Televisão

'Sétimo Guardião' acaba com menos realismo fantástico e ascensão de personagens secundários

Trama deve revelar só no final quem é serial killer de guardiões

Judith (Isabela Garcia), personagem da novela O Sétimo Guardião, da TV Globo, em frente a uma janela
Judith (Isabela Garcia), personagem da novela "O Sétimo Guardião", da TV Globo - Victor Pollak/TV Globo
Fernanda Pereira Neves
São Paulo

​A novela "O Sétimo Guardião" estreou em novembro do ano passado na Globo mostrando a história de sete pessoas que se dividiam na missão de proteger uma fonte de água misteriosa na cidade fictícia de Serro Azul. Seis meses depois, a trama chega ao fim, com todos os membros da irmandade original mortos e a tal fonte, seca. 

O desfecho, que sugere uma mudança de rumo no folhetim, acontece nesta sexta-feira (17), após uma série de percalços que acompanharam o folhetim desde o seu início. Além de problemas nos bastidores como supostas traições envolvendo atores da trama, especialistas apontam falhas que vão desde a disputa por direitos autorais até o descompasso entre a direção e o autor Aguinaldo Silva. 

A expectativa é para um final pouco usual, com a possível morte do protagonista Gabriel (Bruno Gagliasso) e um fim solitário para a mocinha Luz (Marina Ruy Barbosa). A dúvida está em torno dos vilões, Olavo (Tony Ramos) e Valentina (Lilia Cabral), e na revelação do serial killer de guardiões –confirmado como Judith (Isabela Garcia) no capítulo desta quinta (16).   

Os contratempos da trama começaram antes mesmo da estreia, quando alunos de um curso de roteiro ministrado pelo autor reivindicaram participação na história. O problema virou ação judicial e terminou com a Globo incluindo nos créditos do folhetim o nome dos 27 alunos que participaram do curso.

Doutor em ciências da comunicação pela USP (Universidade de São Paulo), Claudino Mayer avalia que a coautoria foi um dos grandes problemas da trama, que acabou se distanciando do estilo já conhecido e elogiado de Aguinaldo Silva. Para ele, o realismo fantástico e o mistério mostrados foram a um patamar novo e estranho para o telespectador. 

"O grande mal de Aguinaldo Silva foi ter ouvido os alunos. Eles trouxeram inspirações cinematográficas, mas cinema é cinema, aqui a gente faz TV e para um público conservador. Tinha a Luz (Marina Ruy Barbosa) tendo visões, o que o público não gostou, e uma fonte cujo objetivo ninguém sabia, era satânica? Era curativa?”, questiona. 

Além disso, ele aponta alguns problemas de descompasso entre a direção e a história proposta pelo autor. Para Mayer, o diretor Rogério Gomes optou por um estilo que também pode ter colaborado para o distanciamento da novela de seu público, como um ritmo mais lento, cenas longas, personagens que pouco têm a ver com o dia a dia. 

“Na apresentação da novela, por exemplo, a gente ouviu ‘Entre a Serpente e a Espada’, com Zé Ramalho cantando, que remetia a ‘Pedra Sobre Pedra’ [Globo, 1992], tinha uma identidade, mas depois ela [a música] sumiu da novela. Perderam a oportunidade de colocar uma trilha que aproximaria a trama do telespectador, que lembra aquele sucesso."   

O teledramaturgo Mauro Alencar também vê "O Sétimo Guardião” distante de sucessos de Aguinaldo Silva que chegaram a servir de referência na trama atual, como “A Indomada” (Globo, 1997) e “Fera Ferida” (Globo, 1993-1994). Da primeira, vieram os personagens Ypiranga Pitiguary (Paulo Betty) e Scarlet Mackenzie (Luisa Tomé) e da segunda, citações da cidade de Tubiacanga.

“Mas esse distanciamento, de certo modo, foi bom, pois gerou notícias, reações acaloradas da imprensa e do público”, avalia ele. “Isso é o verdadeiro exemplo do processo artístico na indústria cultural. De tempos em tempos, a nossa dramaturgia produz estranhamentos que são importantes para a humanidade e sociologia da arte", afirma.

Nesse contexto, Mayer aponta a personagem de Marina Ruy Barbosa como uma das poucas que conseguiu manter uma proximidade maior com o mundo real, mas conclui que, no fim, “O Sétimo Guardião” não foi uma trama de protagonistas, mas sim de coadjuvantes, que foram ganhando espaço no decorrer da história. 

“Ela foi uma garota marcante. Jovem, perseverante, plugada com esse mundo real. Mas a novela se sustentou com os personagens coadjuvantes”, afirma Mayer citando as personagens Afrodite (Carolina Dieckmann), Mirtes (Elizabeth Savalla), Letícia Spiller (Marilda) e Isabela Garcia (Judith). 

