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'Além da Ilusão' promete fugir de erros de novelas de época

'Há uma preocupação em contemplar as agendas atuais', diz a autora, Alessandra Poggi

Gaby Amarantos é Emília em 'Além da Ilusão'; na foto, a personagem aparece ao lado de seu filho, Jojo (Nicolas Parente), e seu marido, Cipriano (Claudio Gabriel) - João Miguel Júnior/Globo

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Campinas

Uma história sobre luta, humanidade, sonhos e relacionamentos: é assim que o elenco de "Além da Ilusão" define a próxima novela das seis. Escrito por Alessandra Poggi, o novo folhetim da da Globo, que estreia no dia 7 de fevereiro, tem se cercado de cuidados para tratar temas como a diversidade e a pluralidade em seus capítulos.

A trama se passa entre as décadas de 1930 e 1940, em um cenário de organização popular em busca de melhores condições de trabalho em uma tecelagem. Apesar de retratar um tempo passado, a atualidade dos temas apresentados no enredo é consenso entre os 13 atores que participaram do encontro virtual com jornalistas na terça-feira (25).

"A época é a cereja do bolo para contar uma história que poderia acontecer a qualquer momento", explica Rafael Vitti, 26, o mágico Davi.

Essa foi a intenção de Alessandra Poggi, autora da novela. A escritora partiu do imaginário da época para criar uma narrativa de fantasia, com figurinos e cenários diferentes, mas sob a perspectiva do século 21.

Entre as personagens, encontram-se Letícia (Larissa Nunes), Bento (Matheus Dias) e Abílio (Luciano Quirino), todos interpretados por atores negros.

Liados por meio do trabalho, os três personagens se aproximam também por afeto: na segunda fase, Letícia é noiva de Bento, e o rapaz é filho de Abílio. Apesar de comum, o amor entre pessoas negras não é praxe nas telenovelas.

Em suas redes sociais, Matheus Dias destacou o fato de seu personagem ter um pai. Questionado pela coluna sobre o episódio, o ator falou sobre seu sentimento de realização.

"Para mim é muito importante poder falar sobre todos os assuntos que a novela traz: primeiro, que o Bento é um cara que sonha em ser escritor nos anos 1940, é um cara que estuda, é apaixonado, que tem uma estrutura familiar, mas é órfão de mãe, e tem um pai", diz.

"Ao longo dos trabalhos que já fiz, eu não tive um pai. Geralmente a gente não tem pai, não tem família, a gente está ali só para compor [o elenco]. E essa história, dessa vez, traz essa conexão entre pai e filho, e fala muito sobre o amor dos dois".

Segundo ele, a aproximação foi do cenário à vida real: "Eu tive uma relação muito bonita com o Quirino ao longo desse processo, ele meio que me adotou", conta, sorrindo.

"Ao longo do tempo, a história das novelas vai se moldando e mostrando que a gente [pessoas negras] pode se amar, que a gente pode ter uma família, que a gente pode ser escritor nos anos 1940, e que a gente pode ter um amor de verdade", conclui.

Estreante na Globo, Larissa Nunes, 25, será a professora Letícia. Para ela, "Além da Ilusão" se destaca por equilibrar a força e a influência desses personagens com a humanidade e as subjetividades deles.

"São muitas figuras que aparecem na novela, principalmente no núcleo preto, que falam sobre um Brasil que também existiu nos anos 1940, sem deixar de colocar e frisar que esses personagens também sonhavam, também buscavam por uma leveza, por uma generosidade na vida", afirma.

Sobre a professora Letícia, sua personagem na segunda fase da novela, a atriz comenta: "Apesar de ser muito responsável pela família e dedicada, ela também é meiga, idealista e se dá o direito de ser uma jovem romântica. Acredito que isso tem também a sua força na dramaturgia, principalmente trazendo novas imagens de personagens negras para a televisão".

Construção da diversidade na trama

O diretor artístico Luiz Henrique Rios afirmou ter mantido a fórmula aplicada em "Bom Sucesso" (2019) em seu novo trabalho, contratando profissionais negros para todos os setores de produção da novela.

Segundo ele, mais de um terço do corpo de atores é negro, e nos bastidores há especialistas de direção, cinegrafia e figurino.

Rios destaca a diversidade de profissões ocupadas pelo núcleo negro: há um médico, uma cantora, uma professora e um delegado negros, além dos profissionais da fábrica. Outro ponto abordado foi a presença de famílias negras e inter-raciais, com personagens em todos os estratos sociais.

"A gente não quis representar exatamente o [ano de] 1940 no Brasil, ou o [ano de] 1930. A gente vem de um lugar difícil dessa representação, porque os lugares eram muito pré-determinados na história do Brasil", explica.

Segundo ele, o que dificultou a contratação de um número maior de atores negros para a novela foi o fato de a história se desenvolver ao redor de uma família branca —o que se mantém ao longo dos 70 anos de telenovelas no Brasil.

"Mas tem uma grande área da história que é mais popular, e ali sim tem uma grande representatividade negra", conta.

A autora Alessandra Poggi complementou: "A gente está fazendo uma novela dos anos 1930 e 1940, mas a gente está fazendo ela nos dias de hoje. Então, claro que há uma preocupação em contemplar as agendas atuais, entre elas, a da negritude".

Ela revelou que conta com a ajuda do filósofo Renato Nogueira, estudioso da filosofia africana e membro do coletivo "Pais Pretos Presentes", e do escritor Nei Lopes, compositor, cantor e pesquisador das culturas africanas, que revisam o roteiro com ela, e sugerem ajustes ou correções.