Renato Kramer

Wanderléa prova que quem é rainha jamais perde a majestade

A eterna "Rainha da Jovem Guarda" não deixou pedra sobre pedra no palco do Teatro Porto Seguro (SP), nesta terça-feira (22), onde apresentou o show cujo título ela definitivamente faz jus: "Wanderléa Maravilhosa".

O show revisita o repertório do disco homônimo lançado em 1972, que, por trazer um estilo mais arrojado e totalmente diferente do que a cantora apresentava nos tempos do programa "Jovem Guarda" (TV Record/1965-1968), foi um tanto rejeitado pelo seu grande público que ainda a queria como a Ternurinha.

Em "Wanderléa Maravilhosa" aparecem canções como "Back in Bahia" ( Gilberto Gil), "Vida Maneira" e "Deixa" (Hyldon), "Valsa Antiga" (Roberto Menescal/ Paulinho Tapajós), os chorinhos "Uva de Caminhão" (Assis Valente) e "Casaquinho de Tricot" (Paulo dos Santos Barbosa), "Alegria" (Fábio), "Badalação" (Nonato Buzar/ Tom/ Dito), "Telegrama" (Cacau/ José Renato), "Tempo de Criança" (Levine/Russel Brown - versão: Mazola), a indefectível "Quero ser Locomotiva" (Jorge Mautner) e a última balada que Rossini Pinto compôs para a cantora: "Mata-me Depressa" –e que por manter o estilo romântico da Ternurinha foi a única que estourou nas paradas de sucesso da época.

Acompanhada por músicos de primeira qualidade, regidos pelo talentoso diretor musical e guitarrista Lalo Califórnia, assessorada por três belas 'backing vocals', entre elas as filhas Jadde e Yasmim Flores, Wanderléa entrou em cena, repito, fazendo jus ao nome do show: maravilhosa.

A cantora estava exuberante, num longo de rendas e transparências bordadas em brilhos dourados e em tons de ocre, com botas de salto alto no mesmo tom, combinando com a vasta cabeleira estilo leoa que sempre a caracterizou. O carisma de Wanderléa entra em cena antes dela, tal o seu poder de sedução.

"Tomara que a mágica aconteça novamente nesse show", me disse a cantora dois dias antes. E eu, como fã nº 1 confesso, lhe respondi simplesmente: "Vai acontecer. Basta você entrar em cena". E aconteceu. A qualidade da banda, do repertório refinado, das interpretações sensíveis e maduras, da voz bem trabalhada com o seu delicioso timbre personalíssimo fizeram do show "Wanderléa Maravilhosa" um verdadeiro acontecimento. 

Algumas canções entraram como uma espécie de bônus: "Chuva, Suor e Cerveja" (Caetano Veloso), "Brasileirinho" (Waldir Azevedo), o sucesso de Carmen Miranda  "Chica Chica Boom Chic" (Harry Warren/ Mack Gordon), e a emocionante "Feito Gente" (Walter Franco), que foram muito aplaudidas.

Mas é claro que a plateia que acompanha a Ternurinha há 50 anos não iria embora sem um bis. E necessariamente teria que ser "Jovem Guarda" na veia. Bastou ouvir os primeiros acordes de "Eu Gostaria de Saber" (Spector/ J. Barry/ E. Greenwich - versão Luiz Keller) que a plateia toda levantou e cantou junto, em meio a gritos e aplausos.

Mas não se conteve mesmo quando logo a seguir a Ternurinha resgatou a sua imbatível "Prova de Fogo" (Erasmo Carlos). Aí todos acorreram ao palco para cantar e dançar bem perto da sua sempre "Rainha da Jovem Guarda", que demonstrou com sua graça que quem é rainha nunca perde a majestade.

Para encerrar com chave de ouro: "Pare o Casamento" (Resnick/ Young - versão: Luiz Keller), o seu hit máximo, gravado há exatos 50 anos, carro chefe do álbum "A Ternura de Wanderléa" (1966). Delírio total. Todos queriam pegar o buquê que a cantora joga no final da canção, fazendo as vezes da moça que implora ao senhor juiz : "Por favor, pare agora".

Sim, querida Léa, a magia aconteceu ainda uma vez. A magia não depende do que vai acontecer no palco. A magia é você. E acontece porque você entra no palco. Glórias à rainha, sempre rainha.

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Bate-Papo com Wanderlea
Bate-Papo com Wanderlea
Bate-Papo com Wanderlea

 

Renato Kramer

Natural de Porto Alegre, Renato Kramer formou-se em Estudos Sociais pela PUC/RS. Começou a fazer teatro ainda no sul. Em São Paulo, formou-se como ator na Escola de Arte Dramática (USP). Escreveu, dirigiu e atuou em diversos espetáculos teatrais. Já assinou a coluna "Antena", na "Contigo!", e fez críticas teatrais para o "Jornal da Tarde" e para a rádio Eldorado AM. Na Folha, colaborou com a "Ilustrada" antes de se tornar colunista do site "F5"

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