Carnaval

Rainha da Vila Maria e musa da Beija-Flor, Savia David diz que nunca se sentiu objetificada ou subestimada

Mocotó e feijoada estão liberados na dieta da advogada, fisiculturista e mãe

Savia David, rainha de bateria da paulistana Unidos de Vila Maria

Savia David, rainha de bateria da paulistana Unidos de Vila Maria Márcio Farias/Divulgação

São Paulo

Advogada, fisiculturista, mãe de Laura, 6, e Lorenzo, 5, e rainha de bateria. Savia David, 31, que acumula todas essas responsabilidades na agenda, desfila no Carnaval de São Paulo à frente da Unidos de Vila Maria, em seu terceiro ano como rainha, e também como musa da Beija-Flor, no Rio de Janeiro, onde mora com a família.

Em entrevista ao F5, David conta os segredos para equilibrar a rotina, como cuida da alimentação, do corpo e ainda debate sobre questões como machismo e preconceito racial.

"Eu sou mulher, sou negra e sou do Carnaval. Infelizmente, no Brasil, isso já é motivo de sobra para sofrermos preconceitos. Na escola dos meus filhos, por exemplo, já chegaram a sugerir que eu fosse a babá, por eles serem brancos e eu negra."

Leia trechos da entrevista com Savia David.

Como você lida com a responsabilidade de estar à frente da bateria de uma grande escola de São Paulo e ainda desfilar por uma das maiores agremiações do Rio? Como é sua relação com as duas comunidades?
Tenho a Vila Maria como um presente na minha vida e, por isso, me dou por inteiro quando estou com a minha comunidade. Tenho o retorno desse carinho que, graças a Deus, é recíproco. Por isso não meço esforços em fazer o meu melhor. A responsabilidade é imensa. Quero sonhar o sonho da minha escola e lutar pelo nosso título. 
Já na Beija-flor, eu sou musa. É diferente. Acho a responsabilidade menor, me cobro menos, apesar de vestir a camisa e buscar fazer sempre o melhor com essência e respeito aos que assistem e a minha comunidade. Sou da Beija-Flor desde 2008. Entrei na escola como passista e depois que me casei, em 2010, por uma escolha minha, fiquei um tempo sem desfilar, mas sempre frequentava os eventos e ensaios.
Depois do nascimento do meu segundo filho, eu retornei aos desfiles em 2016. Houve uma grande mudança ali, a comunidade me tratava de maneira distante e desde o ano passado vejo que agora eles me reconhecem novamente como "chão da comunidade". Estou muito feliz por isso! Vivo um momento mágico, pois dou e recebo muito carinho de todos da escola. Hoje sou madrinha da torcida organizada da Beija-flor e me sinto muito honrada, em representar o torcedor, o povo.

Como faz para conciliar a agenda dos dois carnavais?
Não é muito fácil essa ponte aérea, porque além do carnaval, também cuido da minha família, e eles são minha prioridade. Então é uma correria absurda, mas por um período curto, o que dá para programar. Sou metódica, então tudo é pensado antes: roupas, treinos, alimentação... Não dou conta sozinha, mas tenho minha equipe, pessoas pelas quais sou grata por caminharem comigo.

Você muda sua rotina de alimentação, sono e exercícios nessa época do ano?
Sim, completamente! A alimentação não tem como ser tão regrada devido a inconstância dos lugares e horários. Quase não durmo, isso é o mais complicado para mim, porque gosto de dormir e acordar cedo e nessa época é impossível devido os ensaios. Quase não consigo treinar também. É muita correria e ficar sem dormir prejudica.
Procuro compensar com uma boa alimentação que não seja restrita, mas sim equilibrada. A minha preparação para o Carnaval, na verdade, é muito mais tranquila do que uma preparação para o fisiculturismo, em que geralmente eu tenho que perder muito peso, com uma dieta muito restritiva na resta final da competição, na qual tenho que chegar bem seca, com o percentual de gordura muito baixo para mostrar bem a intensidade muscular.
E aí, eu tenho que fazer uma quantidade maior de exercícios, não perder noites de sono. Para o Carnaval, gosto de apresentar uma proposta um pouco diferente, com um corpo mais volumoso, o que vai na contramão de todo esse preparo para o fisiculturismo. Acabo me permitindo, mesmo, comer um chocolate, um mocotó, uma feijoada, que são comidas que eu gosto bastante.

