Zapping - Cristina Padiglione

Ingrid Guimarães fala pela primeira vez sobre trocar a Globo pela Amazon

Atriz foi incentivada a mudar de canal pelo amigo Paulo Gustavo, que já havia acertado sua ida para a plataforma

Ingrid Guimarães, atriz
Ingrid Guimarães, atriz - Jairo Goldflus/Divulgação
  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

São Paulo

Foram 19 anos de Globo sob termos de exclusividade, o que se garantiu por meio de sucessivas renovações de contratos longos. Agora, Ingrid Guimarães, 49 anos (e a toda hora ela nos lembra que vai fazer 50), está de crachá novo, o que representa um mundo de mudanças relevantes para o seu momento.

Em conversa com a coluna em uma de suas vindas a São Paulo, a goiana, moradora do Rio há mais de duas décadas, conta que a chance de dar vida a projetos próprios pesou bastante em sua troca de empresa. Ao lado de Lázaro Ramos, ela é a única atriz a acertar um contrato de exclusividade com um serviço de streaming, no caso, pela Amazon, com prazo de três anos.

O caso se distingue do de Camila Pitanga, que acertou acordo com a HBO Max, porque não implica ter cargo de criadora na empresa, como é o caso de Pitanga, embora lhe dê liberdade para desenvolver projetos próprios, da criação à finalização, o que vai além da condição de atriz.

Alvo de algumas das maiores bilheterias do cinema nacional, com a franquia "De Pernas Para o Ar", a atriz lembra as conquistas alcançadas ao longo dessas quase duas décadas, desde que chegou à Globo para o programa de Chico Anysio, quando mulheres no humor atendiam basicamente aos estereótipos da gostosa, da feia ou da burra.

E revela que foi Paulo Gustavo, grande amigo, morto em março passado em consequência da Covid, quem a incentivou a ir para o streaming, em nome da chance de dar seguimento a uma carreira bem-sucedida no cinema, como a dele.

O humorista já havia acertado sua ida para a Amazon, o que ocorreria assim que ele encerrasse uma série adaptada da franquia "Minha Mãe é Uma Peça" ao Globoplay, como já havia definido.

A seguir, Ingrid fala sobre esse momento pela primeira vez e se diz satisfeita com o aquecimento trazido pela indústria do streaming neste momento em que a Ancine (Agência Nacional do Cinema) está completamente paralisada, por inoperância do atual governo.

*

GLOBO

"Eu estava na Globo contratada havia 19 anos. Mas estava lá desde muito nova. Comecei com Chico Anysio, tinha 20 e poucos anos, fazendo o programa do Chico Anysio com novos comediantes. Fiz também a 'Escolinha do Professor Raimundo'. Fiz uma novela, 'Por Amor', papel pequeno, até que ganhei o meu programa com a Heloisa Perissè, o 'Sob Nova Direção'.

Na verdade, eu consegui realizar muitos dos meus projetos na GNT, foi uma grande parceira. Fiquei 10 anos na GNT, eu tinha um acordo que eu fazia um programa por ano. Fui uma das primeiras pessoas a montar um projeto na pandemia. A pandemia começou em março, em maio em já estava gravando, porque em abril a GNT disse: 'o seu programa é um dos únicos que cabem nesse momento'.

Fomos falar de consumo de internet, todo mundo 'Vai Além da Conta' no wi-fi, nos vícios de internet. E a gente nunca foi tão dependente de internet como na pandemia. Eles falaram que era o único programa que cabia para aquele momento."

PANDEMIA

"Eu estava tão mal de cabeça, que falei: 'vai ser bom pra mim' [gravar nova série para o GNT]. Era a meditação que eu não conseguia fazer, filho com escola online, marido em casa com camisa do Flamengo. Só o Adnet estava produzindo na época.

Fiz com três pessoas em casa, minha miga que era figurinista, maior paranoia, todo muindo vestido de astronauta, acabei fazendo sucesso, fiz duas temporadas. Quando fui fazer a segunda, já alugamos uma casa, mesmo assim cheia de protocolos.

