Tony Goes

Fantasias polêmicas de Halloween reacendem o debate: Dá para fazer graça com tudo?

Homem vestido de goleiro Bruno e Marquezine de enfermeira causaram celeuma

Bruna Marquezine vestida de enfermeira no Halloween
Bruna Marquezine vestida de enfermeira no Halloween - Reprodução
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Durante muito tempo, o Dia das Bruxas nos Estados Unidos era comemorado exclusivamente pelas crianças. Fantasiadas de monstros e diabinhos, elas batiam às portas das casas da vizinhança fazendo a temível ameaça: gostosuras ou travessuras! E voltavam para casa carregadas de doces e confeitos.

Lá pelos anos 1980, os adultos também começaram a celebrar a data, com festas temáticas à fantasia. O Halloween se transformou numa versão gringa do nosso Carnaval.

Como adoramos imitar os americanos, a moda também pegou por aqui. Mas nem tudo é diversão. O Brasil vive uma fase de profundos questionamentos. A sociedade se divide pelos temas mais banais, e as fantasias viraram um novo foco de discórdia.

Hoje em dia é complicado sair de índio para pular num bloco, por exemplo. Uma das nossas fantasias mais tradicionais agora é acusada de apropriação cultural. Quem usá-la estará manifestando desprezo pelos povos originais e apreço pelo colonialismo. Há um certo exagero nisso, mas também um fundo de verdade: nossos indígenas vêm sendo massacrados, e o assunto não se presta a brincadeiras.

Nesta semana pós-Dia das Bruxas, duas fantasias causaram celeuma nas redes sociais. Uma delas foi trajada por um homem não identificado, num baile em Manaus. O sujeito colocou uma camiseta do Flamengo e colou nela um papel onde se lia "Bruno". Na mão, levava um saco preto de lixo, identificado por outro papel como "Elisa".

A referência ao goleiro Bruno, condenado pelo assassinato de Elisa Samudio, incomodou muita gente, e com razão. Talvez não fosse a intenção do cara, mas sua fantasia também pode ser lida como um endosso ao jogador —ou, no mínimo, como um enorme desrespeito à memória da morta. Um dos crimes mais bárbaros dos últimos anos virou galhofa carnavalesca.

Dá para argumentar que o propósito de uma fantasia de Halloween é assustar. A galera se veste de vampiro, lobisomem, assombração. Neste quesito, nenhuma fantasia foi mais apavorante do que as do advogado Rodrigo Arruda Botelho e da médica Ana Cláudia Michels. O casal, trajando camisetas da seleção e portando bandeirinhas do Brasil, saiu de bolsominion.

O goleiro Bruno também é, de fato, um personagem que mete medo. Mas é bom lembrar que hoje ele é um homem livre, que faz propaganda de diversos produtos em seu perfil no Instagram e conta com milhares de apoiadores. Essa desenvoltura com que ele circula novamente na sociedade, quase como um herói, faz com que uma fantasia sua seja de extremo mau gosto.

A outra fantasia polêmica da semana foi a de Bruna Marquezine. A atriz postou uma foto no Instagram em que aparece vestida de enfermeira sexy –uma figura que não existe na vida real, mas que frequenta os delírios eróticos de muito marmanjo.

Bruna conseguiu atrair inúmeras críticas e a ira do Coren-SP (Conselho Regional de Enfermagem de São Paulo), que ameaçou processá-la. A atriz acabou publicando um pedido de desculpas em que diz que jamais pensou em desvalorizar as profissionais de enfermagem, a quem chama de "heroínas".

Em outras colunas minhas aqui no F5, eu já defendi o direito de cada um se fantasiar do que quiser. Carnaval é irreverência, é desacato, é molecagem (e o Halloween, que virou um Carnaval fora de época, também é). Não cabem patrulhas nem cerceamentos.

Mas também entendo que passamos por um momento delicado. Os avanços sociais de tantas minorias políticas —mulheres, negros, gays, indígenas— vêm retrocedendo a passos largos, depois que lideranças reacionárias chegaram ao poder em diversos países do mundo.

Não dá para fazer graça com um feminicida. Não dá para insinuar que enfermeiras sejam mulheres provocantes, disponíveis sexualmente. Esses horrores da realidade deveriam ficar de fora do Dia das Bruxas –uma data que serve para rirmos do nosso medo mais atávico, o medo da morte. O peso que essas fantasias trazem acabam por estragar a festa.

Tony Goes

Tony Goes tem 60 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.com.br

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