Tony Goes

Com a saída de Petrix e a chegada de dois novos concorrentes, BBB 20 começa a cair na real

Moradores da casa mais vigiada do Brasil não fazem ideia do que o país pensa deles

Pyong, Petrix, Hadson e Babu
Pyong, Petrix, Hadson e Babu - Globo/Divulgação

Foi uma cena digna de entrar para a história do Big Brother Brasil. Quando Tiago Leifert anunciou que o ginasta Petrix Barbosa era o eliminado do paredão quádruplo desta terça (4), caíram os queixos dos demais jogadores. Ninguém suspeitava que o macho mais alfa desta edição era tão impopular aqui fora. Imagine quando souberem que ele amealhou mais de 80% dos votos.

O choque de realidade prosseguiu com a entrada de dois novos participantes, Ivy e Daniel, escolhidos pelo público depois de passarem pela Casa de Vidro. Os novatos correram a dar notícias do mundo exterior aos veteranos. Agora, todos já sabem da campanha antiassédio que estourou nas redes sociais. Isso muda o jogo, é óbvio.

Na verdade, o chocante foi ninguém lá dentro ter percebido que Petrix era um alvo ambulante. Talvez não tenham ligado os pontos: Petrix apalpa os seios de Bianca + Petrix esfrega os genitais em Flayslane + Petrix atropela Pyong na corrida ao Big Fone.

Cada uma dessas faltas seria punível com expulsão, mas a Globo optou por manter Petrix no programa. Foi justo? Um problema que todo reality de confinamento enfrenta é a rápida eliminação dos vilões. Theo Becker foi ejetado logo o começo da primeira edição de A Fazenda (Record), em 2009, e o programa perdeu metade da graça. De um ponto de vista estritamente comercial é até compreensível que a emissora passe pano para os candidatos que movimentam a competição (mas não do ponto de vista moral, claro).

Só que, no caso de Petrix, a coisa estava ficando feia. Já circula pela internet um meme em que Boninho e Leifert aparecem como um casal, com o bebê Petrix no colo. Se o atleta não tivesse rodado, as acusações de parcialidade contra a emissora iriam subir de tom.

Também dá para argumentar que a Globo agiu pelo bem do programa. Se Petrix tivesse sido expulso pelo mau comportamento, os demais não teriam se dado conta da rejeição que ele acumulou entre o público. Seria “apenas” um caso de polícia.

Felizmente, agora todos sabem. E as estratégias devem começar a mudar. A assembleia de boys lixo, por exemplo, deve encerrar suas atividades. Os rapazes só vão insistir no plano de seduzir as mulheres comprometidas se forem realmente muito burros –o que também não deve ser descartado...

O BBB 20 está conseguindo fazer o que o BBB 19 tentou fazer, mas fracassou: colocar em discussão as pautas progressistas. A edição do ano passado tinha um elenco dividido em dois grupos informais, o “Gaiola” e o “Villa Mix”: os primeiros, mais diversos e liberais; os segundos, mais conservadores, para não dizer reacionários.

 

A intenção de Boninho era reproduzir no jogo a polarização vigente na sociedade. Não deu muito certo: embalado pela recente vitória nas urnas da extrema-direita, o público eliminou os “gaiolas” rapidamente e deu uma vitória fácil e folgada à “villa mix” Paula.

Algo parece ter mudado de um ano para cá. Mãos bobas que teriam sido perdoadas em outras edições, dessa vez são corretamente identificadas como assédio sexual pelos espectadores. Os machos-alfa, que sempre nadaram de braçada, não estão tendo vida fácil desta vez. Dois deles já caíram fora.

Sim, o BBB é horrível, alienante, uma total perda de tempo. Mas, de vez em quando, o programa consegue se transformar em um espelho do país, ainda que parcialmente. É o que parece estar acontecendo com esse BBB 20.

Tony Goes

Tony Goes tem 60 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.com.br

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