Tony Goes

Na reta final, 'Magnífica 70' está mais contemporânea do que nunca

Terceira e última temporada da série da HBO estreou neste domingo (14)

Desfecho da trilogia protagonizada por Adriano Garib, Marcos Winter, Maria Luísa Mendonça e Simone
Desfecho da trilogia protagonizada por Adriano Garib, Marcos Winter, Maria Luísa Mendonça e Simone - Divulgação HBO

Tony Goes
São Paulo

Seis anos atrás, quando “Magnífica 70” começou a ser desenvolvida, a ditadura militar (1964-1985) era uma lembrança cada vez mais distante. O protagonista Vicente (Marcos Winter), um diretor de pornochanchadas que se vê alçado ao posto de chefe do departamento de censura de São Paulo, resumia as contradições de uma época que parecia ultrapassada para sempre. 

Com direção-geral de Claudio Torres (diretor de filmes como “A Mulher Invisível” e “O Homem do Futuro”), a série estreou na HBO em 2015, conquistando aplausos da crítica e o interesse do público. Um retrato fantasioso dos “anos de chumbo”, um período sombrio da história brasileira. 

Neste domingo (14), o canal começou a exibir a terceira e última temporada de “Magnífica 70”. O programa não mudou de tom: continua sendo uma alegoria da repressão e da reação que ela suscita. Mas o Brasil não é o mais o mesmo. 

O primeiro episódio da nova leva se passa em 1975, um momento de inflexão no regime militar. Foi o ano em que o governo de Ernesto Geisel deslanchou um lento e gradual processo de distensão política, afastando do poder os generais mais linha-dura. 

Mas o capítulo também dá a sensação de ser o trailer de algo que está prestes a acontecer. Uma versão brasileira de “The Handmaid’s Tale – O Conto da Aia” (Paramount), que fala de um futuro próximo e distópico. 

A segunda temporada foi exibida em 2016. Dois anos depois, a terceira estreia exatamente entre o primeiro e o segundo turno das eleições que podem entregar a Presidência da República a um governo de viés autoritário, que promete uma “revolução nos costumes”. 

Mas a onda conservadora já começou. Exposições de arte são tiradas de cartaz por pressão de setores da sociedade. Um livro que fala da vida de um jovem sob a ditadura chilena (1973-1989) foi removido do currículo de um tradicional colégio carioca, depois que alguns pais enxergaram nele uma peça de propaganda comunista. Como que a equipe de “Magnífica 70” vê este momento? 

“Mesmo dentro da repressão, a cultura sempre encontra uma fresta”, diz Maria Luísa Mendonça. A atriz, que interpreta a guerrilheira Isabel no seriado, conversou com a FOLHA pouco antes da estreia da nova temporada. “Lembro muito do Cildo Meirelles, daquela geração de artistas que conseguiu se expressar através das artes plásticas, do cinema, da literatura”. 

“Magnífica 70” tem cenas de nudez, e a cobrança sobre o elenco aumentou de uns tempos para cá.  “A nudez virou de novo um tabu. Sou muito perguntada sobre este assunto”, conta Simone Spoladore (que faz a atriz Dora Dumar na série). “Mas a nudez da pornochanchada está no mesmo nível da nudez de “Game of Thrones” (HBO), que todo mundo adora e ninguém questiona”. 

“Não pode haver algo pior do que a censura, tanto do ponto de vista individual quanto da nação”, diz Claudio Torres. “Fomos atropelados pela realidade”. 

E censura é exatamente o assunto central de “Magnífica 70”. Por uma coincidência cósmica, a série volta ao ar no momento em que se discute o cerceamento à liberdade de expressão e o controle da mídia. 

Isto faz com que o programa seja mais urgente e pertinente do que nunca. “Magnífica 70” não fala mais de um passado remoto: fala de um futuro que pode estar aí, virando a esquina.

Tony Goes

Tony Goes tem 56 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.blogspot.com

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