Quando a gente achou que estava melhorando, ali pra outubro, hospitais de campanha fecharam, eu fechei outro [programa] com o GNT que era 'Modo Mãe', era um programa sobre mães que trabalham, tipos de mães workaholics que não abriram mão dos trabalhos por causa da pandemia, todo tipo de mãe, Kyra Gracie, até mães que deixavam os filhos, desde Fátima Bernardes até a mulher da plataforma de petróleo, que tinha que se ausentar por dois meses.

Até mães que conseguiam levar os filhos pro trabalho, desde Glória Pires, que levava as meninas pro set desde os 3 anos, até caminhoneiros que saem de madrugada. A gente ia na casa das mães com máscaras."

POTENCIAL ESTÁ NO STREAMING

"Eu sempre fui uma pessoa de muitos projetos, só que a Globo é uma empresa muito grande, eu não conseguia realizar tudo. Aí a GNT me deu essa chance. Com pandemia e a morte do Paulo [Gustavo], eu tive muito uma sensação de urgência. Tem três coisas: pandemia , fazer 50 anos no ano que vem e morte do Paulo: tive um sentimento de pressa, de realizar.
E aí aconteceu de o streaming começar a bombar e começarem a me procurar, os streamers todos, porque eu sou uma criadora, e o que streamer quer é conteúdo.

Eu perguntei pra eles: 'o que vocês querem?' E eles falarAm: ‘você'.
Eu falei, ‘nossa, é tudo o que eu precisava ouvir na minha vida hoje, na idade em que eu estou, no momento de carreira que eu estou'.

Eu saí superbem da Globo, foi uma conversa super amigável.

Não fui saída, é até mais difícil, eu fui superfeliz lá. Eu não tenho o que falar da Globo. Minha conversa com a Globo foi essa: eu digo: ‘gente, vocês conseguem realizar todas as minhas ideias nesse momento? E eles foram muito maravilhosos: 'a gente não tem como garantir que vai realizar todos os seus projetos'. Foi uma conversa muito sincera."

GOVERNO INFANTIL

"Meu foco é muito cinema. Os filmes só vão poder ser realizados agora pelo streaming. A Ancine virou um negócio que não tem nem entendimento, eu nem vou entrar nesse assunto porque eu sou muito inflamada pra falar sobre isso. Mas se estivessem conversando, reavaliando as coisas... Ok, tem um governo novo que pensa diferente, quer reavaliar as leis de como funcionam o incentivo, ok, isso é o que se faz numa coisa sensata e evoluída e que tem o mínimo de maturidade, mas esse governo é um governo é infantil.

Se você pensa diferente de mim, vamos tentar chegar a um acordo, vamos pegar cabeças pra pensar, de como a gente consegue não matar o cinema, não inviabilizar, sem que esse papo seja um papo violento de que a gente mama na teta do dinheiro público. O que é isso? O que divulgar e falar disso o tempo inteiro traz de benefício?

Existe um xingamento, um vilanismo com os atores, com o nosso meio, e nenhum diálogo. O que isso traz de resultado? Nenhum. Eu posso pensar diferente do governo ou do que quer que seja, desde que a gente pegue os líderes do cinema e conversemos, mas não existe um diálogo. Então, não está evoluindo

Não sei que teta é essa, a minha primeira peça eu tirei dinheiro do meu bolso. Depois foram entrando os patrocinadores que vierem oferecendo apoio."

CINEMA

"Não existe um ouvir, existe uma necessidade de vilanizar a nossa classe, o que foi construído até aqui, de esquerda ou de centro, são pessoas talentosas que construíram uma arte múltipla, olha o Brasil. Tem de tudo, tem rap, samba, teatro de comédia, autores regionais, a gente é muito rico, não pode matar e destruir o que fizemos até chegar aqui.

Se for falar de comédia popular, ela é responsável por uma parte do PIB do cinema brasileiro e do que ele gera de emprego.

