Cena da série animada

Cena da série animada "Maya e os 3 Guerreiros", da Netflix Divulgação

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Laura Zornosa
The New York Times

Comece por "O Senhor dos Anéis", mas transporte a história para a América Central. Tempere a trama com referências à cultura pop. O resultado será "Maya e os Três Guerreiros".

Concebido originalmente por seu criador, Jorge Gutiérrez, como uma trilogia para o cinema, "Maya e os Três Guerreiros" começou a tomar forma em 2018, quando executivos da Netflix o convidaram a propor uma ideia que ele amava, mas não acreditava que fosse possível produzir em qualquer outro lugar.

"O que eu propus foi produzir três filmes em sequência sobre uma princesa guerreira centro-americana que salva o mundo", disse Gutiérrez. Reimaginada como uma série de animação em nove episódios, a ideia chegou à Netflix no último dia 22, com um elenco vocal repleto de astros latinos, entre os quais Zoe Saldaña (Maya), Diego Luna (Zatz, o príncipe dos morcegos), Gael García Bernal (os irmãos Jaguar), Stephanie Beatriz (Chimi) e Rita Moreno (Ah Puch).

Por mais singular que pareça, "Maya e os Três Guerreiros" é parte de uma tendência recente que também inclui os filmes "A Jornada de Vivo", que saiu em agosto, e "Encanto", que deve ser lançado em novembro. Os três são histórias de animação sobre latinos, criadas por latinos. Todos destacam a importância das mulheres e das meninas em suas comunidades, e buscam combater o histórico de Hollywood quanto a criar personagens não brancos demasiadamente heroicos ou irrepreensíveis (isso quando os cria).

E os três trabalhos pretendem encantar e deslumbrar os espectadores com sua narrativa e sua estética, mas ao mesmo tempo honrar culturas distintas e criar retratos mais complexos dos latinos –em parte, ao ressaltar suas imperfeições.

"Quando você é representado em um só filme e por um só personagem, o personagem precisa ser tudo para todas as pessoas", disse Rebecca Perez, uma das animadoras de "Encanto". "E isso não é justo, porque ninguém é perfeito. Todos temos nossos pedaços defeituosos e nossos pedaços perfeitos".

Para criar os heróis de "Maya e os Três Guerreiros", Gutiérrez, que também dirigiu a série, recebeu um conselho parecido de sua mulher, a animadora e ilustradora Sandra Equihua. (Gutiérrez cresceu na Cidade do México, e Equihua é de Tijuana, México.) Equihua desenhou as principais personagens femininas da série, e serviu como consultora criativa do programa.

"No começo, como roteirista homem, minha ideia era a de que eu nunca tinha escrito uma protagonista mulher, e precisava garantir que ela fosse perfeita", disse Gutiérrez em uma entrevista em companhia de Equihua. Os dois estavam em Los Angeles. "E ela me deu uma bronca na hora e disse que eu estava sendo ingênuo, e que a falta de defeitos faria da protagonista uma personagem unidimensional. Os personagens masculinos todos eram cheios de defeitos, e isso os torna mais interessantes".

Equihua lembrou a Gutiérrez que ele gostava de arte folclórica por causa das imperfeições, e o pressionou a tratar sua protagonista exatamente da mesma maneira. Por isso, há momentos em que Maya tropeça. Faz coisas ruins, mesmo que por bons motivos.

Como sociedade, "estamos percebendo que existem mais camadas do que ser a pessoa que reclama, a pessoa que se queixa, ou a pessoa toda perfeitinha", disse Equihua. "Há mais camadas em nós, meninas e mulheres, e queremos garantir que Maya seja tão humana quanto possível".

Parte dessa humanidade é puramente física. Equihua desenhou Maya para que ela se parecesse quase com um vaso: ancas largas, porte corpulento e pernas fortes. (Afinal, ela é uma princesa guerreira). A ilustradora tenta basear suas personagens na aparência real das mulheres latinas.

"Nem todas nós temos coxas grossas, ancas largas, essas coisas, mas muitas de nós sim", disse Equihua. "E é bom celebrar esse fato e ver que existe uma diversidade de formas, porque nem todas nós temos pernas muito, muito, muito longas ou cinturas muito, muito, muito finas. E é glorioso poder vê-la correndo por toda parte, sempre forte".

Em lugar de ter uma festa tradicional de 15 anos ("quinceañera"), Maya embarca em uma aventura delineada por uma profecia tradicional. Acompanhada por três grandes guerreiros, ela precisa lutar contra os deuses para salvar sua família, seus amigos e a si mesma.

