Tony Goes

As séries da Globo são o fato mais importante da TV brasileira em 2017

Alice Wegmann, Lee Taylor (Simplício) e Demick Lopes (Mudinho) em "Onde Nascem os Fortes', que estreia no primeiro semestre de 2018
Alice Wegmann, Lee Taylor (Simplício) e Demick Lopes (Mudinho) em "Onde Nascem os Fortes', que estreia no primeiro semestre de 2018 - Estevam Avellar/Globo


Fui entrevistado por uma rádio de São Paulo sobre os destaques da nossa TV aberta em 2017. Assunto não faltou, porque foi um ano tumultuado.

Houve o boicote das emissoras do Simba --Record, SBT e RedeTV!-- às operadoras de TV paga, que resultou num tombo de audiência para as três. Também houve uma novela da faixa das 21h na Globo, "A Força do Querer", que não só alcançou ótimos números como ainda renovou o gênero. E houve o final de programas famosos como o "Pânico" (Band) ou o "Legendários" (Record), sem que surgissem grandes sucessos entre as novidades.

Mas qual foi o fato determinante de 2017? O que foi que, daqui a algum tempo, poderá ser visto como um marco histórico, que mudou a nossa maneira de consumir televisão? Antes de chegar a este fato, quero analisar um outro, também muito importante. É a mudança de postura da Globo em relação aos escândalos envolvendo seus contratados.

A emissora não quer mais saber de treta. Encerrou o contrato com William Waack, ex-apresentador do "Jornal da Globo", por causa do célebre vídeo vazado onde o jornalista sussurra a um colega que o buzinaço que ouvem ao fundo é "coisa de preto".

Também está mantendo José Mayer na geladeira, depois que o ator foi acusado de assédio sexual em abril passado. Volta e meia, Aguinaldo Silva vai às redes sociais dizer que quer Mayer em sua próxima novela. Logo em seguida, noticia-se que muitas atrizes se recusam a contracenar com Mayer, e ele é "desescalado" do elenco. Meu palpite? O contrato de José Mayer terminará sem que ele volte ao ar, e não será renovado.

Tudo isso revela uma sensibilidade inédita da Globo ao mundo da internet, algo para o qual suas concorrentes ainda não se tocaram. Esta sensibilidade também é o que está por trás daquele que, no meu entender, é o fato mais importante da TV brasileira em 2017.

A Globo finalmente acordou para as séries. Claro que ela já vem produzindo este tipo de programa há quase 40 anos, como a icônica "Malu Mulher". Mas o investimento no formato se ampliou e se diversificou ao longo de 2017.

No momento, a emissora produz quatro séries ao mesmo tempo, algumas ainda sem data de exibição. Mas todas irão para aquilo que, internamente, está sendo chamado de "Globoflix": uma nova plataforma que reunirá conteúdo tanto da Globo quanto de sua programadora de TV paga, a Globosat. O serviço talvez até mantenha o nome Globo Play, mas será mais abrangente que o atual, com muito material exclusivo.

A Globo percebeu que a maior ameaça à sua hegemonia não são os outros canais abertos, mas sim o streaming. Para fazer frente a esta mudança cultural, ela precisa readequar tanto seu conteúdo --daí o investimento em séries, o produto mais consumido nas plataformas-- como sua distribuição --e por isto a criação da "Globoflix".

Os resultados só serão vistos nos próximos anos. Mas é notável o esforço da Globo em acompanhar os novos tempos, enquanto a concorrência continua requentando atrações e apelando para fórmulas desgastadas.


Tony Goes

Tony Goes tem 56 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.blogspot.com

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