Tony Goes

'Amor de Mãe' estreia com overdose de mulheres guerreiras

Nova atração da Globo na faixa das 21 horas é a primeira novela da autora Manuela Dias

Lurdes (Regina Casé) e Thelma (Adriana Esteves) em 'Amor de Mãe'
Lurdes (Regina Casé) e Thelma (Adriana Esteves) em 'Amor de Mãe' - Estevam Avellar/Globo

A mulher guerreira é o epicentro da teledramaturgia brasileira. Nem sempre foi assim: nossas novelas já fizeram muito sucesso com histórias de falsas viúvas e empregadas vingativas. Mas, de uns anos para cá, impulsionada pela fragmentação da audiência, a mulher guerreira se tornou a heroína de quase todos os folhetins que estão no ar.

Na Globo, ela se tornou obrigatória. Está presente na faixa das 18 horas (a dona Lola de “Éramos Seis”) e na das 19 (a Paloma de “Bom Sucesso”). Na das 21 horas, a Maria da Paz de “A Dona do Pedaço” acaba de ceder seu lugar a nada menos do que três batalhadoras: Lurdes (Regina Casé), Thelma (Adriana Esteves) e Vitória (Taís Araújo), as protagonistas de “Amor de Mãe”, que estreou nesta segunda (25).

Manuela Dias, das minisséries “Justiça” e “Ligações Perigosas”, debuta como autora principal de uma novela diretamente no mais nobre dos horários, uma façanha que nem Walcyr Carrasco ou João Emanuel Carneiro conseguiram. Mas tem a responsabilidade de segurar os ótimos índices alcançados no Ibope por sua antecessora, que reverteram o viés de baixa que o carro-chefe da emissora vinha enfrentando há alguns anos.

Talvez por isto “Amor de Mãe” tenha três fortalezas femininas em primeiro plano. Variantes da mulher trabalhadora, algo romântica, mas 100% dedicada aos filhos, que a Globo acredita ser o único personagem capaz de interessar à maior parte do público, composto por mulheres que acreditam serem trabalhadoras, algo românticas e 100% dedicadas aos filhos.

O primeiro bloco da nova novela foi inteiramente voltado à apresentação do trio central. A primeira foi Lurdes, que parece uma mistura de duas nordestinas feitas pela carioca Regina Casé no cinema: a sertaneja Darlene de “Eu Tu Eles” (2000) e a doméstica Val de “Que Horas Ela Volta” (2015).

Regina, que estava fora do ar há quase três anos, desde que seu programa “Esquenta” acabou, compõe a personagem com desenvoltura.

Lurdes é guerreira-de-raiz: matou o marido por acidente, durante a briga que sucedeu a descoberta por ela de que que ele vendera um dos filhos, e não se arrepende de nada. Criou as três crianças que lhe restaram e mais uma filha adotiva com sacrifício, mas as agruras da vida não lhe tiraram o bom humor.

A simpática Lurdes conta sua saga ao longo de uma entrevista de emprego, um bom recurso dramático para tanta exposição. Sua patroa em potencial é a advogada Vitória (Taís Araújo), e que bom ver uma patroa negra contratando uma empregada branca na TV brasileira.

Mas Vitória só é mãe em sonhos: perdeu seu bebê quando a gravidez já ia adiantada, empurrada pela mãe da vítima de um cliente que ela conseguiu absolver no tribunal.

O tripé se completa com Thelma (Adriana Esteves), a quem Lurdes salva de ser atropelada depois que sai da casa de Vitória. Thelma sentiu-se tonta no meio da rua porque tem um aneurisma na cabeça: a notícia lhe é dada no hospital, e as perspectivas de cura são mínimas. Ela então se desespera, pois já perdeu o marido em um incêndio, e não quer deixar sozinho o filho, Danilo (Chay Suede), apesar de ele já ser bem crescidinho.

Esses dramas foram contados com agilidade pelo diretor José Luiz Villarim, mas também sem nenhum brilho especial. O que talvez se revele uma qualidade da novela: são o texto e os atores que irão emocionar, e a câmera não tentará ofuscá-los.

Personagens e tramas secundárias foram introduzidos no segundo bloco, mas só a morte provocada por Magno (Juliano Cazarré) causou maior interesse. O filho mais velho de Lurdes viu uma mulher sendo estuprada na rua, e lutou com o violador. Acabou jogando-o com força demais ao chão, emulando a maneira como sua mãe matou seu pai.

Foi um capítulo movimentado, e bastante promissor. Não teve o impacto do começo de “Avenida Brasil” (2012), ainda o atual paradigma do gênero, mas foi muito mais claro e coeso que o de novelas mais recentes.

Nas redes sociais, a repercussão de “Amor de Mãe” foi largamente positiva. Dados preliminares apontam um pico de audiência de 35 pontos na Grande São Paulo, maior do que a da estreia de “A Dona do Pedaço”. Cada ponto do Kantar Ibope corresponde a 73 mil domicílios).

Pelo jeito, o público ainda não enjoou das mulheres guerreiras.

Tony Goes

Tony Goes tem 58 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.com.br

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