Tony Goes

Por que os famosos sumiram das campanhas políticas nessas eleições?

Mesmo com declarações de votos, eles não estão no horário eleitoral

Montagem dos candidatos à Presidência Geraldo Alckmin (PSDB), Jair Bolsonaro (PSL), Fernando Haddad (PT), Marina Silva (Rede) e Ciro Gomes (PDT)
Montagem dos candidatos à Presidência Geraldo Alckmin (PSDB), Jair Bolsonaro (PSL), Fernando Haddad (PT), Marina Silva (Rede) e Ciro Gomes (PDT) - Folhapress

A participação de artistas e outras celebridades em campanhas políticas é um assunto inesgotável. Tem sempre quem critique a adesão dos famosos a este ou aquele candidato, como se eles não pudessem se manifestar politicamente. Claro que podem: todo mundo pode.

Em 2014, Lima Duarte, Marcelo Serrado e Ney Latorraca apareceram em vídeos pedindo votos para Aécio Neves, então candidato à Presidência da República pelo PSDB. Caetano Veloso, Marco Nanini e Betty Goffman surgiram na campanha de Marina Silva (na época, no PSB). Chico Buarque endossou Dilma Rousseff (PT), que ainda recebeu o apoio explícito de muitos outros artistas.

Como acontece desde a redemocratização, nesta eleição mais uma vez a classe artística se dispersou entre alguns presidenciáveis (mas não entre todos). Só que neste ano aconteceu uma coisa curiosa. No horário eleitoral gratuito transmitido pelo rádio e pela TV, os artistas mal apareceram.

Há algumas razões para isto. Uma delas é a nova legislação eleitoral, aprovada pela minirreforma política de 2015. A propaganda gratuita está mais curta, e dura apenas um mês. Além do mais, as regras mais rígidas deixaram as mensagens quase tão empolgantes como nos tempos da Lei Falcão, do final do regime militar, que só permitia que os candidatos dissessem seus nomes e números.

Também há o fator Globo: a emissora não permite que seus contratados participem de peças publicitárias de campanhas políticas, como já aconteceu no passado. Mas não os impede de declarar preferências pelas redes sociais, nem de comparecer a eventos de qualquer matiz.

E ainda tem a proibição dos showmícios, em vigor já há alguns anos. Os políticos não podem mais inflar o público de suas aparições contratando espetáculos populares.

Mas a maior causa do fenômeno, suspeito eu, é a diminuição da importância da TV como instrumento de persuasão. Já existe toda uma geração que mal vê televisão, preferindo buscar informação e entretenimento na internet. Para esta turma, as estrelas das novelas têm menos peso que seus vlogueiros favoritos, ou mesmo seus grupos no WhatsApp.

E as próprias estrelas estão mais cautelosas. Diante da polarização que divide o país, muitas preferiram ficar na moita. Quem se manifestou em prol de um lado ou de outro virou alvo da ira do lado oposto. Nomes como Ivete Sangalo conseguiram permanecer neutros até o momento. Se não dá para perdoar, pelo menos dá para entender. 

Esta está sendo uma eleição atípica, com um líder na cadeia e um outro, vítima de um atentado. Ainda não dá para dizer que a internet deixou a TV irrelevante. O que dá para arriscar é que as celebridades talvez não têm mais o peso que tinham: superexpostas pelas redes sociais no resto do ano, no período eleitoral elas se tornaram parte da paisagem.

Tony Goes

Tony Goes tem 56 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.blogspot.com

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