Renato Kramer

TV Cultura relembra última entrevista de Elis Regina

O "Especial TV Cultura 45 Anos" levou ao ar nesta quarta-feira (16) a última entrevista concedida pela cantora Elis Regina ao programa "Jogo da Verdade" (1982).

"Elis Regina Carvalho da Costa, gaúcha de Porto Alegre, mãe de três filhos, destacou-se e passou a ser uma estrela da música popular brasileira" —foi como o apresentador Salomão Esper anunciou a convidada da noite. E acrescentou: "Quando Elis canta entende-se porque há anos ela se transformou numa das grandes figuras da nossa música".

E ele mesmo logo quis saber até que ponto poderia ser profundo e honesto um jogo da verdade sobre a sua carreira. "Até o ponto que a pessoa possa ou ache que deva se desnudar completamente perante as pessoas", respondeu-lhe a "Pimentinha". E concluiu: "Eu acho que a gente faz parte de um grande teatro. Cada um tem o seu papelzinho e o seu curinga guardado na manguinha para fazer a sua canastra na hora precisa".

Elis Regina parecia plena e absolutamente dona do seu nariz durante toda a entrevista. Ninguém jamais poderia imaginar, nem nos piores pesadelos, que duas semanas após gravá-la nós a perderíamos. E que perda! Pelo conjunto da obra: timbre, afinação, qualidade vocal e interpretação – Elis sempre estará no topo da lista das melhores cantoras do Brasil de todos os tempos.

O compositor Renato Teixeira aparece em vídeo para lhe fazer uma pergunta sobre o seu primeiro disco, e aproveita para agradecê-la de público por ter gravado a sua composição "Romaria" e por tê-la tornado um sucesso. Elis ri e comenta que sempre que vê o compositor lembra que nas conversas da família Teixeira consta que a casa do Renato está com as paredes levantadas às custas de "Romaria", esperando que ela grave uma outra canção para botar o telhado. "Eu não consigo olhar para o Renato sem morrer de rir dessa história", confessa a cantora.

Crédito: Fautos Ivan - 23.nov.73 A cantora Elis Regina durante apresentação
A cantora Elis Regina durante apresentação

Quanto ao repertório do seu primeiro disco Elis afirma: "Eu não sei se é bom, não sei se é ruim. Eu acho gostoso!". E relembra que nessa época a gravadora Continental queria que ela se tornasse a Celly Campello deles —já que Celly era sucesso na gravadora concorrente, a Odeon. "É uma coisa que me deixava um pouco nervosa", conta a cantora. "Não o fato de ser escalada para ser uma segunda Celly Campello, mas pelo fato de ser uma segunda pessoa", argumenta Elis.

E conclui com firmeza: "Se a perfeição é uma meta, eu tava à cata dela. E continuo à cata. Não sei se vou chegar lá um dia, mas eu queria morrer sendo eu...e eu não achava muita graça pintar no pedaço meio parasitando o trabalho de outra pessoa. Não acahava muita graça nisso, mas também não tinha muita escolha: 16 anos de idade e estava meio subentendido que a gravadora estava me fazendo um favor de me dar a chance de gravar aquele disco", comentou a cantora com ironia branda.

O jornalista Maurício Kubrusly era um dos auxiliares da entrevista e perguntou à Elis sobre a diferença entre gravar no inicio da sua carreira e naquele momento. "Eu acho que hoje é mais difícil se fazer um disco", respondeu a gaúcha. E ajuntou: "Porque a prepotência ganhou outros nomes: 'marketing', merchandising' —ganhou nomes ingleses, quando na realidade o que existe é prepotência e exacerbação... Não existe muita preocupação com criatividade, o que as grandes gravadoras querem é o dinheiro, o produto final desse negócio todo", afirmou Elis.

E arrematou: "Há poucas pessoas no país, pouquíssimas pessoas, que têm autonomia. Eu posso dizer que tenho autonomia porque eu sou muito mais impertinente e petulante que eles todos. Eu arrisco um bocado!". E depois de mais uma boa leva de bons e conscientes argumentos, Elis solta resgatando o seu melhor sotaque gaúcho: "Mas diz que não tá morto quem peleia, tchê! Tô aí, tu vês, né?".

O produtor musical Zuza Homem de Mello também participava da entrevista e começou a formar uma questão: "Então você foi inicialmente levada a ser uma imagem de outra...", quando Elis o corta com ar de sapeca: "Você está chegando onde eu não queria que você chegasse, José Eduardo!" —os dois riem muito. Elis continua, cheia de bom humor, enquanto acende um cigarro: "Você está indo para o milharal e eu já estou voltando com o fubá, meu bem!". Mais risos.

Mas Zuza completa a pergunta assim mesmo: "Quais cantoras você acha que foram levadas pelas gravadoras a ser à imagem da Elis?". Elis parou de rir e respondeu em outro tom: "Em primeiro lugar eu estaria tendo um comportamento absolutamente fora de ética. E a gente pode fazer muita brincadeira, muita bobagem, assim de forma irresponsável. Mas eu não vou fazer essa brincadeira...a brincadeira a gente faz off...off Broadway!", declarou a cantora.

Zuza muda completamente de assunto: "Você acha que diminuiram os compositores de qualidade ultimamente?". "Eu não sei se diminuíram os compositores de qualidade, mas os canais de expressão para serem usados esses compositores a cada dia que passa estão diminuindo mais", afirmou Elis. A cantora conta e encanta com sua franqueza, a espontaneidade e a consciência frente a sua profissão. Isso sem falar na sua forte personalidade: "tinhosa essa guria!", como se diz na sua terra natal. Talentosa em seu ofício como muito poucos.

Elis falou muito mais: de como é se tornar uma "estrela" aos olhos dos outros, de como é compartilhar o palco com os seus antigos ídolos e de sua irritação e sensação de injustiça pelo fato da mídia dar um espaço excessivo para falar bem ou mal dos artistas, porque assim "não está se falando do que interessa na realidade falar".

Para encerrar, Zuza questiona a cantora: "A obra que o cantor deixa é sempre o disco. Quando você faz o seu você pensa nisso, ou seja, que o disco é a única coisa que você está deixando para as gerações futuras, como a sua obra enfim: a Elis é aquilo que está naquele disco?". "Sim, eu penso assim...se bem que de vez em quando eu esqueço e faço umas bobagens", confidencia a cantora.

E retomando a palavra, compenetrada, Elis acrescenta: "É o único legado, né? A longevidade do disco é uma coisa que pode servir de testemunha de defesa como também pode lascar uma condenação histórica!", e volta a abrir aquele seu imenso sorriso de menina levada. Tão cheia de vida, cheia de energia...tão vibrante estava Elis Regina em sua última entrevista revisitada ontem no "Especial TV Cultura 45 anos".

Se é justo ou não reivindicar eu não sei, mas nem quero saber. O que sei é que ao vê-la assim tão vibrante e tão brilhantemente simples ao dominar o seu ofício e o seu indescritível talento, eu pensei: que pena...que pena que um ser da grandeza de Elis nos deixou tão cedo!

Renato Kramer

Natural de Porto Alegre, Renato Kramer formou-se em Estudos Sociais pela PUC/RS. Começou a fazer teatro ainda no sul. Em São Paulo, formou-se como ator na Escola de Arte Dramática (USP). Escreveu, dirigiu e atuou em diversos espetáculos teatrais. Já assinou a coluna "Antena", na "Contigo!", e fez críticas teatrais para o "Jornal da Tarde" e para a rádio Eldorado AM. Na Folha, colaborou com a "Ilustrada" antes de se tornar colunista do site "F5"

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