Televisão

Antonio Fagundes volta às novelas como doente terminal: 'Dou aula de condução na cadeira de rodas'

Na novela das sete da Globo, 'Bom Sucesso', Alberto tem seis meses de vida

O ator Antonio Fagundes em seu camarim no Teatro Tuca, em São Paulo Eduardo Anizelli-26.jan.2018/Folhapress

Leonardo Volpato
São Paulo

O ator Antonio Fagundes, 70, celebra neste ano 50 anos de carreira na TV. E a partir do próximo dia 29 o público poderá ver um ator com um desafio diferente de tudo o que já fez. Em “Bom Sucesso”, nova trama das 19h da Globo, ele interpretará Alberto, um dono de editora de livros que, por uma doença terminal, tem só seis meses de vida e vive a resmungar em uma cadeira de rodas.

De acordo com o artista, não foi difícil se adaptar à cadeira de rodas. Muito pelo contrário. “Para ficar sentado não precisa de preparação. [...] Está sendo ótimo porque ela é elétrica e eu adoro videogame, jogo às vezes. E eu agora dou aula no joystick, dou aula de condução de cadeira”, diverte-se.

Na narrativa, o exame de Alberto é trocado com o da costureira e passista de escola de samba Paloma (Grazi Massafera). A confusão logo se desfaz e ambos retornam à realidade.  Antes disso, contudo, Paloma faz de tudo um pouco: bebe e canta no ônibus, se demite de uma loja, quebra vidraça na rua e até transa com o primeiro homem que vê pela frente. Tudo por achar que iria morrer.

“Não cheguei a acompanhar casos reais de pessoas terminais, porque a morte faz parte da vida. Você não precisa se preparar para algo que tem de estar preparado a vida toda”, define Fagundes.

Apesar de a trama ter esse núcleo que aborda o tema da morte, Fagundes deixa bem claro que a novela tem muito humor. Afinal, as histórias das 19h sempre precisam ser leves. “A história vai mexer muito com as pessoas porque está sendo bem escrita, conta com um humor extraordinário, tem romance, ação, vai ser gostosa de ver e ainda tratando de assunto importante na vida de todos.”

Com 50 anos de novelas e muitos trabalhos expressivos na carreira, Fagundes conta que, hoje em dia, com 70 anos, o papel precisa cativá-lo. Ele estava ausente de novelas desde 2016, quando deu vida ao coronel Afrânio em “Velho Chico”.

“Procuro sempre gostar da história. Se eu gosto quero fazer o público gostar também, seja na TV, no teatro ou no cinema. Em tudo o que fiz eu me preocupei com o que os fãs achariam e isso passa pelo meu filtro. Se eu não curtir vai ser difícil o público gostar. O personagem em si é a última coisa que analiso”, explica.

E foi justamente por esses fatores que o ranzinza Alberto cativou o ator. Na história escrita em dupla pelos autores Rosane Svartman e Paulo Halm, o editor de livros acaba conhecendo Paloma, a personagem de Grazi. Isso porque ela parte em busca de conhecer quem é a pessoa que, assim como ela, mesmo que por apenas uma semana, sofre da doença e tem pouco tempo de vida. Paloma acaba vivendo um triângulo amoroso com o atual noivo, Ramon (David Junior), e o filho de Alberto, Marcos (Romulo Estrela).

“Se eu tivesse só seis meses de vida eu acho que viveria intensamente meus dias como gosto de viver. Não mudaria nada”, opina Antonio Fagundes.

Paloma e Alberto viverão uma bonita amizade e ela conseguirá mudar um pouco o jeito pessimista do empresário. “Uma novela não é feita para levar a reflexões, é entretenimento e está divertida com tramas interessantes e mil confusões. O entretenimento está garantido. Agora lá embaixo pode surgir uma reflexãozinha à qual se alguém quiser se apegar já é lucro”, comenta.

