Aviso
Este conteúdo é para maiores de 18 anos. Se tem menos de 18 anos, é inapropriado para você. Clique aqui para continuar.

Tony Goes
Descrição de chapéu LGBTQIA+

Nada é mais ridículo do que a Câmara de Ribeirão Preto repudiar Papai Noel gay da Noruega

Repercussão foi tão negativa que vereador já retirou a moção

Cena da propaganda "When Harry met Santa", da empresa Posten - Posten no YouTube/Reprodução
  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Em 1972, a Noruega descriminalizou o sexo homossexual (algo que, cumpre ressaltar, jamais foi proibido pela lei brasileira). Para celebrar o cinquentenário da data, a empresa de correios do país encomendou um comercial natalino com temática gay.

Postado no YouTube no dia 22 de novembro, o filme "When Harry Met Santa" –uma menção à comédia romântica "Harry e Sally – Feitos um Para o Outro", de 1989– mostra um homem que recebe a visita de Papai Noel na véspera do Natal, ao longo de muitos anos. Os dois gostam um do outro, mas o bom velhinho nunca pode ficar: afinal, ele tem milhões de presentes para entregar pelo mundo afora.

O comercial termina com Papai Noel avisando que, sim, este ano ele pode se demorar mais tempo com Harry. Afinal, ele contratou os serviços da Posten, a estatal norueguesa dos correios, e não precisa mais rodar o planeta de trenó.

Criado pela agência POL e produzido pela B-Films, o anúncio logo ganhou legendas em inglês e viralizou no mundo inteiro. As reações dos internautas, como era de se esperar, se dividiram: muitos aplaudiram a iniciativa, outros se escandalizaram com um Papai Noel que ama outro homem.

"Estão sexualizando nossas crianças!" foi a reclamação mais comum, esquecendo que o filme não é voltado ao público infantil –afinal, são os adultos que contratam serviços de entrega. Também é curioso que muitos se incomodem que um personagem chamado "Papai" tenha vida sexual.

As críticas negativas, evidentemente, só ajudaram na divulgação de "When Harry Met Santa", que já tem mas de 1,6 milhão de visualizações. Mas uma reação extrapolou as raias do ridículo, cobrindo de vergonha uma das cidades mais prósperas do país: a dinâmica Ribeirão Preto, metrópole regional do nordeste do estado de São Paulo.

O vereador André Rodini, do Novo –aquele partido que jura ser liberal, ignorando que o termo também se refere aos costumes– propôs uma moção de repúdio ao comercial norueguês. Veja bem: a um comercial da Noruega, um país muito distante da jurisdição da Câmara Municipal de Ribeirão Preto.

Por seis votos a favor, cinco contra e cinco abstenções, a moção foi aprovada. Apesar do placar apertado, a decisão é um vexame para a cidade inteira. É inconcebível que, com tantos problemas mais urgentes a se resolver, os parlamentares gastem tempo e dinheiro público para repudiar, repito, um comercial da distante Noruega, o país com o IDH mais elevado do mundo.

É óbvio que eles sabem que a medida tem zero efeito prático. Os que votaram a favor dessa barbaridade querem mesmo é sinalizar, para seus eleitores conservadores, que estão alertas contra qualquer tentativa de "sexualização das crianças", o termo usado pela extrema-direita contra qualquer obra que mostre a homossexualidade como algo natural.

André Rodini ainda afirmou que Papai Noel é um "símbolo da meritocracia". O que ele quis dizer? Que criança viada não merece ganhar presente de Natal?

O tiro saiu pela culatra. A repercussão da moção de repúdio nas redes sociais foi tão avassaladoramente negativa que Rodini a retirou nesta quinta (2), conforme informou a jornalista Mônica Bergamo.

Na tribuna da Câmara, Rodini pediu desculpas a quem se sentiu ofendido por sua atitude, alegando o clássico "fui mal interpretado". Também disse que sua família "foi covardemente atacada pelas pessoas mal-intencionadas, que querem fazer o jogo sujo da política".

Quero prestar toda a minha solidariedade aos familiares do vereador. Também gostaria de lembrá-lo que o incômodo que eles sofreram nos últimos dias é ínfimo, quando comparado à violência física, social e emocional que as pessoas LGBTQIA+ sofrem todos os dias, por todo o Brasil. Sua agora retirada moção de repúdio integra o arcabouço estrutural que ainda permite essa violência.

Tony Goes

Tony Goes tem 60 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.com.br

Final do conteúdo
  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Comentários

Ver todos os comentários Comentar esta reportagem