo seja melhor, então o mundo, coletivamente, precisa cuidar disso.

Como foi filmar aquelas cenas grotescas em que Ruby rasga o corpo de Hillary para sair dele?
A pior coisa foi a metamorfose. Jamie tem que fazer a parte física toda, mas para ela o trabalho é mais leve. Mas sair do casulo? O sangue, a gosma, a meleca? Tudo eu. Quando vi meu olho pular para fora de minha boca, eu comentei: Ohhhh”.

Em uma cena ainda mais sangrenta. Ruby retoma seu disfarce como branca a fim de violar seu chefe racista com o salto agulha de um sapato, como revanche por ele ter maltratado uma colega negra. Como você se prepara para algo assim?
Eu nem fazia ideia, até ler [o roteiro do episódio cinco], e foi um verdadeiro choque, porque eu não imaginava que as coisas fossem para esse lado. Esse tipo de violência não é OK, em qualquer aspecto de vingança. Vingança é algo que eu nunca explorei, na verdade, e pessoalmente, a recomendação da minha mãe sempre foi “melhor se vingar sendo gentil”. O que em geral significa sorrir e deixar passar, para que a pessoa se envergonhe de suas ações.

Nós duas, Jamie e eu, tivemos dificuldade com aquela cena. Foi um dia muito emotivo, para ser honesta, porque houve uma exploração da profundidade da raiva e da vingança da personagem. A dor parece muito real, e tão profunda que faz recordar muita coisa de sua própria vida, de sua própria raiva e de sua própria dor.

Ruby usa a poção mágica diversas vezes. Como você interpreta o fato de que ela escolhe se transformar repetidamente em uma mulher branca?
Aquilo passa a ser um superpoder a que ela agora tem acesso –agora ela tem uma liberdade ilimitada. Há magia onde não existem consequências reais. Mas eu realmente discordo do que Ruby faz. Às vezes sinto um peso, porque é uma sensação de traição, parece muito errado. Parece ir contra amar a você mesmo, que obviamente o tipo de movimento em que estamos como sociedade: amar a si mesmo. É realmente difícil para mim compreender, pessoalmente. Não, compreender não é o termo. Eu consigo compreender. Não consigo é sentir empatia.

“Showrunners” negros de séries, como Misha Green, a criadora de “Lovecraft Country”, continuam a ser uma raridade. Tê-la nessa posição torna mais fácil explorar esse tipo de questão?
Oh, com certeza. Falar de racismo com pessoas brancas às vezes deixa as pessoas brancas muito desconfortáveis, as pessoas negras muito desconfortáveis. É preciso ter certa confiança e um espaço seguro para tentar falar como você se relaciona com a personagem, como você se diferencia da personagem, as coisas que você aprende. Eu sempre fui o tipo de pessoa discreta sobre minhas experiências. Não gosto de discutir, não gosto de confrontos, e acho difícil me engajar quanto a coisas como essas fora de minha casa. Porque isso expõe, é doloroso, é exaustivo ter de explicar a alguém que não sabe como as coisas são e que vive o completo oposto de sua experiência. Assim, há uma realidade que eu posso levar à mesa porque ela [Green] se parece comigo. O mundo a vê da mesma maneira que me vê.

Não me entenda mal. Sou uma negra britânica de origem nigeriana vivendo nos Estados Unidos e, sem meu sotaque, somos tratados da mesma maneira [que os negros americanos]. Mas quando falo, o tratamento das pessoas muda. Também estou ciente desse privilégio. Mas às vezes não há oportunidade de falar antes que alguém nos julgue ou nos trate de maneira injusta. Por isso tive de ser honesta e me abrir. Eu não acho que teria conseguido trabalhar com a mesma facilidade sem alguém que compartilhasse de uma experiência semelhante à minha como mulher negra.

The New York Times

Tradução de Paulo Migliacci

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