O ator explica mais sobre como a personalidade do rabugento editor vai mudar ao longo dos capítulos. “O Alberto vai acabar se abrindo para o resto do mundo. Quando você se mostra aberto tudo é importante. As pessoas têm sempre algo a te dar. O outro existe sempre de forma positiva, é na contramão do que vivemos agora. Vivemos época em que todos se fecham e pensam em não ouvir opiniões contrárias. Isso é a morte em vida”, reflete.

Não bastasse os problemas que Alberto terá de enfrentar, ainda haverá um homem disposto a acabar com o império que ele construiu. Diogo (Armando Babaioff), um advogado interesseiro que só pensa em dinheiro fará de tudo para vender a editora ou provocar sua falência.


PARCEIROS O CONSIDERAM MESTRE

Amigos de cena, atores e autores da trama “Bom Sucesso” consideram uma honra poder trabalhar com Antonio Fagundes. Autora da trama junto com Paulo Halm, Rosane Svartman diz que se sente desafiada em trabalhar com ele.

“É um privilégio, pois o admiro tanto. Escrever para ele é muito bom. Mais especial ainda é escrever para alguém que vai viver um editor de livros e que na vida real também é um amante da literatura”, define Svartman, que nunca havia trabalhado com Fagundes. “O Pepê [Paulo Halm] já havia escrito para ele em outra ocasião, mas é a minha estreia. É uma honra. Quando eu soube que teria o Fagundes como Alberto achei uma maravilha”, completa.

De acordo com ela, algumas reuniões com o artista foram na biblioteca particular de Fagundes, o que tornou tudo muito especial por conta da narrativa da novela tocar nesse universo literário. Quem também não poupou elogios foi Lúcio Mauro Filho. Em “Bom Sucesso”, ele é Mario, um poeta boêmio que trabalha na editora e que não perde a chance de se declarar a uma colega de trabalho.

“Fagundes é um mestre”, comenta, antes de lembrar que ele fez parte de um dos momentos mais especiais de sua carreira. “Minha primeira novela foi com ele, uma das 19h: ‘A Viagem’. Ou seja: 25 anos depois eu me vejo novamente no núcleo de Fagundes em uma história desse horário. Então, de fato, é um presente. Estou bem cercado”, conclui.

50 anos de TV

Confira alguns papéis marcantes

  1. “Nenhum Homem É Deus” (1969)

    A novela da TV Tupi foi a primeira em que Fagundes atuou com um personagem fixo. Ele deu vida ao personagem Netinho. No mesmo elenco havia nomes como Lílian Lemmertz (1937-1986) e Walmor Chagas (1930-2013)

  2. “Saramandaia” (1976)

    Sua primeira novela na Globo. Viveu Lua, um homem bem-humorado, figura popular na cidade onde era prefeito. Procurava se manter independente politicamente, embora fosse noivo de Zélia (Yoná Magalhães), filha de um coronel

  3. “A Viagem” (1994)

    Otávio Jordão era um advogado criminalista viúvo e pai de dois filhos. Um homem justo que se apaixonava pela mocinha da trama, Diná (Christiane Torloni)

  4. “O Rei do Gado”

    Um dos papéis mais marcantes de Fagundes. Antônio Mezenga perdeu o pai numa travessia de navio. Conquistou sua lavoura de café com muito sacrifício. Vivia em pé de guerra com outro dono de lavoura: Giuseppe Berdinazi (Tarcísio Meira)

  5. “Terra Nostra” (1999)

    Gumercindo era dono de uma fazenda que foi descobrindo aos poucos as qualidades dos imigrantes italianos que começavam a trabalhar com ele após a escravidão

  6. “Amor à Vida” (2013)

    O personagem de Fagundes era César, marido de Pilar (Susana Vieira) e pai de Paloma (Paolla Oliveira) e Félix (Mateus Solano). Era diretor de hospital. Acabava mudando sua personalidade ao se apaixonar por sua secretária (Vanessa Giácomo)

  7. “Velho Chico” (2016)

    Foi a última novela dele. Afrânio era coronel e herdava os negócios e as desavenças do pai falecido. Proibia o romance da filha, que se apaixonava por um rapaz da família rival

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