"Um dos temas da série são os sacrifícios que as latinas precisam fazer para que suas famílias possam continuar", disse Gutiérrez. "Elas são os pilares que sustentam o continente, e muitas vezes esse é um trabalho ingrato".

"Encanto", filme da Disney que chega aos cinemas brasileiros em 25 de novembro, conta a história da família Madrigal, que vive em uma cidade encantada nas montanhas da Colômbia. A matriarca da família, Abuela (María Cecilia Botero), chegou lá fugindo da violência, e no caminho perdeu seu marido.

O encanto, que protege Abuela contra o mal, também confere um dom mágico a cada criança em sua família –exceto Mirabel. Mas quando ela percebe que o encanto mesmo está em perigo, Mirabel decide batalhar para salvar sua família.

Perez, uma das animadoras do filme, disse que seus avós cubanos chegaram aos Estados Unidos mais ou menos da mesma maneira, carregando só as malas e abrindo mão de tudo mais que possuíam.

"Tomei uma decisão consciente de participar de todas as reuniões e de ser autenticamente eu", disse Perez em uma entrevista por vídeo de Burbank, Califórnia. "Mesmo que isso significasse passar algum desconforto –tanto meu desconforto pessoal quanto o causado à pessoa com quem eu estivesse falando, fosse um diretor ou produtor, quando eu expressava meus pontos de vista".

"Sempre respeitosamente, mas a única maneira de chegar a um bom lugar é superar os obstáculos. Só então você terá conversações honestas", ela disse.

Talvez sem perceber, Perez espelhou a experiência de Mirabel Madrigal, a protagonista do filme, uma menina de óculos. Em "Encanto", o conflito só se resolve por meio de conversação honesta entre Mirabel e Abuela, o que ajuda a superar a distância entre as gerações em meio a uma nuvem de borboletas douradas. O resto da família Madrigal apresenta uma ampla variedade de tipos de corpo, tons de pele, cores de cabelo, sotaques e poderes mágicos.

Como "Encanto", "A Jornada de Vivo", filme da Netflix, inclui detalhes que o telespectador médio pode não perceber. Alguém que seja parte da cultura relevante, porém, com certeza os perceberá de imediato. Em "Encanto", Mirabel aponta com os quadris para mostrar um presente de um primo, um gesto colombiano clássico. Em "A Jornada de Vivo", uma mãe americana de origem dominicana tem no pára-choque do carro um adesivo com a bandeira dominicana, delineada no contorno do país.

Carlos Romero, um dos artistas que trabalharam em "A Jornada de Vivo", é descendente de dominicanos e panamenhos, e amou o detalhe do adesivo –era algo que ele via com frequência, quando criança no Bronx.

"O importante é absorver tudo isso e garantir que estejamos respeitando cada cultura", ele disse. Também foi importante, acrescentou, garantir que "pessoas desses diferentes países possam assistir ao filme e também sentir orgulho –sentir que algum personagem é exatamente como uma pessoa que eles conhecem, ou algum diálogo é algo que a pessoa mesma diria".

"A Jornada de Vivo" acompanha as improváveis aventuras de um jupará chamado Vivo (Lin-Manuel Miranda), que é cubano e músico, e de uma menina chamada Gabi (Ynairaly Simo), uma enérgica pré-adolescente americana de origem dominicana. Quando os dois fogem de casa para entregar uma carta de amor que passou tempo demais extraviada, a mãe de Gabi, Rosa (Saldaña), inicialmente se preocupa. Depois, ela se irrita.

Havia muita preocupação no set, disse Romero, com relação à maneira pela qual as emoções de Rosa seriam retratadas. Será que ela estava sendo mostrada como zangada demais, especialmente se considerarmos que a personagem é retratada nas telas como uma mulher dominicana comum? Romero compreendia o desejo de evitar o estereótipo da mulher latina colérica, disse, mas considerava que o retrato fosse bastante realista: qualquer mãe sairia furiosa pela cidade em busca de uma filha perdida.

"Precisamos mostrá-los como personagens dimensionais, que tenham medo, ansiedade por conta de seus filhos, e orgulho quando esses filhos se saem bem", disse Romero. "Não deveríamos ter medo de lidar com essas emoções, porque os latinos são pessoas dimensionais que devem ser retratadas de forma realista nas telas".

"E quanto mais desses retratos conseguirmos apresentar", ele acrescentou, "menos teremos de nos preocupar com mostrar personagens em nossos filmes como se fossem perfeitos".

Traduzido originalmente do inglês por Paulo Migliacci

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