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Música
Descrição de chapéu The New York Times

Florence Welch e como os filmes de terror foram motivadores na pandemia

'Precisava ver gente perdendo completamente o controle', diz cantora

Florence Welch

Florence Welch Kathy Lo - 11.mai.18/The New York Times

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The New York Times

Florence Welch, 35, achou que ficaria feliz, quando a pandemia levou à suspensão dos shows de música ao vivo por algum tempo. Nos 13 últimos anos, depois de cada turnê, a carismática líder da banda de rock britânica Florence + the Machine dizia a si mesma que "é hora de sossegar". Mas em lugar disso ela começava a compor canções novas –o que foi exatamente o que aconteceu em 2020, e culminou em seu quinto álbum, "Dance Fever" que saiu na sexta-feira (13).

"O disco todo é uma fábula sobre a ideia de ‘cuidado com aquilo que você deseja’", disse Welch por telefone, de sua casa em Londres, onde ela passou a quarentena. "E o monstro dos shows me ouviu: você está cansada de tocar ao vivo? Fique parada em casa por um ano. Como você se sente agora?"

Com nada para fazer durante o lockdown, Welch sobreviveu com base em uma dieta rigorosa de filmes de terror. "O terror era como um curativo", ela disse. "Eu não conseguia assistir a uma comédia romântica ou a um filme que mostrasse pessoas comendo em restaurantes. Precisava ver gente perdendo completamente o controle". Como resultado, "Dance Fever" –cujo nome é uma referência à obsessão por dança que varreu a Europa depois da Peste Negra– é uma coleção de rocks com algo de assustador, criaturas que parecem estar babando de vontade de escapar.

​"Cada álbum é uma reação àquilo que você fez imediatamente antes, e eu estava meio cheia da minha [palavrão], que envolve aquele som pesado de piano", disse Welch. "Eu sentia falta das guitarras". Metade do disco foi produzido em parceria com Jack Antonoff, do The Bleachers, produtor de Taylor Swift e St. Vincent, e ele ajudou Welch a refinar aquilo que ela amava em seus discos anteriores.

"Free", uma faixa para dançar, muito cinética, é seguida por "Mellow Elvis", uma balada confessional sobre um momento em que a ressaca de Welch era tão forte que ela não conseguiu fazer a visita que tinha planejado a Graceland. (Welch parou de beber em 2014, mas antes disso, disse, "eu acreditava que o jeito de me apegar às minhas raízes roqueiras era ser sempre a pessoa mais bêbada da sala".)

Em sua sala de estar, cercada pelo que define como "um cemitério de malas", Welch falou sobre seus hobbies culturais e as paixões que deram forma à sua carreira. Abaixo, trechos editados de nossa conversa.

1. Pina Bausch

Pina foi uma das maiores influências de minha vida, especialmente sobre o meu estilo no palco. "Bluebeard" foi a última coisa que vi no teatro Sadler’s Wells de Londres, antes de os teatros todos começarem a fechar. Os trabalhos dela falam comigo de uma maneira que é realmente difícil de expressar em palavras, e acho que é esse exatamente o ponto da dança. Eu às vezes sou verbosa demais, falo demais sobre as coisas e isso me leva a lugar algum. Já dançar gira de modo muito puro em torno da experiência humana.

2 "Cabaré"

O que faz de "Cabaré" um dos maiores musicais de todos os tempos é aquela corrente oculta de escuridão, sexo e morte. Uma das primeiras coisas que fui ver no teatro quando as coisas recomeçaram a funcionar foi "Cabaret", com Eddie Redmayne e Jessie Buckley, dirigido por Rebecca Frecknall. Chorei muito. Senti ter sido reabastecida. Amo musicais. Quando era adolescente, eu não sonhava ser uma estrela pop; queria trabalhar na Broadway. Mas eu era uma menina realmente em graça. Eu suplicava à minha mãe que me colocasse em uma escola de teatro, mas ela sempre recusou. Meu amor pela música com certeza vem do meu pai.

3. "Drácula de Bram Stoker"

Eu não era aficionada dos filmes de terror, antes. Minha cabeça abriga pensamentos apavorantes em quantidade suficiente para eu não precisar me assustar por recreação. Mas peguei Covid pouco antes de fotografarmos a capa do disco. Fiquei bem doente, e por isso assisti ao "Drácula" de Francis Ford Coppola, que visualmente foi uma grande referência para o disco e o figurino. O roteiro é meio forçado, mas de alguma maneira isso e a atuação parecem reforçar a mágica. Houve um período em que, por falta de uma expressão melhor, suguei todo o conteúdo sobre vampiros que consegui encontrar.

