Zapping - Cristina Padiglione

Glória Maria revela que Ismael Ivo a encorajou a vencer o preconceito

TV Cultura exibe documentário sobre o bailarino, morto em consequência da Covid

O dançarino e coreógrafo Ismael Ivo em foto feita para o especial Identidade Negra, em 23.set.2019AÇÃO DO UOL? - Diego Padgurschi/UOL
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Primeira profissional negra a ocupar a bancada de noticiários da TV de maior alcance do país, Glória Maria gravou um depoimento sobre a inspiração que a trajetória de Ismael Ivo lhe trouxe. A jornalista e apresentadora da Globo é uma das personalidades ouvidas no documentário inédito "Ismael Vivo", produzido pela TV Cultura, que vai ao ar neste sábado (25), às 22h.

Bailarino e coreógrafo negro que teve de fazer carreira no exterior para se notabilizar, ele assumiu a direção do Balé da Cidade em 2017 e morreu em abril deste ano, em consequência da Covid-19, aos 66 anos. E é impossível contar a trajetória deste profissional sem passar pelas barreiras que o racismo impõe a pessoas negras no Brasil.

"É muito difícil permitirem que nós, pretos, consigamos ir longe, além daquilo que estabeleceram pra nós", diz Glória.

"Eu já estava há algum tempo, alguns anos, vivendo de vencer preconceitos, obstáculos, por ser negra e mulher", disse Glória, que o entrevistou em 2000, como mostra o documentário. "E eu falei: se ele tem esse poder dentro de tudo que ele teve, de enfrentar e vencer, eu tenho que subir um degrau a mais."

"Eu, graças a Ismael Ivo, subi um degrau a mais na minha coragem", disse Glória, que continua: "Aquele deus, de quase 2 metros de altura, com aquela cor que não era negra, era uma cor, como dizia o Luiz Melodia, 'meu nome é Ébano', e quando eu vi o Ismael eu não fiquei não impactada, eu fiquei emocionada: uma força, um poder. Eu falei, ele não é um bailarino, ele é um Deus", diz.

Com direção do jornalista, ator e apresentador Alberto Pereira Jr., também negro, o doc alcança a dimensão certa para abordar a questão do preconceito, de uma forma que um branco não faria melhor.

O racismo enfrentado por Ismael está em outros relatos do programa e mostra como o bailarino ria com elegância da segregação, sem permitir que isso o atropelasse.

A trajetória do biografado está em cena por meio de imagens de arquivo, entrevistas suas e outros depoimentos inéditos de quem trabalhou com ele, como Paulo Betti e Jarbas Homem de Mello, o produtor musical João Marcello Bôscoli, o gestor cultural e arquiteto Ricardo Ohtake, o presidente do Sesc, Danilo Santos de Miranda, a apresentadora Adriana Couto e José Adão, do Movimento Negro Unificado.

O filme é conduzido pelo olhar da jovem artista do Rio de Janeiro Merícia Cassiano, de 23 anos, que ao longo da edição investiga e descobre a história de Ismael Ivo.

Alberto começou a produzir o filme a partir da morte de Ismael, há apenas cinco meses, realizando uma edição primorosa para retratar a história do brasileiro de origem humilde que conta ter passado fome em Nova York.

A edição nos leva aos locais onde Ismael atuou, como o Balé da Cidade de São Paulo e o Ballet Paraisópolis, que ele levou ao Theatro Municipal. O programa ouve ainda colegas de profissão, como Ingrid Silva (Dance Theater of Harlem); Karl Regensburger (ImPulsTanz), Meinrad Huber e Francesca Harper, apresentando projetos de formação que o dançarino idealizou e de que ele participou, além de entrar na intimidade de sua família.

São 50 minutos de uma grande história. A presença de Ivo no documentário se dá também por meio de uma narração em primeira pessoa, na voz do próprio, sobre fatos e histórias de sua vida, com falas retiradas de muitas entrevistas. Uma câmera subjetiva passeia pelos espaços em que transitou e projeções holográficas o revelam em muitos momentos da edição.

As imagens contam com registros raros do acervo da TV Cultura dos anos 1980 e 1990 e bastidores da preparação do filme "Objetos Perdidos", de Luiz Fernando Carvalho, em pré-produção, e portanto inédito, cujo elenco conta com Ismael.

Ismael Vivo
TV Cultura: Sábado (25), às 22h

Zapping - Cristina Padiglione

Cristina Padiglione, 50, é jornalista e escreve sobre assuntos relacionados à televisão. Ela cobre a área desde 1991, quando a TV paga ainda engatinhava. Ela passou pelas Redações dos jornais Folha da Tarde (1992-1995), Folha (1997-1999) e O Estado de S. Paulo (2000-2016), entre outras publicações. Ela também tem o blog Telepadi (telepadi.folha.com.br), hospedado no site da Folha.

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