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Rosana Hermann

Baixaria em A Fazenda 15 não é acaso, é meta

Não adianta apenas responsabilizar ou punir os participantes, pois situações de confronto foram projetadas

Participantes na sede de A Fazenda 15 - 28.set.20223/PlayPlus
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Rosana Hermann
São Paulo

Todo mundo sabe que notícia boa não vende jornal.

Por causa de um fenômeno cognitivo chamado 'viés de negatividade', o ser humano tende a dar mais atenção a notícias e experiências ruins. Essa característica teria a função evolutiva de nos preparar para situações de perigo.

Da mesma forma, quando uma informação nos causa indignação, nós a compartilhamos muito mais depressa. Entrar em contato com uma notícia absurda é como receber uma batata quente. A gente não consegue segurar e passa adiante.

Esses princípios parecem ter norteado a escolha dos participantes da edição 15 de A Fazenda. São combinações de perfis arquitetadas especificamente para gerar não simples faíscas, mas incêndios. Não meras discordâncias, mas guerras. Não meras polêmicas, mas ataques. Sem contar as ofensas homofóbicas que resvalam em crimes.

O que temos visto é abjeto, nojento, podre. E não adianta apenas responsabilizar ou punir os participantes, porque as situações de confronto foram projetadas. Só para citar um exemplo: Cariúcha foi escolhida a dedo para entrar em conflito com Rachel. A mistura explosiva não é coincidência, não é acaso, é intenção.

Sim, eu sei que todo reality show, assim como todo drama, precisa de tensão, de mocinhas e vilãs. Mas uma coisa é antagonismo e outra coisa é baixaria. Quando o assunto do dia vira a possibilidade de "cuspir" ou "enfiar a mão na cara", quando o grande tema da semana é a linguagem homofóbica de Cariúcha e Yuri em relação a Lucas, fica claro que a falta de civilidade era meta a ser alcançada pelo programa em busca de audiência e não um acidente de percurso.

De fato, o programa, que tem sido irrelevante para o público em geral em suas últimas edições, passou a chamar atenção do público pelo efeito mencionado, o 'viés de negatividade'.

Mas vale a pena se destacar desse jeito? A melhor solução para alavancar um reality é pelo desrespeito ao espectador? Será que a longo prazo A Fazenda não está agindo como grileiros e mineradores ilegais, que extraem tudo o que podem da terra, queimam florestas, derrubam árvores e destroem o ecossistema?

É possível que, a curto prazo, A Fazenda 15 realmente consiga alcançar seu sonho de fazer mais barulho que o Big Brother Brasil. Mas a longo prazo, também é plausível que o ambiente tóxico, que chega a fazer mal para a saúde mental de quem acompanha o programa, gere uma onda de repúdio a ponto de o programa sair da grade.

Se um dia o ambiente rural, com bichos fofos e hortinhas, trouxe algum momento de alento para o espectador, hoje podemos dizer que de 'fazenda' tudo o que restou foram os coices. Para não dizer coisa pior que só rima com chorume.

Rosana Hermann

Rosana Hermann é jornalista, roteirista de TV desde 1983 e produtora de conteúdo.

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