Tony Goes

Por que Pabllo Vittar faz mais sucesso do que Liniker?

De uns dois, três anos para cá, a música brasileira se encheu de artistas que não só se identificam abertamente como LGBT, como também cantam letras que falam explicitamente de suas experiências como tal.

A lista é grande: Johnny Hooker, Liniker e os Caramelows, Jaloo, Banda Uó, As Bahias e a Cozinha Mineira, Rico Dalasam, Linn da Quebrada e muitos, muitos outros.

Mas apenas um único nome está prestes a ficar conhecido para além do nicho mais antenado (para não dizer gay, porque inclui muitos simpatizantes).

É a drag queen Pabllo Vittar, que manteve um prenome masculino e não faz a menor questão de ser tratada como "o" ou "a" Pabllo.

Em menos de dois anos de evidência, o/a artista já emplacou uma série de hits, gravou duetos com artistas mainstream como Anitta e Preta Gil e assinou contrato com uma grande gravadora.

Só não se apresentou ao lado de Sandy no último "Criança Esperança", exibido pela Globo no dia 19 de agosto, por motivo de saúde. Como se não bastasse, está negociando uma participação na novela "A Força do Querer", na mesma emissora.

Enquanto isto, seus colegas de movimento continuam fazendo shows que lotam Brasil afora - sem, no entanto, atingirem um público mais amplo.

Por que isto acontece? Uma razão óbvia é que Pabllo  Vittar segue à risca a fórmula consagrada por divas internacionais como Britney Spears ou Rihanna: entregou-se nas mãos de produtores experientes, que compõem (fabricam?) sucessos de refrões pegajosos para ela.

Mas vai além disso. A maioria das letras do repertório de Pabllo não é específica a nenhum gênero. São canções de amor, que, se fossem em inglês, poderiam estar na voz de garotas hétero e cis (o oposto de trans - alguém que assume o gênero biológico com que nasceu) como Britney ou Rihanna.

Pabllo conta como sofreu bullying desde que nasceu, no interior do Maranhão. Mas não se faz de vítima, nem cobra nada de seus fãs. Sua mensagem política está em sua própria imagem, não tanto nas músicas.

Enquanto isto, a cantora trans  Liniker provocou nos últimos dias uma pequena polêmica nas redes sociais. Ela foi ao Instagram Stories para contar como foi "objetificada" em "seu corpo preto" ao descer na plateia de um show em Santa Maria (RS).

"Alvoraçaram minha bunda", queixou-se Liniker. Com razão, claro: ninguém está autorizado a alvoroçar a bunda do outro sem convite expresso.

Por outro lado... Qualquer artista que se misture ao público sem um cordão de seguranças ao redor corre o risco de ser trucidado vivo. Isto vale para Liniker, Ivete Sangalo, Luan Santana, Roberto Carlos, qualquer um.

A ingenuidade de Liniker mostra que ela não está preparada para voos maiores. Talvez nem queira mesmo: uma fonte da Globo me confirmou que ela recusou que uma música sua entrasse para a trilha sonora da novela "Haja Coração" (2016).

É uma escolha válida, e ninguém tem nada a ver com isto. Mas também explica por que Pabllo Vittar, sempre disponível e bem disposta, esteja em vias de se tornar o mais popular artista queer brasileiro desde Ney Matogrosso.


Tony Goes

Tony Goes tem 56 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.blogspot.com

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