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Minissérie de suspense com Antônio Fagundes discute racismo e submissão de mulheres

Romance policial estreia nesta segunda-feira (15) na Globo

Ubiratan (Antônio Fagundes) em cena de

Ubiratan (Antônio Fagundes) em cena de "Se Eu Fechar os Olhos Agora" Mauricio Fidalgo/Globo

Beatriz Vilanova
São Paulo

Em uma tarde dos anos 1960, num mundo onde o homem realizava a primeira viagem espacial, dois garotos fogem da escola para nadar no lago. Paulo (João Gabriel D’Aleluia) e Eduardo (Xande Valois) se refrescam do calor da pacata cidade de São Miguel, no interior do Rio de Janeiro, quando se deparam com uma mulher ensanguentada, morta e sem um dos seios.

Assim se inicia a história de “Se Eu Fechar os Olhos Agora”, minissérie de dez episódios da Globo que já faz parte do catálogo do Now (Net), mas estreia nesta segunda-feira (15) no canal aberto e na Globoplay.

Edney Silvestre foi quem escreveu a narrativa, há dez anos, em formato de livro que chegou a vencer o Prêmio Jabuti. Contada através das lembranças de Paulo, já adulto, a trama gira em torno do assassinato da mulher, conhecida por Anita (Thainá Duarte), e dos mistérios criados e desvendados com a investigação de sua morte.

Thainá Duarte descreve Anita como uma mulher exuberante, que chama a atenção de homens e mulheres. “Isso acaba se virando contra ela. Mesmo sendo bonita e admirada, ela carrega um passado muito obscuro, de muito sofrimento e injustiças”. A personagem morre logo no primeiro capítulo, e descobrimos mais sobre ela em função dos outros personagens.

“Começa mais inocente e aos poucos, a minissérie vai se tornando mais densa”, explica Silvestre. “Dentro do arco policial, o que importa são as pequenas vidas daqueles personagens, os segredos que eles escondem, a fachada, as máscaras e a natureza que eles reprimem para viver em sociedade. A morte da Anita explora o que estava guardado.”

Paulo e Eduardo começam a conduzir uma das investigações do assassinato por conta própria. “Há uma beleza na amizade desses dois meninos que, ouso dizer, tem a palpitação que nós no Brasil precisamos hoje”, diz o autor da adaptação, Ricardo Linhares. “Eles representam essa boa alma do Brasil. Tem uma sede de justiça e transformação do mundo.”

Os garotos acabam recebendo uma ajuda inesperada: o misterioso e introspectivo Ubiratan (Antônio Fagundes) os encontra por acaso e aceita ajudar na investigação, enquanto esconde de todos a verdadeira razão por viver em São Miguel.

Fagundes, por coincidência, já era o responsável pelo audiobook da obra de Edney Silvestre, antes do convite para atuar na minissérie. “Eu já tinha uma certa intimidade com o livro quando me chamaram e adorei. É um personagem que, quando eu li, vi que daria para fazer. Um bruxinho velho, sempre dá para fazer”, diz.

Da investigação do trio, diversos outros assuntos (e crimes) se desdobram nessa trama de suspense que atinge três mundos: político, civil e religioso. É abordada a submissão das mulheres, o racismo e até mesmo casos extraconjugais, como no núcleo do moderno casal Geraldo Bastos (Gabriel Braga Nunes) e Adalgisa (Mariana Ximenes).

“É uma relação que fica nessa balança entre os caras super ‘bom vivants’, mas que não conseguem ser completamente felizes por questões pessoais”, explica Braga Nunes sobre o seu personagem.

Adalgisa, uma mulher à frente de sua época, que veste calças e cores fortes, teve que optar ainda jovem entre a carreira e o casamento, que lhe traria status social. Provocadora e provocativa, mas cheia de um humor ácido, ela ingere bebidas alcoólicas desenfreadamente para lidar com essa realidade.

“Ela tem uma profundidade grande, mistérios e uma tristeza absurda”, conta a intérprete, Mariana Ximenes. “Eu fico muito contente que ela tenha outro romance, misterioso. É onde ela se sente feliz e realizada, onde se sente mulher. [...]  Apesar de toda a convenção que existia na época, ela é uma mulher que ousa, que faz o que ela quer da vida.”