Pode contar um pouco sobre as fantasias que vai usar?
Ainda não posso revelar muita coisa, mas o que posso adiantar, por enquanto, é que minhas duas fantasias tem uma semelhança, no sentido de ambas terem muito a ver com a Savia, no que diz respeito a minha essência. No meu eu guerreira.

Qual a expectativa das duas escolas para este ano?
Ambas as escolas estão com “sangue nos olhos”, como costumamos dizer. A Vila Maria tem sede de campeonato, pois nunca fomos campeões e estamos cada vez mais próximos. Já a Beija-Flor, está engasgada com a colocação que não foi boa no ano passado [agremiação terminou na 11ª posição]. Isso, no meu ponto de vista, é ótimo, pois motiva a comunidade a entregar o seu melhor na avenida.

Por trabalhar com o corpo e estar sempre em exposição, já se sentiu alguma vez desconfortável em relação a isso? Passou por alguma situação de assédio?
Nunca me senti objetificada ou subestimada... Acredito que, pelo meu jeito firme de ser, acabo inibindo esse tipo de atitudes das pessoas. Além de ser grande, tenho um jeito bruto, o que colabora. Mas sei que isso acontece com muitas mulheres no Carnaval. O que é uma realidade muito triste. Eu posso sim ter um corpo em forma, ser atraente e sambar na avenida mostrando todos esses atributos, e isso não me diferencia de nenhuma outra mulher, ou pessoa que seja. Sou muito além disso. A Savia da avenida, é a mesma Savia advogada, atleta fisiculturista, educadora física, mãe e esposa. Tenho conteúdo.
Estar ali no samba, não me desqualifica, só ressalta a liberdade que a mulher tem para fazer e ser o que ela quiser. O assédio, infelizmente, sempre vai existir, é um mal enraizado na cultura brasileira extremamente racista. Mas busco manter minha postura e me faço de desentendida. Sei que perco muitas oportunidades por ser casada e não dar brechas, mas não é algo que faça sentir inferior. Esta é a minha essência.

Já passou por alguma situação de racismo durante algum desfile ou enquanto estava trabalhando? Acha que a sociedade brasileira tem avançado em relação a essa pauta?
Sim, já passei por preconceito inúmeras vezes. Eu sou mulher, sou negra e sou do Carnaval. Infelizmente, no Brasil, isso já é motivo de sobra para sofrermos preconceitos. Na escola dos meus filhos, por exemplo, já chegaram a sugerir que eu fosse a babá, por eles serem brancos e eu negra. Também ouço constantes insinuações por ser casada com um homem branco e mais velho que eu. Mas essas pessoas que me julgam não sabem que tenho três faculdades, tenho o meu trabalho e curto minha independência.
Não deixo que nada disso me defina... A gente precisa entender a essência de cada pessoa, seja ela qual for. Observar esse espaço e agregar mais pessoas que visam contribuir com tudo isso é muito bom. Tenho buscado muito esse processo de desconstrução desses valores sociais.

Como é sua rotina quando não está se dedicando ao Carnaval? Tem algum hobby especial?
Costumo dizer que a minha vida é uma novela. Sempre tem um capítulo diferente. Eu sempre estou inventando alguma coisa, sempre estou inovando e não gosto de rotina.
Eu também estou sempre muito envolvida com as questões de desenvolvimento dos meus filhos, como escola, as atividades normais do dia a dia. Nas festas dos coleguinhas, curto ajudar eles a escolherem as roupinhas, sentar com eles no chão e brincar com eles. Gosto de viajar, nem que seja uma viagem curta, mas estou sempre envolvida com essas coisas.
Nesse ano em especial, quero dar mais foco ao fisiculturismo. Em 2020, pretendo não concorrer tantas vezes como no ano passado. Pretendo escolher duas competições, com o nível mais elevado e me dedicar afinco. Espero conseguir participar da minha primeira competição internacional, de preferência nos Estados Unidos. Gosto de estar sempre inovando, então 2020 com certeza não será igual 2019.
 

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