Tony Goes

Excitante e catártico, 'O Doutrinador' capta o Brasil pré-eleições

Filme de super-herói nacional estreia no dia 1º de novembro

Cena do longa "O Doutrinador", protagonizado pelo ator Kiko Pisolato
Cena do longa "O Doutrinador", protagonizado pelo ator Kiko Pisolato - Aline Arruda/Divulgação

O Brasil carece de super-heróis. Já houve algumas tentativas de lançar uma contrapartida tupiniquim ao Batman ou ao Capitão América, mas nenhuma delas foi muito longe.

Isso pode mudar com “O Doutrinador”. As histórias em quadrinhos de Luciano Cunha, sucesso na internet e em forma impressa desde 2013, foram adaptadas para o cinema em um longa repleto de cenas de ação de tirar o fôlego, que estreia no circuito comercial no próximo dia 1º de novembro.

O personagem é um policial de elite que usa todas as técnicas que aprendeu para matar políticos corruptos, que conseguiram se safar dos braços da lei usando todo tipo de artimanha jurídica.

O filme traz uma mudança importante em relação aos quadrinhos: é uma tragédia familiar que detona a sanha vingativa de Miguel Montessant, a identidade secreta do Doutrinador. Além disso, agora ele só liquida políticos fictícios, sem correspondentes exatos no mundo real.

O diretor Gustavo Bonafé entregou um filme nos padrões de Hollywood. Ele já havia demonstrado um enorme talento no ótimo “Legalize Já”, que conta a origem da banda Planet Hemp, concluído há um ano mas só agora lançado nos cinemas. Aliás, toda a parte técnica de “O Doutrinador” –fotografia, edição, efeitos especiais– merece os maiores elogios.

Todo o elenco também está bem, com destaque para Kiko Pissolato no papel principal. Pouco aproveitado pela televisão, o ator finalmente encontra um personagem digno de seu carisma.

O roteiro é que é problemático. Ou melhor: ele permite uma leitura que pode ser perigosa para este momento. Principalmente por causa do final literalmente explosivo, que sinaliza não só um desprezo absoluto por toda a classe política, como às próprias instituições democráticas.

Os produtores de “O Doutrinador” adiaram a estreia do filme para depois do segundo turno, evitando assim o risco de serem acusados de querer influenciar o resultado das urnas. Com isso, podem ter incorrido em um erro de “timing”: a história retrata com fidelidade o sentimento “contra tudo o que está aí”, que se espalhou pelo Brasil desde as manifestações de 2013.

Ao longo do processo que levou à Operação Lava Jato e ao impeachment de Dilma Rousseff, era divertido ver nas HQs a eliminação física de vários dos nomes envolvidos nos escândalos. Mas agora, na esteira da onda conservadora de viés autoritário que varre o país, “O Doutrinador” pode ser visto como mais um aval à violência contra quem se desvia do pensamento dominante no momento.

É verdade que o personagem não é incensado como um herói impoluto. Ele comete erros em suas matanças, é criticado por seus aliados e tem até crises de consciência. Vamos ver como a série de TV, prevista para estrear no canal Space em 2019, desenvolve essa complexidade.

De qualquer forma, "O Doutrinador" tem todos os méritos para se tornar um sucesso de bilheteria. É uma versão fantasiosa, porém fidedigna, da vontade de mudança que contaminou muitos brasileiros. Mas tomara que a mensagem niilista que o filme passa não encontre eco na vida real.

Tony Goes

Tony Goes tem 58 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.com.br

Final do conteúdo

Comentários

Ver todos os comentários Comentar esta reportagem

Últimas Notícias