Tony Goes

Hashtag '#CaetanoPedofilo' levanta a questão: de onde vem tanto ódio contra os artistas?


Caetano Veloso relança "Verdades Tropicais e Delírios Utópicos"
Caetano Veloso no relançamento do seu livro "Verdades Tropicais e Delírios Utópicos", em outubro de 2017 - Mastrângelo Reino/Folhapress


No sábado (21), o MBL anunciou em sua página no Facebook que está sendo processado por Caetano Veloso e Paula Lavigne. Como informou a jornalista Isabella Menon, o casal entrou com uma ação contra o grupo político e contra o ator Alexandre Frota no dia 10 de outubro, depois de Caetano ter sido acusado por eles de pedofilia e estupro por ter mantido relações sexuais com Paula quando esta tinha apenas 13 anos de idade.

Imediatamente, o hashtag #CaetanoPedofilo subiu ao topo dos "trending topics" mundiais do Twitter. Caetano e Paula teriam sido desmascarados em sua hipocrisia: afinal, ambos vêm se declarando a favor da liberdade de expressão na esteira de episódios recentes no mundo das artes, como a exposição "Queermuseu", cancelada em Porto Alegre, ou a polêmica performance do coreógrafo Wagner Schwartz no MAM de São Paulo. Paula, inclusive, é uma das líderes do movimento #342Artes, que propõe um posicionamento firme da classe artística contra o avanço da censura.

Alexandre Frota ainda respondeu com uma provocação: postou em seu perfil no Twitter um vídeo da performance de Schwartz no MAM, onde o artista nu tem seus pés tocados por uma garotinha ao som de "Leãozinho", um dos clássicos do cancioneiro de Caetano.

Mas, afinal, Caetano Veloso teria estuprado uma menor de idade? Pela lei vigente em 1982 —ainda o Código Penal de 1940— sim, se ela ou seus pais tivessem prestado queixa. Mas isto não aconteceu. Os dois, inclusive, começaram a namorar, e se casaram quatro anos depois. Tiveram dois filhos, se separaram, reataram o casamento e estão juntos até hoje. Chamar de pedofilia o que aconteceu há 35 anos é ignorar todo esse contexto.

Além do mais, o estupro só foi redefinido por lei em 2009, e a lei não retroage. Dado o histórico do casal, é duvidoso que algum juiz considere Caetano Veloso culpado (inclusive porque o suposto crime já prescreveu).

Este bafafá todo é só mais um lance da guerra cultural que vem se intensificando no Brasil. Cada vez mais artistas e celebridades estão sendo atacados nas redes sociais por serem "de extrema esquerda" ou "enriquecerem" graças às leis de incentivo à cultura.

Acontece que a Lei Rouanet, a Lei do Audiovisual e outras legislações semelhantes são mecanismos complexos, que não implicam em transferência direta de fundos públicos para artistas que já seriam ricos. Os projetos aprovados por elas são apenas autorizados a captar uma certa quantia junto a empresas, que então podem descontar este valor do imposto devido. Só que, na maioria das vezes, a quantia captada é bem abaixo da que foi autorizada. E, nesses tempos de vacas magras, não são raros os casos em que não se consegue captar absolutamente nada.

Até o filme "Como se Tornar o Pior Aluno da Escola", produzido, co-escrito e atuado por Danilo Gentili —um crítico vocal da Lei —Rouanet se valeu da Lei do Audiovisual. E é bom lembrar que a maioria dos países civilizados têm alguma forma de financiamento público às artes e à cultura. E que este financiamento costuma ser bem menos generoso do que os governos garantem a muitas outras áreas da atividade econômica.

Por que, então, só os artistas são execrados? Desconfio que, no fundo, seja por pura inveja. Alguns, de fato, são ricos e desfrutam de uma série de vantagens. Mas a imensa maioria enfrenta enormes dificuldades, que nem mesmo as leis de incentivo à cultura conseguem sanar.

Acima de tudo isto, existe um esforço premeditado para criminalizar a expressão artística e promover a volta da censura. Sempre em nome da "proteção das crianças e da família". O MBL já percebeu que levantar este tipo de bandeira mobiliza seus seguidores, e disfarça o fato do grupo não se posicionar a respeito das inúmeras denúncias de corrupção que atingem integrantes do governo Temer.

A defesa da moral e dos bons costumes propiciou a cristalização de um regime autoritário na Rússia. Estão tentando fazer o mesmo por aqui. Acossar Caetano Veloso e Paula Lavigne não passa de um detalhe dentro de uma estratégia muito mais ampla. É bom ficarmos de olho.

Tony Goes

Tony Goes tem 56 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.blogspot.com

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