“Os dois são infelizes, carregam segredos e tem refúgios para afundar a solidão e a tristeza. Ela bebe e fuma, e ele tem uma relação complicada com drogas”, conclui Ximenes sobre o núcleo.

Os enigmas e personagens dúbios, que inicialmente não se revelam, são pintados por uma paleta de cores escuras, resultado da direção artística de Carlos Manga Jr. “Optamos por conduzir a narrativa de uma maneira em que as coisas não são mostradas, são sugeridas. [...] É preciso prestar atenção para entender”, diz Manga.

Ao adaptar a obra, Ricardo Linhares também incluiu novas cenas na história e deu voz a personagens com menos enfoque na trama original, como a de Débora Falabella.

A atriz integra o elenco como Isabel, a esposa do prefeito Adriano Marques Torres (Murilo Benicio), que só almeja poder. Ela procura cumprir o papel da “esposa ideal”, cuidando da casa e das filhas Cecília (Marcella Fetter) e Vera Lúcia (Júlia Svascinna).

“É um casal regido pela aparência. Eles se gostam porque já vivem juntos, [...] aprenderam a viver naquela sociedade. Mas você vê logo no primeiro capítulo que é aquele casal que dorme junto quase que por conveniência”, conta Falabella. “Isabel é uma mulher que tem seus desejos e se vê sufocada na casa”.

Betty Farias também faz uma pequena participação especial na minissérie, na qual aparece de lingerie e com o cabelo platinado. “Levei um susto, estranhei. Depois gostei. Tudo pelo personagem”, brincou a atriz em entrevista. “Eu não podia colocar uma peruca. Viraria Zorra Total, uma participação especial ridícula.”

MINISSÉRIE ATUAL

Se a submissão da mulher acaba sendo abordada em núcleos como os das personagens de Débora Falabella e Mariana Ximenes, o racismo é percebido através do menino Paulo.  

Ele cresce ao lado do amigo Eduardo, filho de um casal de classe média que luta para dar o melhor ao menino; enquanto Paulo não recebe amor de seu pai, o açougueiro Joel (Paulo Rocha), que usa inclusive agressões físicas e expressões preconceituosas em relação ao fato do garoto ser negro. Ao longo da trama, ele vai descobrindo as suas origens.

“É uma história que poderia se passar em qualquer lugar, de uma sociedade que está parada no tempo”, afirma Falabella. “Tem muitas coisas que continuam sendo do mesmo jeito. [....] E muitas coisas que as pessoas vão se identificar e fazer uma relação com os dias de hoje.”

“Todos os personagens na verdade se revelam e esse é que é o grande barato: Mostrar uma sociedade que diz que é uma coisa, se coloca de uma forma super conservadora, mas que todos ali tem teto de vidro, tem algo ali de obscuro, secreto ou transgressor”, conclui a atriz.

“Ninguém pode segurar a natureza humana por muito tempo por maior que seja a repressão do patriarcado branco, que era o que ditava as regras da sociedade naquela época”, diz Linhares. “São Miguel é um microcosmo do Brasil, das relações de poder e opressão. A discriminação, a intolerância com comportamentos que desafiam as regras e o racismo são questões atuais, cujas raízes estão no passado [...] Conflitos e costumes que não foram resolvidos hoje em dia, como intolerância, feminicídio e a luta das mulheres pela liberdade.”

Silvestre acredita que a obra ajude a explicar a composição étnica do país. “Meu conhecimento da história do Brasil e a necessidade de falar dela através da morte da Anita foi ‘o pulo’”, diz. Pela qualidade, a trama ganhou notoriedade: além dos prêmios, foi a primeira vez que o Now comprou um programa inédito de dramaturgia da Globo.

Gravada em cerca de cinco meses em Catas Altas (cidade no interior de Minas Gerais que parece cenográfica por si só), “Se Eu Fechar os Olhos Agora” estreia na segunda-feira (15) e vai ao ar às segundas, terças, quintas e sextas, logo após “O Sétimo Guardião”.

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