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Juliana Paes diz que estudou Michelle Obama e aprendeu a quebrar ovo com uma mão para novela

Trama de Walcyr Carrasco tem ares de 'Romeu e Julieta' moderno

Juliana Paes como Maria da Paz em "A Dona do Pedaço"
Juliana Paes como Maria da Paz em "A Dona do Pedaço" - Globo/João Miguel Júnior
 
Beatriz Vilanova
São Paulo

​​ mais de um ano fora do ar e lembrada especialmente pela personagem Bibi Perigosa, da novela “A Força do Querer”, Juliana Paes, 40, retorna como figura central de uma novela da faixa das nove na Globo.

Agora, ela é a protagonista Maria da Paz na trama escrita por Walcyr Carrasco, “A Dona do Pedaço”, que ocupará o lugar de “O Sétimo Guardião”. Ansiosa para saber qual será a receptividade da nova personagem pelo público, Paes diz que hoje sente ter mais maturidade para lidar com os trabalhos.

“Existe uma insegurança, uma expectativa de querer que o personagem também seja muito querido e entre no coração do público, como o personagem anterior”, diz a atriz, lembrando a última novela. “Bibi foi muito marcante. A novela acaba, mas o personagem fica muito vivo na memória das pessoas [...] Ainda me chamam muito de Bibi.”

Movida a desafios, como ela mesma se descreve, Paes irá incorporar a trajetória de uma jovem humilde, que vem de uma família de justiceiros profissionais. Crescida, ela encara no altar a ‘morte’ do marido Amadeu (Marcos Palmeira), membro da família rival à de Maria. A semelhança com o clássico da literatura “Romeu e Julieta”, de William Shakespeare, é proposital, mas ganha toques de comicidade na novela.

“Existe na Maria a doçura e inocência da Julieta, mas talvez ela não seja tão resiliente. Ela não aceita aquela imposição, não aceita a morte. Ela quer lutar, batalhar e viver esse amor. Ela é uma força desde muito jovem, e é essa força que faz ela criar esse império no futuro", diz. E adianta: “A gente vai vestir a camisa do melodrama, contar essa história sem vergonha de ser feliz e do amor."

Depois do trauma, Maria precisa fugir da cidade fictícia de Rio Vermelho, no Espírito Santo, para São Paulo com a ajuda da mãe e de um padre. Com essa história de plano de fundo, a novela consegue tratar da força e coragem das mulheres.

“A personagem fala muito do espírito trabalhador, aguerrido, do povo brasileiro. É a ‘dona do pedaço’ que existe em cada um de nós, e principalmente nas mulheres", comenta. "Tenho certeza que em cada mulher existe uma Maria da Paz, que teve que abrir mão de alguma coisa, [...] guardar uma dor muito grande em uma caixinha para poder ganhar a vida e conquistar seus objetivos. Que não teve medo de enfrentar um trabalho que talvez não seja tão glamouroso, mas que acredita que trabalhar não é vergonha, independente de qual seja”, diz a atriz, que ainda afirma ter percebido “a força de ter o título da novela personificado em alguém”.

Grávida e sem emprego, a personagem se reergue resgatando memórias de infância, tempo em que desenvolveu o hábito de coinhar ao lado de sua avó Dulce (Fernanda Montenegro), com quem aprende a fazer bolos. Anos depois, Maria torna-se dona de uma cadeia de confeitaria.

“Tive aulas com uma grande confeiteira”, conta Paes sobre a preparação. “Eu já sabia o básico: bater um bolo simples, todo mundo sabe. Mas existem várias dicas dos profissionais. Tive que aprender como quebrar o ovo com uma mão só, ou dicas de como colocar uma colher de creme de leite no brigadeiro para dar uma cremosidade diferente”, conta.

Dentre outros preparativos, a atriz diz que estudou para a personagem lendo biografias de mulheres memoráveis, como Michelle Obama e Mary Kay Ash. Mas o principal desafio para ela foi tratar da passagem de tempo. Na novela, Paes interpreta a personagem desde os 25 anos até os 45.

“Pela primeira vez, vou viver uma personagem mais jovem e depois, até o final da novela, mais velha do que eu”, diz. Para conseguir a façanha, a atriz usou desde truques de maquiagem até esticadores no rosto.

CULPA POR SER MÃE

Outro grande desafio na novela, segundo Paes, foi o da maternidade. Na trama, já adulta, Maria terá uma filha de 20 anos, algo distante da realidade da atriz que tem dois filhos, sendo o mais velho com apenas oito anos. “Sei lidar com as agruras, alegrias e dilemas da maternidade, mas até o que eu tenho. A vida adulta, eu ainda não passei”, confessa Paes.

Agatha Moreira interpretará a filha, Josiane, que cultiva desprezo pela mãe e critica constantemente seu comportamento e aparência. Ela almeja uma projeção social e por isso articula um plano junto a Régis (Reynaldo Gianecchini) para conseguir o patrimônio da mãe.

“Acho que todas as relações conflituosas são sempre muito bem vindas para o ator”, diz Paes. "Talvez o público sofra um pouco com isso. [...] Quando leio as coisas que a personagem da Agatha vai fazer, fico chocada. Chego a achar que tem um desvio de personalidade, algo quase patológico.”

A atriz afirma ainda que há filhos que não tem uma verdadeira conexão com os pais, mas também questiona a maternidade imposta como uma obrigação para as mulheres. Como mãe, ela mesma diz se sentir culpada muitas vezes por ficar fora de casa.

“Educar é uma tarefa muito difícil. É uma angústia porque você não está o tempo todo do lado do seu filho para dizer o que tem que fazer, vigiar, ver o que ele está vendo na televisão. Lá em casa eu não deixo mais eles brincarem nos dispositivos durante a semana, só final de semana quando eu estou e vejo, e bloqueio conteúdo para adulto”, diz.

E à medida que os filhos crescem, a criação vai ficando mais difícil, acredita Paes. “Eles começam a tomar conhecimento das coisas e a te questionar. E aí que vem as dificuldades. Às vezes tem perguntas que você não está preparado para responder. [...] Eu falo que não sei, mas na maioria das vezes tento responder através das minhas vivências. Outro dia meu filho me perguntou o que é alma”, lembra, aos risos.

“Tudo o que é possível fazer, a gente faz, mas dá medo. Soma-se a isso a culpa de não estar sempre presente… A gente fica com uma tendência de sempre dizer ‘sim’, quando na verdade a gente educa pelo ‘não’, muitas vezes”, conclui. “Meus pais me deixaram muito de castigo, mas também tiveram alguma dificuldade em demonstrar afeto. Então tento balancear isso.”

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