4. Donlon Books

Eles oferecem os livros mais incríveis, raros e especiais, como "Wisconsin Death Trip" [de Michael Levy]. Se quero impressionar alguém que eu acho ser cool, é lá que eu levo a pessoa. Foi lá que eu levei Phoebe Bridgers, e ela recomendou que eu comprasse um livro de Carmen Maria Machado. Lembro-me de ela pegar "In the Dream House" e dizer que aquele era um dos melhores livros que já leu. Eu estava interessada em compor uma canção sobre todos os motivos pelos quais eu não sou uma boa namorada. Phoebe abriu uma página ao acaso e a lista de defeitos da personagem era muito parecida com a minha. O que pensei na hora foi que "isso tem tanto a me dizer". Foi assim que começou minha obsessão por Carmen Maria Machado.

5. Super-heróis

Acho que isso talvez seja uma coisa que as pessoas não vão esperar de mim, mas adoro tudo que se relaciona a super-heróis. Minha persona de palco inteira é uma mistura de minha obsessão de infância pela Vampira, dos "X-Men", e por um fantasma da era vitoriana. Acho que nunca gostei de um filme tanto quanto gostei de "Thor: Ragnarok". Não sou obcecada pela Marvel ou DC –assisto qualquer coisa. Às vezes os filmes funcionam, às vezes não, admito. Mas existe alguma coisa no humor dos super-heróis quando eles se envolvem em coisas normais. Nada me satisfaz mais do que ver alguém que veste uma capa conversando sobre coisas bestas.

6. Sair a pé para um café e para colher flores

Adoro sair de casa, caminhar pela rua e perceber a mudança das estações. Foi uma das coisas de que mais senti falta durante a Covid. Agora, sinto uma enorme gratidão por poder tomar um café com alguém, colher algumas flores. Meu pai uma vez me disse que a flor favorita dele era o narciso, e por isso comecei a me interessar demais por narcisos. Eram usados pelos antigos romanos como remédio para dormir, ou talvez como veneno, não sei bem. Escrevi a canção "Daffodil" [narciso] no pico da pandemia, e achei que tivesse realmente perdido o juízo, porque o refrão todo é só a palavra "daffodil" sendo repetida. Pensei comigo mesma que eu talvez precisasse dar um tempo.

7. @poetryisnotaluxury

Não sei quem criou essa conta ou quem a opera, mas descobri alguns dos meus poemas favoritos no Instagram por causa dela. "This is the Poem I Did Not Write", de Rita Dove. "Kitchen/Holidays", de Eileen Myles. E "Meditations in an Emergency" de Cameron Awkward-Rich. A última estrofe simplesmente acaba comigo. "Como você, eu nasci. Como você, fui criado na instituição dos sonhos. Juro com a mão no coração. Com a mão no meu estúpido coração".

8. "Suspiria"

O original e a refilmagem são, juntos, meus filmes de terror favoritos. Amo a dança. Eu ouvi uma entrevista de Tilda Swinton sobre o filme, e ela se baseou bastante no trabalho de uma coreógrafa anterior a Pina, chamada Mary Wigman. Isso despertou meu interesse sobre ela. Wigman criou um balé chamado "Hexentanz", ou "dança das bruxas", em 1914, e a coreografia foi minha referência para o vídeo de "Heaven Is Here".

9. "Yellowjackets"

A série me interessa por conta de minha fascinação pelas coisas cult, mas também por retratar a violência da mudança hormonal das meninas de uma maneira tão fiel. Acho que há alguma coisa nessa história de uma mulher jovem que se sente completamente homicida. Foi o que eu tentei capturar com canções como "Dream Girl Evil". Pode ser perigoso que as pessoas acreditem que você é boazinha demais. Se você ouve que "você é um anjo", parece que está ocupando um lugar alto demais do qual cair. Quando vejo mulheres complicadas, violentas ou que se comportam horrivelmente, especialmente mulheres jovens, minha sensação é de libertação. A sensação de não ter de tentar sobreviver sendo boazinha.

10. Bares de fragrâncias

Nós não saímos juntos para a noite como banda, hoje em dia. Vamos a bares de fragrâncias. Estranhamente, [o músico e cineasta] Adam Green foi o devoto original das fragrâncias, o "fraghead", que é o termo usado na comunidade das fragrâncias. Ele cheira muito bem. E abriu as portas para nós. Quando tive Covid, fiquei aterrorizada com a possibilidade de perder meu senso de olfato. Eu acordava no meio da noite sentindo que alguma coisa estava errada. Tenho uma grande coleção de fragrâncias e não conseguia identificar aroma algum. Eu chorava e borrifava perfume no ar às três da manhã. Quando eu contei isso aos meus amigos, eles comentaram "mas não é exatamente assim que você passa suas noites?"

Traduzido originalmente do inglês por Paulo Migliacci

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