Cinema e Séries
Descrição de chapéu The New York Times Cinema

Josh O'Connor, o Charles de 'The Crown', nem ligava para a monarquia até se tornar príncipe

'Pensei que não teria coisa alguma a acrescentar. A família real não me interessa', diz

Josh O’Connor em sua casa em Londres NYT

Kathryn Shattuck

Muito já foi dito sobre as proporções monárquicas das orelhas de Josh O’Connor. Como as do príncipe Charles, que ele interpreta na série “The Crown”, elas são bem saltadas. Mas não bastam orelhas para fazer de alguém o herdeiro do trono. A chave, concluiu o ator, estava na postura.

Ao estrear no papel na temporada três, interpretando Charles quando o príncipe era aluno da Universidade de Cambridge, O’Connor caminhava de cabeça erguida. Mas o ator passou a retratar o estado emocional do príncipe, depois disso, por meio de uma postura cada vez mais cabisbaixa, com a cabeça pendendo para a frente, como se o peso das expectativas da Casa de Windsor corroesse o contentamento de Charles.

E no momento em que mamãe –Olivia Colman como a rainha Elizabeth – coloca o diadema na cabeça de Charles, na cerimônia de sua investidura como príncipe de Gales, o espectador não consegue evitar sentir dúvidas sobre a força dele para carregar esse fardo.

“Tem a ver com o peso cada vez maior que pende sobre seus ombros; quanto mais esse peso cresce, mais seu pescoço parece pender”, disse O’Connor. “No final do processo, ele parece patético, um homem amarfanhado." ​

E as coisas pioram ainda mais na temporada quatro de “The Crown”, disponível na Netflix, que mostra um Charles menos simpático, agora taciturno e resmungão quanto ao seu casamento com a princesa Diana (Emma Corrin), que rouba a atenção das câmeras, e guardando um anseio nada secreto por Camilla Parker Bowles (Emerald Fennell), o grande amor que ele aparentemente nunca foi capaz de deixar para trás. (E que presumivelmente se casará com Charles em alguma temporada futura, como aconteceu na vida real em 2005.)

Para O’Connor, 30, a temporada representa o fim de sua passagem por um papel que ele na verdade não procurou. O ator se descreve com progressista de esquerda, e se recusou a fazer o teste para o papel de Charles, quando recebeu o primeiro convite. “Pensei que não teria coisa alguma a acrescentar, nesse papel”, ele disse, em uma conversa por vídeo, de Londres. “Sou republicano. A família real não me interessa”.

Mas ele terminou aceitando o papel, e Peter Morgan, criador e roteirista da série o presenteou com uma cena na qual Charles se compara a um personagem do escritor Saul Bellow em “Dangling Man”, que aguarda com ansiedade a convocação para o exército porque ir à guerra daria significado à sua vida.

“E ele em seguida diz, em resumo, que está para todos os efeitos esperando pela morte da mãe a fim de que sua vida ganhe significado”, disse O’Connor. “Li aquela fala e pensei que lá estava alguma coisa com que eu podia trabalhar."

A nova temporada vê o príncipe cada vez mais exasperado com as circunstâncias em que vive, tanto em termos do casamento infeliz que lhe foi imposto quanto com relação à sua insignificância continuada no reino. “Estávamos narrando um Charles que não é ouvido, um Charles sem voz”, disse O’Connor. “E essa é a beleza da coisa, aí está o problema dele. Ele não sente que as pessoas o ouvem."

Charles não está imaginando coisas. Como sua mãe o informa gelidamente em uma conversa arrasadora, ninguém quer ouvir a voz dele. Ninguém. O’Connor e Colman costumam brincar dizendo que todas as cenas que fizeram juntos são variações do mesmo, e triste, tema. “Charles entra na sala, e diz que precisa falar com a mãe; e ela responde que não. Ele vai embora”, explicou o ator. E isso se repete, e se repete.