Para os especialistas, Judith (Isabela Garcia) tinha sim todos os elementos comuns a esse tipo de personagem, como a presença desde o início da trama, a identificação do público e um perfil forte. Já Laura (​​Yanna Lavigne), que também tinha ganhado votos como possível serial killer, já era descartada. “Seria uma falta de originalidade”, diz Mayer.

Ainda nesse processo de mudança, estão a redenção da vilã Valentina (Lilia Cabral) e o crescimento do até então apagado Olavo (Tony Ramos). Mayer destaca, no entanto, que redenções não são comuns, o que pode deixar uma brecha para uma possível reviravolta no fim. "Em novela, vilão que é vilão é vilão do início até o fim”, arrisca ele. 

A criação do famoso mistério “quem matou?” também é apontada como um artifício para segurar o telespectador. Para o doutor em comunicação pela Metodista, Dirceu Lemos, um clichê, mas que deve garantir mistério até o final, com a revelação do assassino de guardiões apenas no último capítulo. Por enquanto, algumas apostas se destacam. 

Para os especialistas, Judith (Isabela Garcia) tem sim todos os elementos comuns a esse tipo de personagem, como a presença desde o início da trama, a identificação do público e um perfil forte. Já Laura (Yanna Lavigne), que também tem ganhado votos como possível serial killer, é descartada. “Seria uma falta de originalidade”, diz Mayer. 

Até agora, sabemos que “O Sétimo Guardião” não alcançou a audiência das novelas antecessoras. A trama de Aguinaldo Silva atingiu 28,7 pontos de média (até o capítulo 147 --cada ponto da Kantar Ibope equivale a 73 mil domicílios na Grande SP), menos que “Segundo Sol” (33,3 pontos) e “O Outro Lado do Paraíso” (37,8 pontos). 

UM ELEFANTE BRANCO

Escondida e misteriosa, a fonte de água milagrosa foi apresentada no início de “O Sétimo Guardião” como uma personagem promissora. Mas, assim como pode acontecer com alguns atores de carne e osso, ela perdeu espaço, relevância, até secar, literalmente, na trama de Aguinaldo Silva. 

“Ela virou um elefante branco no meio de toda a trama. Faltou mostrar os reais motivos dessa fonte. Ela é benéfica? Poderia ajudar pessoas? Então por que os guardiões? Ou ela é parte demoníaca? A gente viu que ela é capaz de curar, mas também de deixar impotente”, afirma o doutor em ciência da comunicação Claudino Mayer. 

Embora aponte a fonte como uma metáfora, Mayer afirma que faltaram respostas e as relações com a realidade ficaram mais fáceis apenas depois que a cidade de Serro Azul foi afetada pela falta d’água e a fonte se tornou a única opção de abastecimento, levando inclusive a uma invasão dos moradores ao casarão sobre a fonte. 

A essa altura, no entanto, a trama já caminhava para a redução do núcleo dos guardiões e a fonte secou, com o mesmo mistério que sempre cercou sua existência, e deu lugar a um possível sítio arqueológico. Especialistas, no entanto, acreditam que algumas respostas ainda virão, mas com poucas chances de dar vida de novo à fonte. 

SURUBÃO DE NORONHA

Em meio aos problemas de roteiro e audiência que cercaram “O Sétimo Guardião” desde o início, foram boatos envolvendo atores da trama que mais chamaram a atenção do público. Mas, apesar do embaraço e possível constrangimento nos bastidores, eles pouco afetaram o desenrolar da novela, avaliam especialistas em TV. 

As fofocas surgiram após o anúncio de separação de José Loreto, 34, que interpreta Júnior, da também atriz Débora Nascimento, 33, atualmente em “Verão 90”. A colega de elenco do ator Marina Ruy Barbosa, 23, logo foi apontada como possível pivô da crise conjugal, após amigas de Nascimento deixarem de segui-la nas redes sociais. 

A partir daí surgiram ainda especulações de internautas sobre um “surubão de Noronha”, em referência às festas de Bruno Gagliasso e Giovanna Ewbank na pousada do casal em Fernando de Noronha— e um “dark room”, um quarto escuro nos estúdios da Globo onde todo o tipo de aventura sexual poderia acontecer.

Gagliasso, Loreto e Caio Blat, que interpreta Geandro na trama, chegaram a responder às especulações, em tom de chacota com um post em redes sociais. Mas, apesar do embaraço e das possíveis risadas que a história pode ter provocado, elas pouco afetaram o desenrolar da novela, avaliam especialistas em TV. 

Para o doutor em ciência da comunicação Mauro Alencar, a história mostra vários exemplos, seja na literatura, no teatro, no cinema ou até na radionovela, esse tipo de questão costuma ser “fomentador da riqueza que é a vida real e o mundo do faz de conta”. “É o que alimenta o mercado cultural massivo de nossa indústria”, completa. 

Final do conteúdo

Comentários

Ver todos os comentários Comentar esta reportagem

Últimas Notícias