O streaming virou uma solução pra fazer cinema no Brasil, isso é um fato. Quando eu saí da Globo, eu falei isso pra eles: gente, eu preciso de cinema, eu sou reconhecida como atriz de cinema, quando eu saio na rua, me perguntam: qual é o seu próximo filme?

Aí vem o streaming querendo acatar nossas ideias."

MULHERES NA COMÉDIA

"A gente ficou muito tempo na carreira tentando achar um lugar pra gente, principalmente a mulher comediante. Eu sou de uma geração que viveu a transição, comecei com Chico Anysio, onde existia uma separação das gostosas, o humor sexista, e das comediantes que entravam viravam sempre coadjuvantes.

Todos os redatores eram homens, os diretores eram homens, não tinha uma diretora mulher. Como é que você vai falar do humor feminino se não tinha uma mulher escrevendo, dirigindo? Você é a piada. Você tinha que ser a gorda ou a feia ou a gostosa.

Eu vivi a transição: saí desse lugar pra ter o meu programa na Globo com a Heloísa ]Perissè], a gente conquistou isso com 'Cócegas' [peça de teatro]. A gente precisou provar fora dali, ficou onze anos em cartaz.

Isso avançou com 'TV Pirata', o núcleo Guel Arraes, com 'Comédia da Vida Privada', botando a comediante mulher no lugar de mulher sem estereótipos. A Cláudia Raia fazia o Tonhão no 'TV PIrata', sendo que no Jô ela começou como a gostosa."

NOVOS PROJETOS

"Não vou poder falar muito do que eu vou fazer lá, mas tem a ver com conteúdo feminino. Trazer o olhar da mulher. Eu conversei com todos os streamers antes de ir pra lá. A Amazon tem uma coisa muito da diversidade. Necessidade de acompanhar os novos tempos, Da mulher sem estereótipos. Imagina, eles escolheram no Brasil, a única mulher que está contratada sou eu, que vai fazer 50 anos.

Até muito pouco tempo atrás, um ator criador só conseguia realizar seus projetos no teatro. Na internet, hoje também se consegue, mas não sou dessa geração que cria coisas pra internet,. Adoro rede social, tem o lado de conseguir comunicar rapidamente, mas eu não sou da geração de quem cria conteúdo pra rede social, sou de teatro.

Quando recebi esse convite, achei que era uma honra, eu fiquei muito em dúvida se eu ia, porque o Paulo Gustavo já estava lá, já tinha um acordo, e ele me botou muita pilha pra eu ir. E tinha um significado a gente ir junto, as duas maiores bilheterias do Brasil em comédia...

Ele ia fazer 'Minha Mãe é Uma Peça' em série para o GloboPlay e depois iria pra lá [Amazon]. Quando ele morreu, eu falei: 'meu Deus, e agora? Vou ou não vou?'"

CONTRATO ÚNICO

"É um contrato que, fora dos EUA, só tem lá, chamado 'over all', de exclusividade. A HBO não faz contratos exclusivos com atores. E gosto de visitar programas, não só como apresentadora, quase uma antropóloga da vida alheia, eu gosto de ser uma amiga da pessoa, e eu gosto também de estar no mesmo lugar do entrevistado.

Eu escolho temas para os meus programas que partam de alguma coisa que diga respeito a mim e que eu sei que é um inconsciente coletivo. Trabalho muito com a identificação. A identificação e a espontaneidade, algo que não era valorizado, agora virou ouro, e isso sempre fez parte do meu trabalho.

Pra mim, está sendo muito boa essa mudança.

Eu quero fazer um programa, como eu fazia na GNT, quero fazer série, que eu nunca fiz --só fiz seriados, programas semanais. Estou com essas ideias. E a Amazon é enorme. Não tem o ritmo da televisão aberta, que é mais rápido, mas é muito legal também porque é muito artesanal, a coisa de pensar roteiro, pensar todo mundo junto, tem tempo pra fazer as coisas.

