Tony Goes

Documentário 'Abrindo o Armário' mostra como é ser gay no Brasil

Filme não tem abordagem original, mas é importante e necessário

Linn da Quebrada
A rapper paulistana Linn da Quebrada participa do documentário "Abrindo o Armário" - Divulgação

No Brasil de hoje, não faltam projetos audiovisuais de temática LGBT. Eles vão de premiados longas de ficção, como “Tatuagem” e “Hoje Eu Não Quero Voltar Sozinho”, a webdocumentários como “Bichas” e “Eu Resisto”, passando por inúmeros especiais e reportagens de TV sobre o assunto.

E no entanto, mesmo com tanta exposição, não é fácil ser gay, lésbica, bissexual ou travesti no nosso país. Cada vez mais gente acha que “ser contra o homossexualismo” (sic) é mera questão de opinião, não homofobia. Candidatos a cargos públicos prometem reverter direitos conquistados, como o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo. E os números da violência contra a população LGBT, principalmente entre as camadas mais pobres, são de arrepiar.

É neste contexto que cresce a importância do documentário “Abrindo o Armário”, de Dario Menezes e Luis Abramo. Os diretores entrevistaram apenas 18 pessoas, concentradas no Rio e em São Paulo. Mas a diversidade entre elas é tamanha que o filme consegue, em pouco menos de uma hora e meia, traçar um painel consistente do que é ser homem, homossexual e brasileiro em 2018.

“Abrindo o Armário” mostra alguns gays da terceira idade, como o cineasta Fabino Canosa e o coreógrafo Ciro Barcellos, que são presença rara na mídia. Todos os que aparecem no filme, sem exceção, estão em paz com o mundo e consigo mesmos. Sobreviveram à ditadura e à AIDS; exalam humor e sabedoria.

O contraste é grande com os mais novos. Alguns ainda estão lutando contra o próprio desejo, tentando conciliar sua sexualidade com a educação religiosa que receberam. Parece que era mais fácil sair do armário na década de 1970, em pleno regime militar.

 

Também surgem diferentes estilos de vida. Os cariocas Gilberto Scofield Jr. e Rodrigo Barbosa, por exemplo, são um casal branco, cis e de classe média. Adotaram duas crianças e formam uma família quase convencional.

Já a rapper paulistana Linn da Quebrada e sua parceira Jup do Bairro recusam o padrão binário ou qualquer tipo de rótulo: transitam entre os gêneros, ao mesmo tempo em que têm um discurso bastante articulado.

Mesmo sendo tão abrangente, “Abrindo o Armário” não cobre todos os matizes do universo LGBT. Isto seria impossível, é claro. Mas, para quem sentiu falta de lésbicas e homens trans, os diretores já avisaram que vem aí uma continuação.

“Abrindo o Armário” fica em cartaz em algumas salas da rede Cinemark até o dia 29 de agosto. Depois, deve ser exibido pela Globo News, que coproduziu o filme.

Mesmo sem trazer grandes novidades formais, é um documentário que merece ser visto por um público maior. Sua mensagem pode não ser nova, mas nunca foi tão urgente como é agora.

Tony Goes

Tony Goes tem 56 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.blogspot.com

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