Como rainha, disse Colman, “meu trabalho é ser muito forte, mas era bem difícil para mim não lhe dar um abraço”. Nenhum dos dois atua seguindo o “método”, uma teoria de interpretação que dispõe que os atores devem levar os traços de seus personagens para a vida real. “No segundo em que o diretor dizia ‘corta’, nós logo íamos tomar um chá juntos, aproveitar os biscoitos disponíveis na mesa dos adereços. Preferíamos conversar e rir juntos."

“Ele é um dos mais belos atores com quem contracenar”, acrescentou Colman. “É um dos grandes da profissão, em minha opinião”.

O’Connor teve uma infância e adolescência infeliz, como segundo de três irmãos em Cheltenham, uma cidade de turismo nas cercanias da região dos montes Cotswolds. Ele estudou na Old Vic Theatre School, em Bristol, cujos antigos alunos incluem dois de seus ídolos, Pete Postlethwaite e Daniel Day-Lewis. “Talvez fosse uma sintonia perfeita, não sei”, disse O’Connor. “Mas amei a escola”.

Não muito depois de ele concluir o curso, começaram a surgir pequenos papéis de TV, nas séries “Peaky Blinders” e “Ripper Street”. Por fim ele conseguiu um papel principal, como o filho mais velho em “The Durrells”, um drama de época da ITV e Masterpiece, sobre uma família britânica que se muda para a ilha de Corfu, na Grécia, na década de 1930.

NOVOS PROJETOS

Mas o salto real para o sucesso veio para O’Connor em “God’s Own Country”, o longa de estreia de Francis Lee, em 2017. O’Connor está quase irreconhecível como Johnny Saxby, um gay beberrão e soturno que trabalha na fazenda da família em Yorkshire e cujo coração de pedra é derretido por um trabalhador romeno imigrante.

Lee decidiu convidar O’Connor para um teste depois de ver uma foto do ator. “Gostei demais das orelhas dele”, disse o diretor. Mas o vídeo enviado por O’Connor parecia preocupante. “Ele ofereceu retrato incrivelmente brilhante de um homem difícil e emocionalmente reprimido, e achei que ele estava interpretando a si mesmo”, disse Lee. “Isso me preocupou um pouco”.

Quando os dois por fim se encontraram, Lee ficou chocado “porque quem chegou foi um menino incrivelmente divertido, polido, de classe média, um milhão de milhas distante do personagem que interpretaria”, disse o diretor. “Ele é um daqueles raros atores que muda completamente de papel a papel”.

O’Connor se preparou por imersão, trabalhando por um mês em uma fazenda perto da região de West Yorkshire em que Lee cresceu, e continuou a ajudar ovelhas em trabalho de parto, entre as tomadas das cenas do filme.

“Estávamos filmando uma cena e, depois do final, chegava um furgão com John, o verdadeiro fazendeiro, e ele dizia que ‘Josh, temos um cordeirinho nascendo’”, contou O’Connor. “Aí cuidávamos do parto do cordeiro, eu lavava as mãos e alguém gritava ‘ação’, e o trabalho como ator recomeçava”. Segundo O’Connor, ele participou dos partos de 150 cordeiros, ao todo.

“No começo eu era um lixo como fazendeiro”, acrescentou, “e no final não acho que eu tenha me tornado um ótimo fazendeiro. Mas o John, o fazendeiro de verdade, de quem me tornei muito amigo, disse que um dia pode ser que me dê um emprego”.

“God’s Own Country” valeu a O’Connor um British Independent Film Award como melhor ator, em 2017. Dois anos mais tarde, ele voltou a conquistar o prêmio, por “Only You”, sobre um casal que enfrenta problemas por infertilidade.

O’Connor estreou em “The Crown” no final de 2019. Morgan não se lembra de ter considerado qualquer outro ator, para essa encarnação de Charles –ou de ter reparado nas orelhas de O’Connor– , embora imagine que isso deve ter acontecido.