É um modelo diferente. Tenho três anos pra fazer isso, e é um tempo que eles contratam a pessoa, não é a obra, isso faz toda a diferença. Eles acreditam que aquela pessoa já tem o conteúdo por si só, o currículo é tua carreira. Isso é uma coisa que eu achei muito interessante.

E vou fazer um podcast."


AMIGA DA GALERA

"Antes de eu sair da Globo, tive acesso a uma pesquisa sobre mim porque estávamos conversando sobre ter um programa lá. Eu atinjo muito vários tipos de público, desde adolescentes até pessoas que gostam de conteúdos mais mastigáveis, até mulher da minha idade se identifica. Não quero saber de ficar só no nicho feminino, quero o público que vai ver os filmes.

Era essa mulher que é amiga de todo mundo, a quem você pode contar qualquer segredo.

Eu moro do lado do Chico Buarque, na rua dele, aí eu estou aqui e ele está ali, todo mundo fica recatado com ele. Comigo, dão quase tapinhas nas costas, porque o humor traz essa liberdade.

Minha maior luta no streaming é tentar popularizar mesmo. Eu quero é trazer essas pessoas populares pra cá, e a Amazon é baratinha [R$ 9,90]. Ao mesmo tempo, você pode ser popular e falar de assuntos um pouco mais picantes, sem o filtro que a TV aberta tem.

Eu estou chegando, estou tipo escola nova, primeiro dia de aula, tentando fazer todas as frentes. É claro que o podcast é uma coisa muito pessoal, eu tenho que falar dos assuntos que me comovem, com amigos convidados que possam falar do que eu também penso."

GENTE COMO A GENTE

"Por causa do evento internet, as pessoas de verdade vão ter um espaço muito grande. Antigamente, as capas de revistas produziam aquelas mulheres, e eu fazia papéis pequenos, elas tinham maquiadores próprios, eu pensava: 'eu jamais vou estar nesse lugar, não combina com meu estilo.'

'Eu não vou me encaixar nunca nessas pessoas bonitas', pensava. E aí você olha, salto! O mercado não quer mais essa mulher impossível, como mostra a inclusão de tipos físicos, negras, gordas, indígena, coreana, em todas as campanhas você vê que tudo mudou.

Eu comecei a fazer publicidade muito mais depois de 40 anos... Quando eu comecei a fazer publicidade, era engraçado, tinha até uma piada dos meus empresários: era pílula para ir ao banheiro, papel higiênico, pato purific, eram coisas dedicadas de falar e então chamavam pessoas do humor pra dar uma leveza no assunto. Dor de barriga...

O humor também virou um protagonista, e a mulher no papel de ser engraçada, bem vestida, eu acho que o humor foi mudando junto com o papel da mulher na sociedade.

Tenho certeza de que estou no streaming e fui chamada porque eu estou nesse lugar."

Eu quero falar de questões da mulher que faz 50 anos, que são pouco faladas, que a gente não fique só fazendo a mãe da filha adolescente."

LIBERDADE

"Estou muito animada com esse modelo do streaming, onde você é muito dono de si. Você é quem escolhe a sua produtora, pode escolher com quem quer trabalhar, isso é uma dádiva. Você escolhe a produtora com quem você quer trabalhar, a diretora com quem você quer trabalhar, tudo é feito de comum acordo com a empresa, que é grande.

É claro que eu vou acabar participando de coisas que eles já têm."

Zapping - Cristina Padiglione

Cristina Padiglione, 50, é jornalista e escreve sobre assuntos relacionados à televisão. Ela cobre a área desde 1991, quando a TV paga ainda engatinhava. Ela passou pelas Redações dos jornais Folha da Tarde (1992-1995), Folha (1997-1999) e O Estado de S. Paulo (2000-2016), entre outras publicações. Ela também tem o blog Telepadi (telepadi.folha.com.br), hospedado no site da Folha.

Final do conteúdo
  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Comentários

Ver todos os comentários Comentar esta reportagem