O que o atraiu, em lugar disso, “foi a sensibilidade dele, e o fato de que ele era complicado mas despertava afeto, e me deixava sempre intrigado”, disse Morgan. “E assim que ele começou a ler algumas cenas para nós, a escolha se tornou óbvia. A lista de candidatos ao papel só tinha um nome”.

O’Connor assistia a “The Crown” para acompanhar o trabalho de sua boa amiga Vanessa Kirby, que interpretou a princesa Margaret nas temporadas um e dois. “E me tornei fã leal do programa”, ele disse. Embora tenha dificuldades para enquadrar sua defesa de uma sociedade sem classes sociais à família real, ele não vê “The Crown” como um trabalho cujo objetivo seja ressaltar o glamour da família, a despeito de todo o esplendor e pompa.

“O que Peter faz é remover tudo isso”, disse O’Connor. “A série trata de seres humanos que enfrentam problemas, têm relacionamentos complicados com seus pais, com o poder, com a política. Esse é o suco”.

“Mas acredito que seja possível ter crenças como as minhas e ainda assim sentir grande respeito e afeição, e mesmo amor, por essas pessoas. Creio que a rainha é uma mulher extraordinária. Vezes sem conta, os homens que estiveram no poder fracassaram, e temos essa mulher que sempre esteve no poder, sempre se manteve coerente, sempre cumpriu seu dever, sempre manteve sua postura apolítica”, diz O’Connor.

“Nesse sentido, tenho imenso respeito por ela –e por Charles, para ser honesto. Charles, porém, está em outro nível, o de uma pessoa que passou literalmente a vida toda esperando por um momento que ainda não veio”, disse o ator.

Mas o momento de O’Connor parece ter chegado. Ele recentemente concluiu a rodagem de “Mothering Sunday”, dirigido por Eva Husson e baseado no romance curto de Graham Swift, trabalhando com Colman, Colin Firth e Odessa Young. E está ensaiando para uma produção de “Romeu & Julieta” pelo National Theater, com Jessie Buckley (“I’m Thinking of Ending Things”), que será registrada em vídeo e exibida pelos canais de TV PBS e Sky Arts no segundo trimestre do ano que vem.

“Ele é um velhaco”, disse Buckley. “Chega com aquele brilho nos olhos, trazendo a dose certa de perigo. Você se sente segura mas ao mesmo tempo sabe que vai haver um constante desafio, um ator provocando o outro a saltar para o abismo”.

Na conclusão da temporada quatro de “The Crown”, é exatamente isso que O’Connor faz: desafiado por Morgan, em certo sentido, ele abandona a fachada polida de Charles e estoura em uma cena com Diana, falando de Camilla. “Muitos dos Windsor são famosos pelo temperamento explosivo”, disse Morgan. “E eu o instruí a deixar os limites de lado, mostrar a raiva, mostrar o coração”.

Ele acrescentou: “É devastador, é doloroso e expõe a dualidade do que sentimos sobre Charles: ao mesmo tempo em que está sendo inacreditavelmente cruel com a mulher com quem se casou, está sendo incrivelmente leal e fiel à mulher que realmente ama. Acho que Josh captura isso brilhantemente”. A cena é a favorita de O’Connor na temporada.

“Se o começo foi a investidura”, ele disse, “então o final sempre será a dissolução do casamento, o momento em ele diz” –na verdade, grita, com os músculos do pescoço tensos– que “me recuso a continuar a arcar com a culpa por essa aliança grotesca e desastrosa”.

“A linha diz tudo, para mim”, acrescentou O’Connor. “Foi minha maneira de me despedir de Charles. Meu modo de dizer que, ótimo, fiz meu trabalho, e agora adeus."

The New York Times

 Tradução de Paulo Migliacci

Final do conteúdo

Comentários

Ver todos os comentários Comentar esta reportagem